As boas histórias no regresso das seleções, com o futebol e a política lado a lado

O último ato da carreira de 'Zizou' ficou para a eternidade como um dos principais momentos da história de todos os Mundiais.
O último ato da carreira de 'Zizou' ficou para a eternidade como um dos principais momentos da história de todos os Mundiais. Foto: DR/FIFA
Nuno Tibiriçá

Jornalista

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Quando Zinédine Zidane vestiu a camisola da França pela última vez em partidas oficiais, cravou o seu nome num dos momentos mais inverosímeis da história do futebol.

Naquele dia, a cabeçada de Zizou em Materazzi naquele França 1 - 1 Itália (4 - 5 nos penáltis) de 2006 pôs ponto final na carreira do craque da forma que ninguém imaginava. Um momento que até hoje parece mais coisa de cinema ou literatura do que de uma final de Mundial - que o diga Meursault, personagem de O Estrangeiro, de Albert Camus, também ele de origem argelina.

Na noite desta sexta-feira, 25 de setembro, a partir das 19h45, o franco-argelino inicia, em İzmit, frente à Turquia, pela Liga das Nações, um novo capítulo com a seleção francesa, com a qual viveu momentos de amor e ódio.

Documentário obrigatório para quem se interessa pela intersecção entre futebol, história e geopolítica, Les Bleus - Une Autre Histoire de France (David Dietz, Sonia Dauger e Pascal Blanchard, 2016) explora a relação entre a seleção nacional e a sociedade francesa entre 1996 e 2016, mostrando como, em momentos de crise, atletas negros e árabes foram colocados no olho do furacão pela opinião pública e por líderes políticos.

Na produção, Jean-Marie Le Pen surge como um dos principais algozes do craque francês, campeão mundial em 1998 frente ao Brasil de Ronaldo, mas que se viu perseguido, de acordo com o documentário, pela sua origem e pelas fricções político-culturais entre o país e a ex-colónia. Tensões que culminaram, inclusive, naquele fatídico outubro de 2001, quando as duas seleções se enfrentaram num amigável no Stade de France, em Paris, e o árbitro terminou a partida aos 75 minutos, após a invasão do relvado por adeptos argelinos.

A comparação entre Zizou e o protagonista de uma das principais obras de Camus foi debatida por intelectuais logo após o Mundial de 2006. À época, Sylvia Colombo, jornalista da Folha de S.Paulo, escreveu uma coluna com depoimentos acerca das semelhanças entre ambos.

Manuel da Costa Pinto, traçando um paralelo com Meursault, personagem que comete um homicídio aparentemente sem motivo e acaba condenado à morte, interpretou que “talvez Zidane também tenha tido o impulso de destruir aquele cenário, de mandar tudo às favas, de fazer de sua última partida uma ruptura com o mundo”.

E por falar em imigração, política e futebol, quem também dá os primeiros passos enquanto treinador da seleção do seu país nesta Data FIFA é Jürgen Klopp, que, logo na sua primeira convocatória pela Die Mannschaft, não se coibiu de comentar o resultado eleitoral na Saxónia-Anhalt, onde a extrema-direita saiu vitoriosa.

Klopp, que se apresenta como um socialista cristão, afirmou que "gostaria de recuperar a bandeira para mim e para nós" e recusou a ideia de que o orgulho nacional tenha de estar associado à extrema-direita. "Posso ter orgulho em ser alemão e continuar aberto, diverso, gentil e amigável."

Dentro dos relvados, o primeiro grande desafio de Klopp em casa será a Grécia, em Augsburg (domingo, 27, às 19h45). Depois de Bélgica, Croácia e Noruega nos últimos anos, a seleção helénica pode tornar-se a nova sensação na Europa.

Recentemente estive em Atenas e pude constatar uma flagrante empolgação dos gregos com a sua seleção, que, em 2030, poderá voltar a Portugal 26 anos depois da histórica e traumática Euro 2004, com jogadores como Tzolis (Arsenal), Karetsas e Konstantelias (Dortmund), Kostoulas (Brighton), entre outros.

Na Liga das Nações, destaque ainda para o Inglaterra - Espanha, reedição da última final do Euro no sábado (26). Na Fúria, aliás, o futebol e a política também andam de mãos dadas: em plena crise de Ceuta e a menos de um ano das eleições gerais, Lamine Yamal, muçulmano e de origem marroquina, voltou esta semana a falar sobre o racismo de que tem sido alvo nos estádios espanhóis. Será só futebol?

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