Ponto final na polémica. Portugal e Espanha anunciam candidatura conjunta à UNESCO

O ministério da Cultura espanhol afirmara que ia pedir ao embaixador na UNESCO explicações sobre a candidatura portuguesa da Rota de Magalhães a património. Hoje Portugal e Espanha "dissiparam as dúvidas"

Os chefes da diplomacia de Portugal e de Espanha anunciaram esta quarta-feira, em Madrid, a apresentação conjunta de uma candidatura a património da humanidade da primeira viagem de circum-navegação do globo, depois de "dissipadas todas as dúvidas".

"Decidimos que Portugal e Espanha, através dos seus embaixadores na UNESCO, irão apresentar conjuntamente a candidatura" da rota da viagem iniciada pelo português Fernão de Magalhães e terminada pelo espanhol Sebastião Elcano, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros português, citado pela Lusa.

Augusto Santos Silva acrescentou que irão ser dadas instruções aos embaixadores dos dois países na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para, "não só coordenarem a candidatura, como para envolverem na mesma" os países dos outros três continentes (América do Sul, Ásia e África) por onde essa viagem passou.

"Espero que fiquem dissipadas todas as dúvidas ou especulações sobre a descoordenação, dos desacordos, nas comemorações da circum-navegação Magalhães/Elcano", disse por seu lado o chefe da diplomacia espanhola, Josep Borrell, ao mesmo tempo que insistia que Portugal e Espanha estavam "de mãos dadas" nessas comemorações.

"No contexto das Comemorações estamos precisamente num processo de cooperação com Espanha e não num processo de colisão", esclareceu ao DN José Marques, presidente da Estrutura de Missão das Comemorações do V Centenário da Circum-Navegação comandada pelo navegador português Fernão de Magalhães (EMCFM).

Em causa, no centro da polémica, está um artigo, publicado no jornal espanhol ABC no último sábado, que acusa Portugal de tentar branquear o papel que Espanha teve nesta que foi a primeira volta ao mundo. Em causa estaria a candidatura a património da UNESCO da Rota de Magalhães, onde não constava referência ao basco Juan Sebastián Elcano - que acabou por dirigir a expedição no seu último período, depois da morte de Fernão de Magalhães nas Filipinas -, e o programa de governo para as comemorações dos 500 anos da circum-navegação.

Contactado pelo ABC, o ministério da Cultura espanhol afirmava então que iria solicitar nos próximos dias ao embaixador na UNESCO que elaborasse um pedido formal sobre a proposta portuguesa e sobre a ausência de referências ao papel espanhol.

José Marques viu as acusações "como um equívoco" e explicou por escrito ao DN porquê - ainda antes do anúncio de uma candidatura conjunta -, avançando algumas das iniciativas para as comemorações do V Centenário e explicando como antes do anúncio dos ministros dos Negócios estrangeiros português e espanhol a gestão da candidatura à UNESCO era gerida por uma rede transnacional que envolve seis universidades espanholas e como na candidatura constava já a referência a Elcano.

"Ninguém se propõe reescrever a História. Falar na Viagem de Circum-navegação, convoca, naturalmente, a abordar os seus principais protagonistas. Está implícito! No entanto a expedição não acontece por acaso. Fernão de Magalhães comporta um legado português que sustenta o projeto que ousou e o pioneirismo que lhe associou. Por isso a afirmação mediática de Magalhães é muito maior que a de qualquer outro protagonista da expedição", considera José Marques, que até 2017 foi presidente da Câmara Municipal de Sabrosa, local onde alguns pensam ter nascido Magalhães - outros sustentam que foi no Porto.

Amanhã às 18.00 será apresentado o programa completo das iniciativas das comemorações do V Centenário, que decorrerão até 2022. Além da exposição itinerante sobre Fernão de Magalhães que resultará de uma colaboração entre Portugal e Espanha, já anunciada em setembro último, haverá outros momentos da programação do V Centenário que resultam da cooperação entre os dois países, adianta o ex-autarca.

