Foi com fama de ter “um forte instinto de perseguição e caça”, desenvolvido no tempo que passara nas ruas que Larry chegou a Downing Street naquele mês de fevereiro de 2011. O seu cargo oficial: Chief Mouser to the Cabinet Office - algo como Ratoeiro-chefe para o Gabinete do primeiro-ministro. No famoso número 10 vivia na altura o conservador David Cameron. Foi com ele que Larry conheceu os seus primeiros líderes estrangeiros (um dos primeiros foi o presidente dos EUA, Barack Obama, fotografado para a posteridade a fazer-lhe uma festinhas). Mas em 2016 Cameron decidiu convocar um referendo sobre o Brexit, convencido da vitória do não, apenas para ver o sim vencer e ditar a saída do Reino Unido da União Europeia - e a ainda mais rápida saída do primeiro-ministro do cargo . A instabilidade instalou-se então na política britânica e os chefes do governo sucederam-se a bom ritmo, sempre sob o olhar vigilante do gato Larry. Desde a saída de Cameron já passaram pelo número 10 de Downing Street outros cinco primeiros-ministros: Theresa May, Boris Johnson, a efémera Liz Truss, Rishi Sunak e agora Keir Starmer. Ao todo, Larry já conviveu com cinco conservadores e um trabalhista. E nestes anos de incerteza política, o Chief Mouser (um cargo que se diz remontar ao século XVI, aos tempos do rei Henrique VIII, mas que está oficialmente registado desde os anos 1920) foi ganhando fama. Fosse pelas brigas públicas em que se envolveu com o vizinho Palmerston, o ratoeiro do número 11, fosse pela presença quase constante nas fotografias dos dirigentes mundiais de passagem por Downing Street ou pela arte que aprimorou de pedir aos polícias destacados para guardar o número 10 para lhe abrirem a porta com um simples olhar. .Momentos todos eles registados pelos muitos jornalistas que todos os dias se juntam em Downing Street e que nesta décadas e meio aprenderam a ganhar as boas graças de Larry com uns biscoitos. Na esperança, quem sabe, de o apanhar a perseguir um rato, um pombo ou mesmo uma raposa. E na sua longa vida - já celebrou o 19.º aniversário, o que, diz-se, faria dele o equivalente a um (muito ativo) nonagenário humano - Larry já foi notícia não só nos media britânicos, da BBC ao The Guardian, mas também no brasileiro G1, no espanhol El Mundo, no New York Times ou no Times of India. E até tem a sua própria conta no X, com a amável colaboração de um humano que tem conseguido manter-se anónimo.Agora, Larry surge como pilar de estabilidade felina em plena nova crise no governo de Londres. Esta alimentada pelas críticas a Starmer devido à nomeação de Peter Mandelson como embaixador nos EUA, entretanto afastado por ligações ao agressor sexual Jeffrey Epstein, e agravada pela pesada derrota do Labour nas eleições do dia 7, locais em Inglaterra e para os parlamentos da Escócia e País de Gales. Com o ministro da Saúde, Wes Streeting, a demitir-se e abrir caminho para se lançar na corrida à liderança, parece muito provável que Larry ainda venha a conhecer o seu sétimo primeiro-ministro. Seja Streeting, Angela Rayner, Andy Burnham ou outro nome.