Com Sal e Praia, o nosso mundo individualista ganhou humildade

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O desporto foi, e será sempre, forma de galvanizar regimes políticos, expandir horizontes nacionais e equilibrar a balança entre desfavorecidos e privilegiados. O Mundial de futebol, como os Jogos Olímpicos, tem o condão de arrecadar histórias de vida, exemplos a ter em conta no volume desenfreado de notícias e de metas diárias a que nos propomos sem, tantas vezes, pensarmos no real objetivo para as atingir. Sem pensar em quem, com um peixe acabado de pescar, numa praia paradisíaca, consegue viver feliz, tão feliz como acha que pode ser.

Se em 2010, a África do Sul, na sua cultura descontraída, acolhedora, encantou a Europa e as potências sul-americanas, em 2026 a herança africana tem novo rei: Cabo Verde. Os portugueses terão, naturalmente, uma proximidade histórica a um país que é irmão e que tem tido, em tantos outros momentos, cabo-verdianos integrados na nossa sociedade, conhecidos, inequivocamente, pela predisposição para viver de bem com a vida.

A Cabo Verde devemos um dos maiores jogadores de futebol da nossa história. Nani, nascido na Amadora, mas sempre assumidamente fiel à herança dos pais cabo-verdianos, foi peça imprescindível na afirmação de Portugal como potência futebolística e um dos decisivos dínamos para ganhar o Europeu de 2016, a jogar como segundo avançado, posição que, até hoje, não encontrou ninguém a compreendê-la como o rapaz que vibrou no Manchester United. Os portugueses afeiçoaram-se a Cabo Verde um pouco mais quando a rota turística se adensou nos últimos anos, com a incursão não só pela Cidade da Praia, em São Vicente, mas por trajetos que circundam Fogo, Boavista, Santiago ou Sal. A paixão por Cabo Verde não nasce por encontrar um país desenvolvido, que tenha cumprido os seus desígnios de nação. É, justamente, por Cabo Verde ser o contrário e viver bem com isso: saber que está mais em paz do que as guerras civis que afetam, ciclicamente, África, que tem mais turistas e apreço do que alguma vez conseguiu, e de que sabe apreciar a exata noção de humildade. É um paradoxo de Portugal, que vive, ainda, sem cumprir o que a nossa entrada na Europa prometeu ser.

Sábado de madrugada (01h00), esperaremos ouvir barulho nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, gritos de festa pelo apuramento, à primeira oportunidade na história de Cabo Verde para uma fase a eliminar. Nas asas de Vozinha, com defesas acumuladas frente à campeã europeia Espanha, a ilha ganhou seguidores infinitos. A forma como, terminado com o empate, os jogadores se prostraram, com sal de felicidade a escorrer pelos olhos, marcou o Mundial e a esperança cresceu quando Bubista, um talentoso motivador de homens, voltou a secar o Uruguai. Poucos imaginariam que Cabo Verde fosse chegar ao jogo com a Arábia Saudita com dois pontos e só dependente de si para seguir em frente. No sábado, os pouco mais de 500 mil habitantes do país têm um mundo inteiro do seu lado. E logo frente aos sauditas que têm no dinheiro do petróleo um desafogado império de investimento no futebol para o seu campeonato. O mundo, individualista na maioria das vezes, adotou Cabo Verde como novo filho. Que por umas horas se preze a humildade. Cabo Verde faz-nos tão bem.

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