Na próxima semana, os chefes de Estado e de governo de 32 países reunir-se-ão em Ancara para a Cimeira Anual da NATO. O encontro decorrerá num contexto internacional complexo, marcado por novas crises regionais e compromissos de Defesa históricos – na sequência das exigentes metas orçamentais aprovadas no ano passado em Haia. A somar a isto, há um debate interno mais intenso sobre como responder a uma Rússia que, além da invasão ilegal da Ucrânia, ameaça a Europa Ocidental.No que respeita a Moscovo, a reunião deverá refletir o choque entre duas visões. Uma exige o fim da política de “ambiguidade estratégica” da NATO, defendendo que a Aliança deve traçar linhas vermelhas contra as sabotagens russas. A outra adverte que, fazê-lo, é cair numa armadilha que poderá arrastar a Europa para um confronto catastrófico.Para a NATO responder eficazmente aos desafios da próxima década, a cimeira terá de forjar uma síntese: clareza política sobre a ameaça que enfrentamos e sobre o papel da Aliança, combinada com uma ambiguidade deliberada e assimétrica sobre os tipos de resposta possíveis.Qualquer síntese tem de partir de um facto tantas vezes silenciado: a NATO é, por tratado, uma aliança de defesa coletiva cujo propósito fundador é a segurança dos seus membros. Deve ficar claro que não se trata de um pacto ofensivo dirigido contra Moscovo ou qualquer outro Estado. Quando participou em operações fora da sua área, fê-lo por considerar, certa ou erradamente, que estava em causa a estabilidade euro-atlântica. A experiência ensinou-nos, agora, que essas operações requerem uma justificação política e jurídica exigente.O Kremlin tem recusado reconhecer o direito de cada Estado soberano de escolher as suas alianças. A título de exemplo, refira-se que a Finlândia e a Suécia não aderiram à NATO por imposição da Aliança, mas sim porque os seus cidadãos decidiram, democraticamente, que a adesão reforçaria decisivamente a sua segurança.A aspiração da Ucrânia a uma integração mais estreita nas estruturas europeias e euro-atlânticas não é diferente – trata-se de uma escolha soberana. A Rússia não tem qualquer direito de veto sobre as decisões independentes dos seus vizinhos. Tratar a política de porta aberta da NATO como um ato de hostilidade não é uma atitude legítima; é uma reivindicação obsoleta baseada na teoria das esferas de influência que o Direito Internacional não reconhece e que o carácter defensivo da NATO contraria.Os defensores da clareza têm razão no diagnóstico: a ambiguidade, quando confundida com ausência de resposta, fracassa. A estratégia da NATO tem consistido em deixar indefinidas as fronteiras do tolerável. Assim, Moscovo parece ter visto essa contenção como hesitação e fragilidade. Por isso, intensificou nos últimos anos as suas campanhas de desestabilização contra vários Estados da Europa Ocidental, recorrendo a drones, ataques cibernéticos, meios navais, bem como a operações de eliminação e tentativas de assassinato de personalidades europeias e antigos espiões que se refugiaram na UE e no Reino Unido.Isto não são meros incidentes na zona cinzenta. São atos hostis que, em certos casos, podem aproximar-se do limiar da guerra. Recusar nomeá-los pode transmitir a perceção de que esses atos ainda não ultrapassaram a barreira política que desencadearia uma resposta mais dura. Manter-se em silêncio para evitar o agravamento da situação é uma falsa prudência.Por outro lado, os pragmáticos têm igualmente razão. Exigir que a NATO defina linhas vermelhas públicas e inequívocas para um confronto híbrido ignora o princípio fundamental da dissuasão: uma linha vermelha só tem credibilidade se os Estados-membros estiverem preparados para responder, incluindo, em último recurso, com meios militares, a uma violação deliberada.Se a NATO declarar que sabotar uma infraestrutura crítica de telecomunicações constitui um ato de guerra, o que acontece na manhã seguinte? Responder com força militar pode desencadear um conflito alargado. Não responder energicamente expõe a linha vermelha como um bluff. Esse desfecho seria um desastre, capaz de comprometer gravemente a credibilidade da NATO. A ambiguidade estratégica não revela fraqueza; confere flexibilidade para decidir qual a retaliação mais adequada e deixa o adversário na dúvida quanto aos limites que não deve ultrapassar.Uma declaração forte dos 32 Estados-membros, de que as operações clandestinas constituem ações hostis contra a segurança dos aliados, dará aos governos o mandato político para mobilizar recursos, reforçar infraestruturas e explicar aos cidadãos o que está em jogo – reafirmando, no mesmo fôlego, que a NATO nada pretende da Rússia além do respeito pela soberania e pela segurança dos seus membros.A cimeira terá de se focar em três vertentes políticas essenciais: primeiro, o reforço da cooperação no interior da NATO; segundo, a intensificação do apoio dos diversos Estados aliados à Ucrânia; e, terceiro, a coragem de tomar iniciativas diplomáticas que sirvam a paz.A nível operacional, certas linhas exigem igual atenção: é imperativo afinar a capacidade de análise – assente numa cooperação sem reservas com os serviços de informações aliados –, aumentar a vigilância marítima, proteger as infraestruturas críticas e investir substancialmente na área cibernética.Nada disto exige que a NATO se torne algo diferente daquilo que sempre foi. A Aliança não precisa de linhas vermelhas rígidas, nem de proclamações que a obriguem a escolher entre a escalada e a perda de credibilidade. Deve afirmar, com todas as letras, que não procura cercar a Rússia nem ameaçar a sua segurança, mas que não aceitará a intimidação, a sabotagem ou a subversão como instrumentos normais de relação entre os Estados. A sua força estará nesse equilíbrio: firmeza política, prudência estratégica e uma determinação que o adversário não consiga medir nem antecipar.