Mourinho round-two. Num clube imperdoável como o Real Madrid ter uma segunda oportunidade é uma improbabilidade. A história merengue, recordista em Ligas dos Campeões, que Mourinho não venceu no Bernabéu, exige resultados e gestão de egos. A reentrada do treinador português mais laureado da história do futebol nos grandes palcos europeus é uma boa notícia para a afirmação lusa. A improbabilidade de voltar a Madrid tem, acima de tudo, a ver com os desafios recentes.
Desde 2019, com a assinatura pelo Tottenham, passando pelos três anos em Roma, até rumar à Turquia e depois ao Benfica, que os holofotes deixaram de estar colocados da mesma forma no setubalense. Em Inglaterra, deixou de comandar colossos e os spurs estavam já em queda de protagonismo; em Itália a Liga Conferência elevou a passagem e a admiração pelo técnico numa equipa sem forma de competir pela Serie A. Faltaram títulos na Turquia e no regresso a Portugal, mas vingou uma nova elasticidade de um estratega máximo: em Istambul e em Lisboa viu-se um Mourinho hábil nas palavras, mais modesto na abordagem com a imprensa e mais solícito a abraçar a ideia de que o futebol mudou há muito e de que não é possível controlar todos os vetores. Isso pode contar mais do que ter um título apenas nos últimos oito anos.
Se aos 40 e poucos anos tinha um plantel do Chelsea convertido ao seu profissionalismo, à periodização tática - que este jornalista que vos escreve estudou e tentou aplicar de forma amadora nas equipas jovens que treinou -, hoje impera o momento, a espuma dos dias e evitar crises comunicacionais e com jogadores. Já todos os treinadores privilegiam a bola, o trabalho coletivo tático, a preparação cuidada com a observação do adversário. Apesar de notório incómodo com a demora de Rui Costa em dar-lhe mais condições, estabilidade ou elogios públicos, manteve-se contido e saiu da Luz sem títulos, mas invicto no campeonato e com um balneário que só o elogiou. E isso tem sido raro na última década de Mourinho.
Sábado (20h30) começa o desafio, o derradeiro, possivelmente, em clubes para ser especial. O Real Madrid não perdeu na preparação da temporada e arranca fora, contra o Espanyol. No banco, ver-se-á se o exigente Mourinho será mais benévolo com os seus jogadores e se tentará travar lutas, como o fez quando chegou há mais de 15 anos. Em 2010, depois de Campeão Europeu pelo Inter, abraçou, corajosamente, o desafio de rebater a melhor equipa da história, o Barcelona de Guardiola. Ficou-se por três meias-finais da Liga dos Campeões, não conquistou, na altura, a sonhada décima, mas foi campeão, com recorde de pontos, no segundo ano de contrato. Cansou de tal forma Guardiola que o catalão saiu de Barcelona.
A despedida do Real, em 2013, foi amarga, em litígio. Agarra agora um desafio de proporções menos bélicas do que essa batalha entre o centralismo e a independência catalã. Mas em 15 anos, o Real ganhou só quatro campeonatos e o Barça de Hansi Flick é bicampeão. “Como podia ensinar ao Sergio Ramos como cabecear uma bola?”, refletiu no documentário biográfico produzido pela Netflix.
Big Mou já entendeu que será na capacidade estratégica que convencerá o plantel de que é, de facto, um dos melhores de sempre. De que será a conduzir um caminho de compromisso que terá o balneário consigo. Idealmente sem ostracizar lendas. Se em 2010 tomou um risco de carreira quando tudo vencera em Milão, agora toma a decisão óbvia: pisa o palco maior à procura de ser o mais especial outra vez. Possivelmente, a última em grandes clubes.