Cabo Verde de esperança

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Estava a olhar para os resultados eleitorais em Cabo Verde, para como uma vez mais a democracia ali funcionou, e recordei-me de uma entrevista a Abdulrazak Gurnah, o escritor tanzaniano que ganhou o Nobel. O assunto era a África Oriental, e acabei, numa pergunta, por afirmar que, dada a sua história, esta era “provavelmente mais complexa do que a África Ocidental”. Gurnah percebeu depois que, no fundo, eu referia-me ao facto de a costa africana do Índico ter laços antigos com a Arábia, a Índia e até a China, e portanto a colonização europeia ter ali deparado com realidades diferentes das encontradas no Golfo da Guiné, mas mesmo assim aproveitou, e bem, para me falar da enorme diversidade da África Ocidental, que no fundo contribuiu para a enorme diversidade da própria África no seu todo. No fundo, o autor de livros como Paraíso não negou a complexidade da sua região de origem, ele que nasceu em Zanzibar e tem antepassados árabes. Quis foi salientar a complexidade do continente que as potências europeias repartiram entre si numa conferência em finais do século XIX, em Berlim, traçando fronteiras com régua e esquadro, à margem dos povos.

“Bem, em termos de populações locais, a África Ocidental é também extremamente complexa. Quem pensar que todos os países são semelhantes, está enganado. Se pegar em qualquer país, qualquer país, a maioria dos países da África Ocidental foram criados a partir de ou para conveniência colonial. Todas essas fronteiras, na verdade, albergam povos diversos, com línguas diferentes e religiões diferentes. Um país como a Nigéria tem provavelmente dezenas de línguas diferentes, para não falar dos vários grupos étnicos. Assim, o que pode parecer homogéneo, na verdade, não é. Estas diferenças entre, digamos, as pessoas de Camarões, as que vivem no litoral e as que vivem nas terras altas, a diferença entre elas pode muito bem ser como entre os europeus e os africanos, porque se consideram completamente diferentes. Foi apenas no sentido moderno que a ideia de uma identidade africana se tornou algo que as pessoas abraçaram. Antes do período da descolonização, as pessoas viam-se como separadas até dos seus vizinhos. É como Portugal e Espanha. Durante séculos, vocês veem-se como entidades separadas, mas para o resto do mundo, a Península Ibérica, é como se fossem iguais, ou algo do género”, disse Gurnah.

Que têm as palavras de Gurnah que ver com as eleições legislativas em Cabo Verde, das quais saiu vencedor o PAICV, que estava na oposição? Primeiro que tudo, permitem salientar a especificidade histórica cabo-verdiana, um arquipélago desabitado quando no século XV os portugueses lá chegaram. Um país que foi de início entreposto do tráfico de escravos, uma nação que surgiu lentamente da miscigenação. Um Estado moderno que nunca renunciando ser africano, assumiu uma vocação de abertura ao mundo, na sua cultura, mas também através da sua diáspora na Europa e nas Américas; em segundo lugar, porque politicamente Cabo Verde não se deixa limitar por aquilo que visto de fora parece ser a regra em África, e não só a Ocidental: líderes que se eternizam no poder ou golpes militares que se sucedem. A democracia há décadas que ali funciona, e tem passado sempre com sucesso o teste da alternância. Como agora. Como contou a Lusa, ainda antes do discurso de vitória de Francisco Carvalho, o seu rival Ulisses Correia e Silva, presidente do MpD e primeiro-ministro cessante, já tinha reconhecido a derrota e felicitado o líder do PAICV.

O PAICV, que chegou a ser partido único e é um ramo desse PAIGC que lutou contra o colonialismo português em Cabo Verde e na Guiné-Bissau, volta assim a assumir os destinos do pequeno país de 600.000 habitantes, um conjunto de ilhas áridas cujas grandes riquezas são o mar e o engenho do seu povo. Há sempre aperfeiçoamentos a fazer no funcionamento democrático, mesmo que Cabo Verde seja uma das nove democracias de África (segundo o Democracy Index, da Economist) mas o maior desafio é continuar o desenvolvimento, elevando o nível de vida da população. No Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, Cabo Verde surge como o primeiro dos PALOP e entre os dez primeiros da África Subsariana.

Comecei por citar um escritor. Acabo citando outro, o cabo-verdiano Mário Lúcio de Sousa. Também é músico. E já foi ministro da Cultura. Numa entrevista em tempos sobre o que tem sido o caminho de Cabo Verde, respondeu-me assim: “Imaginem um lugar onde não havia um assentamento populacional com expressão e esse mesmo lugar, cinco séculos depois tem um povo, um Estado, um passaporte, um governo, uma bandeira. É um sucesso. É um país que já chegou a perder um terço da sua população devido à fome em alguns lugares, é um país que em 1975 tinha 75% da população analfabeta e que meio século depois da independência está acima dos 90% de população alfabetizada e pertence aos países em vias de desenvolvimento. Ou seja, é um país de desenvolvimento médio, já deixou de ser um país pobre”.

O próximo governo sabe que ainda há muito a fazer, e que o essencial parte dos próprios cabo-verdianos, mas a comunidade internacional deve continuar a apoiar este admirável Cabo Verde. E Portugal, em especial, deve fazê-lo com um sentido de responsabilidade e solidariedade muito forte. Pela história em comum.

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