Uma parte influente da esquerda europeia descobriu uma geometria moral curiosa. Quanto mais democrático o país, mais feroz a indignação.Há uma pergunta que evita, sem resposta que se sustente. Por que se indigna mais com um país onde se pode protestar do que com um onde protestar dá cadeia? A voz que enche as praças por Gaza quase não se ouve sobre os uigures ou sobre o Sudão, e a Bienal de Veneza inflama-se com Israel e nunca com a China. A variável nunca foi o sofrimento. Foi sempre a identidade de quem o causa.Israel e a América de Trump pagam caro o que mais devia protegê-los: serem democracias. Democracias de direita, por vezes radical, mas democracias. O inimigo desta esquerda não é o tirano distante. É o adversário de casa, aquele que teme ver crescer à sua porta. Israel é o ecrã onde projecta a guerra que de facto trava contra a sua própria direita.Sob essa projecção, um ódio muito antigo reencontrou um nome aceitável. Mudou de pele. Foi religioso, foi racial, é hoje anti-sionismo. Nem todo o anti-sionismo é anti-semitismo, e seria desonesto dizê-lo. Mas uma parte significativa funciona como o seu veículo politicamente admissível e diz em praça pública o que o anti-semitismo já não autoriza. A esquerda que não toleraria nenhum outro racismo tolera este, porque o elevou a causa. Deixou de ser ódio para passar por virtude, e a quem o aponta responde que o inventou.Para lá chegar, trocou os factos por narrativas. Sobre quem atacou primeiro, a quem pertence a terra, e até sobre o 7 de Outubro, diluído em reticências como se a barbárie precisasse de contexto. E têm autores. Uma franja da extrema-esquerda europeia estabeleceu, em vários contextos, uma aliança implícita com o islamismo político ligado à Irmandade Muçulmana, que fornece parte do enredo e ganha respeitabilidade.Dirão que a culpa é de Israel, da coligação de Netanyahu. Não escondo o que já escrevi. Há naquela coligação uma direita messiânica, bem representada em Ben Gvir, que não é continuidade, mas ruptura, e é um perigo para o próprio Israel. Criticar este governo é legítimo. Mas a cronologia desmente o álibi. A hostilidade não nasceu com esta coligação, que a encontrou já formada. Primeiro a sentença, só depois a procura do crime.A fronteira, para quem a quiser ver, é simples. Uma coisa é criticar um governo. Outra é negar a um povo o direito de existir e de se defender. A primeira é política. A segunda tem outro nome, e é antigo.Nada disto é inteiramente novo.Há mais de meio século, o filósofo americano Eric Hoffer descreveu a posição peculiar de Israel, num texto que ainda dói. Aquilo que se permite a toda a gente, escrevia, é vedado aos judeus. Outras nações deslocaram milhões e o mundo seguiu em frente. A troca de populações entre a Grécia e a Turquia, as comunidades alemãs expulsas da Europa de Leste e os milhões da partição da Índia foram absorvidos sem gerar um problema de refugiados eterno. Houve, em 1948, uma segunda vaga esquecida. Perto de um milhão de judeus foram forçados a deixar as terras árabes, e Israel acolheu-os sem campos, sem agência da ONU e sem direito a regresso. O mundo esqueceu-os. Só os do outro lado se tornaram uma ferida transmitida de geração em geração. E quando outras nações vencem uma guerra, ditam a paz. De Israel vitorioso exige-se que a peça.Daí a frase. Toda a gente espera que os judeus sejam os únicos cristãos verdadeiros do mundo. Não é religião, é ironia. Exige-se-lhes a outra face, uma santidade que nação nenhuma pratica. Que sejam mais cristãos do que os cristãos. E quando se defende como qualquer Estado que quer durar, é o pior dos pecadores. Santo exigido, pecador declarado. É o duplo critério em estado puro, e diz muito menos sobre Israel do que sobre quem o aplica.Sánchez é o caso clínico. Em Espanha, o anti-israelismo tornou-se instrumento de sobrevivência política, reconhece-se um Estado palestiniano quando a maioria aperta e a política externa faz-se à medida das alianças de que depende. Mede-se a indignação em votos, não em mortos.Mas nada disto é apenas cálculo. É também desorientação e conforto. Esta é a esquerda das sociedades mais saciadas, e o conforto pede uma indignação que não custe nada. Uma virtude de varanda. A social-democracia perdeu a bússola, trocou a justiça social por uma contabilidade de vítimas. Num mundo que se desloca para a direita, responde ao populismo com populismo. O anti-israelismo é esse populismo. Barato, mobilizador, moralmente cómodo.No fim, esta esquerda julga defender os fracos. Defende, quando muito, os fracos convenientes. E, entre os fortes, escolheu apenas os que mais lhe desagradam. Confundiu essa escolha com uma consciência. E não percebeu que, ao perder a medida do mundo, o que arrisca não é o futuro de Israel. É o seu próprio. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico