A Figura do Dia. Faísca: o cão abandonado no cemitério

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Dizem-me que em Taveiro, em todas as páscoas, a comunidade enfrenta a noite para rezar por almas perdidas. Na vila, há o Estádio Sérgio Conceição e o Faísca, um cão que não gosta de bola, pelo menos nunca ninguém o viu por lá, mesmo nos treinos de seleções nacionais jovens o bicho prefere passear pelas ruas da vila, visitar os amigos que foi conhecendo, entrar nos cafés ou sentar-se tranquilamente ao sol a ver as vistas.

Faísca foi abandonado no cemitério em 2024. Era pequenino, 2 ou 3 anos, não mais. Um homem encontrou-o no portão, entre os jazigos e o crematório. Parecia estar à espera, mas tremia de medo e espanto.

"Quando o encontraram à espera de quem nunca voltou, estava triste e cheio de medo, mas agora é livre e, como cada um de nós, tem as suas rotinas, passeios, amigos, ossos e brincadeiras."

O homem deu-lhe água e comida. E no dia seguinte voltou ao cemitério, onde o pequeno Faísca estava na mesma posição, talvez menos espantado e com menos esperança. Percebia-se que alguém lá estivera, o Faísca tinha comida e água fresca.

Esta é a história de um cão, mas também a de uma comunidade que adotou Faísca e o fez seu inquilino.

Quando o encontraram à espera de quem nunca voltou, estava triste e cheio de medo, mas agora é livre e, como cada um de nós, tem as suas rotinas, passeios, amigos, ossos e brincadeiras.

Faísca "faz a sua vida e quando escurece regressa a casa, perto do cemitério onde a comunidade se reveza para que a sua casinhota esteja limpa e os pratos com comida farta, bebida limpa e um ou outro miminho (...)."
Faísca "faz a sua vida e quando escurece regressa a casa, perto do cemitério onde a comunidade se reveza para que a sua casinhota esteja limpa e os pratos com comida farta, bebida limpa e um ou outro miminho (...)."FOTO: Facebook

Faz a sua vida e quando escurece regressa a casa, perto do cemitério onde a comunidade se reveza para que a sua casinhota esteja limpa e os pratos com comida farta, bebida limpa e um ou outro miminho que, de vez em quanto, lhe toca.

Parece ter pouca importância, mas não desvalorizemos as coisas pequenas que são grandes. Sobretudo nestes dias de descrença.