Mundial 2026. Que é o mal de estar nos favoritos?

Pedro Sequeira

Editor-executivo do Diário de Notícias

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Jamie Carragher, ex-jogador, que fez toda a carreira no Liverpool e representou 38 vezes a seleção inglesa, é hoje um dos principais comentadores de futebol a nível internacional, na Sky Sports – tudo o que diz, concorde-se ou não, chega longe. Desafiado pelo jornal The Telegraph a fazer uma previsão do vencedor do Mundial 2026, Carragher apontou a uma final ganha pela França e na qual o adversário seria Portugal.

No Brasil, Neto, outro ex-jogador que no pós-carreira se tornou estrela do comentário televisivo, e que soma mais de oito milhões de seguidores nas redes sociais, também não hesitou em colocar a seleção portuguesa num restrito lote de três favoritas ao triunfo, a par de França e Espanha, excluindo a canarinha desse grupo.

Já o atual selecionador do pentacampeão mundial, o experiente italiano Carlo Ancelotti, não ousou fazer o mesmo: disse que o Brasil é um dos favoritos mas que partilha esse estatuto com mais cinco seleções: França, Espanha, Argentina, Inglaterra e, lá está, Portugal.

O respeito pela seleção portuguesa é inequívoco. E explica-se facilmente pela qualidade dos jogadores convocados por Roberto Martínez. Vejamos apenas alguns exemplos. De Diogo Costa na baliza (vindo de um ano vencedor no FC Porto, coroado com o título de campeão), passando depois por nomes como Rúben Dias (o patrão da defesa, já com 74 internacionalizações), Nuno Mendes (considerado por muitos o melhor lateral-esquerdo da atualidade), Vitinha (3.º na eleição da última Bola de Ouro), Bruno Fernandes (rei das assistências da Liga Inglesa e nomeado para melhor jogador do ano da prova) ou Bernardo Silva (o maestro do poderoso City de Guardiola), e terminando no ataque com Cristiano Ronaldo (pode já não ser o jogador veloz e desequilibrador de outros tempos, mas segue um finalizador exímio, a caminho dos 1000 golos, e com a motivação extra de esta ser mesmo a última oportunidade para levantar o troféu que lhe falta, a Taça Jules Rimet), a qualidade e versatilidade desta seleção é tanta que a verdadeira dificuldade é escolher qual a melhor composição do onze em função do adversário (um luxo, portanto!).

Ainda assim, apesar do reconhecimento internacional e de os jogadores serem os primeiros a ter noção do seu estatuto e da responsabilidade que isso implica, o selecionador nacional voltou a insistir na velha lógica de que ao não assumir o favoritismo estará a resguardar o grupo de pressões indesejadas. “Só uma seleção que já ganhou um Mundial pode ser favorita. Somos candidatos, é a melhor palavra”, disse Roberto Martinez, na apresentação dos convocados para o Mundial. Por esta ordem de ideias, para o treinador espanhol o Uruguai tem mais chances de ganhar o Mundial do que Portugal – isto, sem desprimor para o país campeão do Mundo em 1930 e 1950, 4.º classificado na qualificação sul-americana e 17.º do atual ranking FIFA, no qual Portugal ocupa o 5.º lugar. Além disso, em bom rigor, a palavra candidato pode aplicar-se a qualquer uma das 48 seleções presentes em prova, até ao modesto Curaçau.

Indo Portugal para a 14.ª participação consecutiva em fases finais de Mundiais e Europeus, e perante a abundância de talento deste plantel, não é ainda chegada a hora de abraçar uma comunicação mais ambiciosa e colada à realidade? De que vale querer continuar a vestir pele de cordeiro quando todos já sabem que se trata de um lobo?

Em 2016, no Europeu de França, num dos raros momentos de audácia no discurso de um selecionador nacional, Fernando Santos disse em conferência de Imprensa, após dois empates na fase de grupos, que só voltaria a casa após a final. Não só cumpriu a palavra, como trouxe a Taça nas mãos. Posteriormente, vários jogadores reconheceram que as palavras de Santos foram um boost para a confiança do grupo e um catalisador para o bom desempenho coletivo que terminou com a conquista do troféu. Dez anos depois, aqui está um bom exemplo a que Martínez se podia agarrar.

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