A Cimeira da NATO em Ancara tornou impossível continuar a ignorar a possibilidade de uma agressão russa contra o espaço europeu até ao final da década. Passou a ser uma hipótese estratégica que exige preparação, dissuasão e vontade política. A Europa enfrenta uma ameaça concreta e precisa de construir uma capacidade de Defesa real, coordenada e tão autónoma quanto possível. Ancara confirmou também uma segunda evidência: o apoio dos Estados Unidos, embora indispensável, deixou de poder ser tratado como uma garantia automática.Os Estados europeus têm de corrigir um erro de avaliação: interpretar Moscovo como se o Kremlin calculasse os seus atos segundo uma lógica económica racional de custos e benefícios. Não é assim. A sua visão estratégica é moldada por outras forças: a sobrevivência do regime, o ressentimento histórico face ao Ocidente, a obsessão com a esfera de influência perdida e a necessidade de projetar força para impedir qualquer perceção de fraqueza.É por isso que a continuação e a intensificação da guerra russa contra a Ucrânia aumentam o risco europeu. Esta crise, desencadeada pelo Kremlin, tem de terminar sem mais demora. À medida que Kiev demonstra capacidade para atingir infraestruturas críticas no interior da Rússia, a vulnerabilidade do poder de Vladimir Putin torna-se mais visível. Esses ataques corroem uma autocracia centrada num só rosto, cuja autoridade depende da repressão interna e da aparência de invencibilidade externa. O perigo maior é que o Kremlin, se se sentir encostado à parede, procure recuperar a iniciativa através de uma escalada contra países da NATO, pressionando o Ocidente a ceder e tentando forçar a Ucrânia à capitulação.Essa ameaça não seria uma invasão territorial maciça, à imagem das guerras do século XX. O contexto tecnológico mudou a natureza da agressão e reduziu o tempo disponível para decidir. O risco pode surgir de operações cirúrgicas, localizadas e de grande impacto político. A Rússia dispõe de sistemas de mísseis, incluindo hipersónicos, capazes de atingir infraestruturas na Europa Ocidental em poucos minutos. Sob uma lógica de escalada controlada, um ataque de precisão contra um porto, uma central energética, um nó de comunicações ou uma base militar não teria de significar o início de uma guerra total. Poderia bastar para paralisar a decisão política da Aliança. Cada míssil seria também uma mensagem coerciva.Em paralelo, a agressão poderia assumir a forma de operações rápidas em pontos vulneráveis: Svalbard, no norte da Noruega, essencial para a vigilância do Ártico; Gotland, na Suécia, decisiva para o controlo do Mar Báltico; ou o corredor de Suwalki, entre a Polónia e a Lituânia, comprimido entre Kaliningrado e a Bielorrússia. Uma ocupação relâmpago, ainda que limitada no espaço e no tempo, teria um objetivo claro: cortar acessos, criar factos consumados e obrigar a NATO a escolher entre responder, negociar ou hesitar.O alvo seria a coesão aliada. Se a Rússia avançasse e a NATO hesitasse, o Artigo 5.º não desapareceria do papel, mas perderia substância política. A Aliança continuaria a existir; ficaria, porém, com uma credibilidade reduzida. E uma aliança que já não intimida o agressor aproxima-se da velha imagem chinesa, retomada por Mao, do tigre de papel.A transição para uma espécie de “NATO 3.0”, em que a Europa terá de assumir uma parte muito maior da sua própria Defesa, cria um período de vulnerabilidade crítica. A cimeira deixou claro que a Europa não pode organizar a sua segurança partindo do pressuposto de uma presença americana constante, previsível e politicamente incondicional.Mais ainda: qualquer insistência americana em pretensões territoriais ou de controlo sobre a Gronelândia – tema novamente agitado por Donald Trump em Ancara – introduziria uma tensão grave no coração da Aliança. Moscovo tenderia a ler uma fratura transatlântica dessa natureza como uma oportunidade para testar a solidez da NATO, explorar divisões e acelerar as suas operações na zona cinzenta.No meu artigo precedente – “A NATO e a armadilha das linhas vermelhas”, de 3 de julho de 2026 – sublinhei que uma das respostas mais perigosas seria anunciar “linhas vermelhas”. O pensamento linear falha perante a guerra híbrida e perante as manobras que decorrem na penumbra da zona cinzenta. Ao proclamar ultimatos absolutos, a Aliança arriscar-se-ia a ser empurrada para uma escalada que não deseja ou, pior ainda, a expor as suas hesitações. O que se exige é ambiguidade estratégica: capacidades militares reais, prontidão demonstrável e opções de resposta suficientemente imprevisíveis para tornar o cálculo adversário mais difícil. A Europa tem de investir de modo coordenado nas suas Forças Armadas e, simultaneamente, preservar a linguagem e a prática da paz.Reconhecer que uma agressão russa é uma possibilidade real no horizonte de 2030 não é alarmismo. É prudência estratégica. O rearmamento europeu não deve ser apresentado como uma marcha para o confronto, mas como uma condição para o evitar. Quando se tem por vizinho um poder que transforma a história em reivindicação imperial e a força em argumento diplomático, a paz tem um preço elevado. Mas o preço da impreparação seria incomparavelmente maior. É isto que deve ser explicado aos cidadãos, sem eufemismos nem dramatizações inúteis.Dissuasão e defesa não substituem a diplomacia; dão-lhe peso. Uma Europa frágil pode sugerir a abertura de um diálogo, mas dificilmente será ouvida. Uma Europa forte, coerente e autónoma pode propor a Moscovo uma negociação credível, sustentada e orientada para a estabilidade. O diálogo com a Rússia será sempre estéril se for conduzido a partir da dependência, da divisão ou do medo.Preparar o impensável não significa desejar a guerra. Significa impedir que outros a considerem vantajosa. Para garantir a paz – e esse continua a ser o objetivo maior –, a Europa tem de estar pronta para responder a cenários que até há pouco pareciam inconcebíveis. A paz depende da credibilidade da nossa determinação.