"Queremos justiça". Em Itália e França, vítimas da covid-19 apresentam queixas contra os governos

Falta de informação, maus cuidados e o tratamento dado aos doentes estão entre as queixas apresentadas na justiça pelas famílias das vítimas italianas. Em França, há um projeto de lei para criar um fundo de indemnização para as vítimas da pandemia no país.

Com muitos países europeus em desconfinamento e a verificarem uma diminuição no número de novos casos e de mortes, há agora quem olhe para a forma como os seus governos responderam à pandemia. É o que está a acontecer em Itália e em França, onde algumas das vítimas, ou os familiares, estão a apresentar queixas contra o Estado. Só em França são mais de 130 doentes que querem levar o Estado ao banco dos réus".

A escassez de recursos, o tratamento dado aos doentes e a falta de informação estão na base das queixas que levaram famílias e vítimas a avançar com uma ação judicial.

Em Itália, familiares de vítimas do novo coronavírus apresentaram esta quarta-feira cerca de 50 queixas no Ministério Público de Bérgamo, no norte de Itália, a primeira ação judicial deste tipo no país, onde a epidemia provocou quase 34.000 mortos.

Acompanhados pelos seus advogados, elementos da Comissão "Verdade e Justiça para as Vítimas da Covid-19", criada no Facebook e que conta 55.000 membros, apresentaram 50 queixas ao Ministério Público de Bérgamo, a cidade da Lombardia que foi o epicentro da epidemia em Itália entre o início de fevereiro e maio.

"Não queremos vingança, queremos justiça", disse um dos fundadores do grupo, Stefano Fusco, 31 anos, cujo avô morreu em março.

As queixas foram apresentadas em Bérgamo por ser o "símbolo da tragédia que afetou todo o país", afirmou Fusco, citado pela agência noticiosa francesa AFP.

Nas queixas, os autores apresentam os dramas vividos por cada uma das famílias individualmente, como falta de informação, maus cuidados ou o tratamento dado aos doentes.

O Ministério Público decidirá então se deve ou não instaurar um processo e, em caso afirmativo, como classificar os factos.

Italiana lembra que as urgências recusaram admitir o pai. Ele morreu e esqueceram-se de avisar a família

Cristina Longhini, uma farmacêutica, contou que perdeu o pai, de 65 anos, que estava "em grande forma quando foi infetado" e morreu num hospital em Bérgamo.

Inicialmente, as urgências recusaram-se a admitir o pai da farmacêutica, porque "não estava com dificuldades respiratórias" e no hospital exclusivo para a covid-19 em Bérgamo não havia camas disponíveis nos cuidados intensivos.

"E quando ele morreu, esqueceram-se de nos chamar. Fui finalmente identificar o seu corpo, ele mal era reconhecível, a boca aberta, os olhos inchados das suas órbitas, com lágrimas de sangue", descreveu Cristina Longhini.

"Deram-me os seus pertences pessoais, incluindo roupas ensanguentadas - e, portanto, contaminadas - num saco do lixo", contou.

Mais de 130 pessoas querem processar o Estado francês

Como os cemitérios locais estavam cheios, o seu caixão foi transportado, juntamente com outros, num camião militar para um destino desconhecido da família, que finalmente descobriu que o corpo tinha sido cremado a 200 quilómetros de distância quando recebeu a conta da funerária pelo correio.

Depois da luta para sobreviver à covid-19, em França também se olha para "as falhas do governo", liderado pelo primeiro-ministro Édouard Philippe, e luta-se agora na justiça. Se em Itália há cerca de cinco dezenas de queixas, no seu país vizinho são mais de 130 as pessoas que pretendem processar o Estado pela forma como respondeu à pandemia.

Raizel, de 35 anos, sobreviveu à covid-19, mas enfrenta as sequelas que a doença lhe deixou no corpo. Esta mãe de cinco filhos decidiu entrar com ação judicial devido às "falhas do governo" francês, conta ao Le Parisien. Raizel considera que os governantes não garantiram uma resposta adequada à pandemia.

Esta jovem mulher diz-se um "caso de estudo", uma vez que manifestou sintomas associados ao síndrome de Kawasaki, raro em crianças e ainda mais raro em adultos. "Eu não deveria ter passado por isto, passei um mês no hospital, fui intubada, uma verdadeira tortura, induzida em coma", recorda Raizel. Já para não falar da ansiedade que sentiu quando os médicos tentavam encontrar uma explicação para o seu caso e diziam ao marido que estavam a ficar sem opções.

"Disseram-nos que estávamos em guerra. A equipa médica foi enviada para a frente sem armas"

Três dos cinco filhos de Raizel, a irmã grávida e a mãe apresentaram sintomas de covid-19. A culpa, diz, foi do Estado que optou por um confinamento "muito tardio". "Na semana anterior, estávamos todos juntos para uma festa de família", recorda. Nessa altura, escreve o Le Parisien, as autoridades francesas não tinham sequer recomendado à população que evitasse a aglomeração de pessoas. A 8 de março, o Ministério de Saúde anunciou a proibição de reuniões com mais de mil pessoas.

Raizel resolveu avançar com uma ação judicial contra o Estado francês. E mais de 130 vítimas da covid-19 juntaram-se à iniciativa, conta Benjamin Fellous, um dos dois advogados que pegou no caso de Raizel. O trabalho que tinham em mãos aumentou e, por isso, decidiram criar a aliança ADV-Covid. "De dois advogados passamos para cinco com especialidades diferentes", conta.

A pensar precisamente nos que ainda sofrem com as sequelas da doença, naqueles que perderam familiares nesta pandemia, dois deputados apresentaram esta quarta-feira um projeto de lei para criar um fundo de indemnização, uma compensação para as vítimas e as suas famílias.

"Estamos a pedir uma reparação, não se trata de dinheiro", diz a filha do médico Paul Alloun, uma das quase 30 mil vítimas mortais por covid-19 que França regista até agora. "O Estado deve reconhecer os erros", justifica.

"Disseram-nos que estávamos em guerra. A equipa médica foi enviada para a frente [da batalha] sem armas", critica. O pai, que não queria abandonar os seus doentes, não tinha a máscara de proteção porque as farmácias já não as vendiam. Morreu no dia 23 de abril.

"Massacrámos parte da população"

"Sou filha de uma vítima de guerra", escreveu a jovem, de 29 anos, numa carta enviada ao Le Parisien, dias depois da morte do médico que exercia em Seine-Saint-Denis. "A falta de meios para proteger os médicos da cidade é deplorável", criticou, na altura, a filha. O pai, que era saudável, terá sido exposto a uma carga viral excessiva a que o seu sistema imunológico não conseguiu combater.

A jovem mulher, que prefere ser identificada por Noémie, lembra que o país estava então na fase 2 da pandemia e, mesmo assim, o Governo não aplicou as medidas restritivas que devia, considera. "Continuávamos a mandar todos para o trabalho, no metro, massacramos parte da população", denuncia a filha do médico que morreu por covid-19.

O pai de Noémie foi uma das 29.296 pessoas que morreram em França devido à infeção causada pelo novo coronavírus. Segundo os dados divulgados na terça-feira pelas autoridades de saúde francesas, o número de pacientes nas unidades de cuidados intensivos continuava a diminuir, sendo agora menos de 1.000.

Até agora, há 154.591 casos confirmados de covid-19 no país e 71.506 pessoas foram consideradas curadas.

Já em Itália foi ultrapassada, na terça-feira, a barreira dos 34 mil mortos. Desde o início da pandemia, 235.763 pessoas foram infetadas pelo novo coronavírus no país.

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