Como certa vez disse João Paulo França Streapco na sua pesquisa académica, que posteriormente virou artigo literário indispensável para qualquer um que se interessa pela intersecção entre futebol e política, "cego é aquele que só vê a bola". A frase, que intitula um estudo sobre o futebol paulistano e a formação de Corinthians, Palmeiras e São Paulo, é daquelas que melhor traduz o que, de facto, significa o jogo: o futebol é parte fulcral da cultura popular de cada país, das suas raízes e origens, e que vê no Mundial – ou Copa do Mundo, como chamamos no Brasil – a sua máxima expressão.Para o povo brasileiro e para tantas outras nações fora do eixo tradicional de poder, trata-se da oportunidade de mostrar que o mais pequeno também pode vencer – que o diga Diego Maradona e a sua vendetta contra os ingleses no México 1986.Nem mesmo a organização – ou falta dela – do Mundial deste ano, de realização difícil de explicar do ponto de vista desportivo, tal como aconteceu no Qatar em 2022 ou acontecerá na Arábia Saudita em 2034, faz diminuir o entusiasmo dos mais apaixonados pelo jogo. No Brasil, por exemplo, a mobilização em torno dos Mundiais sempre ultrapassou as fronteiras do futebol. Em dias de jogos da seleção, empresas flexibilizam horários, escolas acabam mais cedo e escritórios ganham bandeirolas verde-amarelas. Das avenidas de Copacabana às periferias das grandes cidades, passando pelas pracinhas dos pequenos municípios, ruas inteiras são pintadas em homenagem à seleção e aos seus craques.Nos meus quase oito anos em Lisboa desde a travessia d'além-mar, vivi apenas o Mundial de 2022, um torneio tão descaracterizado que, pela única vez na história, foi disputado em dezembro, em pleno inverno europeu – circunstância que, para mim, já lhe retirava a maior parte do encanto: faltou envolvimento da massa com o torneio. Em compensação, pude sentir o sabor do futebol no verão português durante os Europeus de 2021 e 2024 e, sobretudo, na final da Liga das Nações do ano passado.Naquele dia, em pleno arraial dos Santos Populares na Penha de França, em Lisboa, festa e futebol transformaram-se num só, a música fez pausas para dar lugar ao relato vindo de um ecrã em volume máximo e Portugal venceu, para delírio dos foliões.Quer combinação melhor que Mundial e Santos Populares? Só se houver uma Copa do Mundo em pleno Carnaval no Rio. Como fã de festa e cultura popular, a partir de hoje estou pronto para viver o sonho, torcer ao som do pimba e do perfume das sardinhas e ver Portugal trazer o caneco pela primeira vez. nuno.tibirica@dn.pt.Mundial 2026. Qual é o mal de estar nos favoritos?.Mundial. O palco de Toto, Pak e Azzedine