Entre elas, o presidente da missão refere a cooperação entre as Marinhas dos dois países na navegação conjunta do navio Sagres e o navio Juan Sebastian Elcano durante um período da viagem de Circum-Navegação, ou a deslocação da Caravela Vera Cruz a portos das costas alentejana, algarvia e andaluz. A embarcação ficará sete dias em cada porto - Sines, Portimão, Vila Real de Santo António, Huelva, Sevilha, Cádiz, Sanlúcar de Barrameda -, onde receberá visitas escolares e do público em geral. As expectativas da comissão são de 49 mil visitantes à caravela.

Outros exemplos de cooperação nas comemorações dizem respeito à projeção das línguas portuguesa e espanhola através de iniciativas que envolvem o Instituto Camões e o Instituto Cervantes ou a seminários e congressos internacionais.

A história da candidatura à UNESCO

Foi justamente na Câmara Municipal de Sabrosa, quando José Marques era autarca, que em 2015 começou a ganhar forma a iniciativa de propor a "Rota de Magalhães, a Primeira à Volta do Mundo" a património da UNESCO. Proposta à comissão nacional da UNESCO pela autarquia, desde 2016 que a Rota está inscrita na Lista Indicativa de Portugal ao Património Mundial.

"Por proposta da Câmara Municipal de Sabrosa, desde abril de 2018 que a Rede de Cidades Magalhânicas passou a assumir-se como entidade gestora da candidatura transnacional e será a entidade proponente. Nos documentos de trabalho da Rede de Cidades a designação do Bem já está alterada, com a inclusão de El Cano", explica José Marques.

O município de Sabrosa "apadrinhou" a formação da Rede de Universidades Magalhânicas, que inclui seis universidades de Espanha, que tem como "primeiro projeto estratégico colaborativo do seu programa de ação, a investigação e o inventário de suporte à candidatura, etapa prévia essencial ao processo", adianta ainda ao DN José Marques.

Um empreendimento espanhol com o génio de um português

"O feito de Fernão de Magalhães é um feito luso-espanhol", respondeu ao DN, contundente, o historiador José Manuel Garcia, autor de A Viagem de Fernão de Magalhães e os Portugueses (2007) e atualmente a trabalhar noutra obra sobre o navegador português.

"Foi sob a alçada de Carlos V - na altura o rei Carlos I - que o empreendimento foi realizado, embora protagonizado por um português revoltado com o rei português [D. Manuel I]. Carlos V aceitou o serviço de um português porque ele era o único que podia fazer o empreendimento de ir as Molucas como ele se comprometera a fazer. Ao serviço dos portugueses Fernão de Magalhães nunca faria a viagem que fez", explica o historiador.

Sebastián Elcano, reconhecido e celebrado em Espanha, mas não mais longe, "fez o feito de dar a volta completa ao mundo ilegalmente. O Fernão de Magalhães morreu no caminho e os espanhóis, desesperados, tiveram de recorrer a uma solução que lhes estava proibida: o caminho português do Cabo da Boa Esperança. Foi uma coisa de circunstância", lembra José Manuel Garcia sem, contudo, deixar de notar que Fernão de Magalhães, mesmo tendo morrido antes do final da expedição, acabou por completar uma volta ao mundo e foi, aliás, o primeiro homem a fazê-lo, ainda que em duas vezes. "Porque ele já tinha feito a primeira volta da viagem, quando tinha ido com os portugueses de Lisboa até às Molucas."

José Manuel Garcia reconhece, ainda, a ironia que reside no facto de Portugal celebrar a circum-navegação que tentou então a todo o custo boicotar. Juan Sebastián Elcano, quando navegou por domínios portugueses, teve, aliás, de evitar as escalas. Apenas terá feito uma, em Cabo Verde, onde vários marinheiros foram detidos.

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