Terminado o Mundial mais polémico e mediático de sempre – o de 2026, organizado por americanos, canadianos e mexicanos –, começamos a olhar, quer queiramos, quer não, para o Mundial de 2030. Deixemos à FIFA a resolução das suas questiúnculas e disputas de poder internas, a que já nos habituámos. O foco agora é outro.Afinal, a procissão ainda vai no adro e o evento já promete dar que falar. Não apenas pelo facto de voltar a ser uma organização tripartida e intercontinental, unindo povos e camisolas distintas (mesmo que por vezes até pareçam as mesmas). Enquanto Espanha e Portugal pertencem à UEFA, Marrocos integra a CAF. Nem tampouco dará que falar pela particularidade geográfica de o torneio começar na América do Sul – com três jogos no Uruguai, Argentina e Paraguai – antes de viajar até ao outro lado do Atlântico.Mais do que os 104 jogos em disputa, há uma realidade humana subjacente que deve ser antecipada. Não podemos conceber um Mundial de 2030 onde seleções e adeptos fiquem sujeitos a processos burocráticos ou fronteiriços pouco dignificantes ao circularem entre as fronteiras do torneio.Numa perspetiva de copo meio cheio, este Mundial pode ser o incentivo (input) que faltava para que Bruxelas decida finalmente agir. A Europa enfrenta uma crise humanitária à qual se continua a fechar os olhos, preferindo ignorar olimpicamente o que se passa às suas portas.Recentemente, fomos confrontados com imagens de nova pressão migratória em Ceuta. O fenómeno não é inédito, mas choca pela proximidade e pela displicência com que o tema continua a ser tratado pelas instituições europeias. Apesar da especificidade territorial de Ceuta, não deixa de ser território europeu. Mas mais: este assunto não é uma mera matéria de soberania nacional. É um problema europeu.A integração europeia, quando transitou da vertente económica para a política e social, visou precisamente estas matérias. Porém, falhou redondamente. Pior do que falhar é verificar que não há uma liderança clarividente que nos assegure soluções estruturais de futuro. O projeto europeu tem-se revelado um fracasso no que toca à coesão política e social. Infelizmente, somos nós quem tem de coexistir com este vazio estratégico, logo nós que sempre depositámos tanta confiança no ideal europeu.Talvez por isso, o ano de 2030 e o seu Mundial possam servir de ponto de viragem. Um momento para a Europa assumir a sua real posição humanista. O caminho até aqui tem sido difícil, mas urge ultrapassar os obstáculos ideológicos e burocráticos.A ação rápida de defesa europeia teima em prender-se numa teia burocrática. Ao demorar 90 dias a entrar em ação, torna-se parte do problema. Ao mesmo tempo, a modernização através das novas tecnologias de informação e dos sistemas de controlo de acesso revelou-se um flop de tal ordem que vários Estados-membros suspenderam – e bem – a sua aplicação. Fomos habituados a esta política de show-off sem qualquer resultado prático, mas com muita entropia no dia a dia de quem tenta entrar e sair do Espaço Europeu.Por outro lado, numa vertente económica, a Europa claudica no momento em que se poderia fazer valer do seu peso enquanto bloco face às crises em curso – quer seja no Médio Oriente, quer seja na já longa guerra da Ucrânia, com influência direta no bolso dos cidadãos. Vemos a passividade e a inatividade do passado. Mais do mesmo. Cada Estado-membro tenta puxar da sua influência junto dos demais, levando a um gradual e natural enfraquecimento da União.A incapacidade de encontrar um lugar à mesa com potências mundiais como a China, os Estados Unidos ou a Rússia coloca a Europa – ou os seus Estados-membros, já que como União ela não parece existir – ao nível da Turquia ou do Paquistão, países que têm vindo a mediar, por exemplo, a crise entre os Estados Unidos e o Irão.Esta passividade faz da Europa um bystander. Na psicologia social, este fenómeno é caracterizado pela difusão de responsabilidade e pela ignorância pluralista: os indivíduos têm menos probabilidade de ajudar uma vítima quando outras pessoas estão presentes. Elevado à escala estatal, este efeito leva a um desligar dos Estados-membros do que se passa no restante espaço europeu, desde que a crise não confine com o seu próprio território. O que conflitua com toda a essência da União.Cumprir calendário e "irmos andando" não nos pode satisfazer, nem na vida privada e muito menos na vida pública. Acredito que saberemos aproveitar a montra global de 2030 para apresentar ao mundo uma Europa com soluções, respostas e propostas viradas para o futuro. Ou mudamos a estratégia, ou precisaremos de novos rostos políticos para alcançar esse desígnio. A inércia da Europa não pode ser a regra; tem, obrigatoriamente, de parar. Mesmo num mundo – ou num Mundial – migrante.