Os desafios que os BRICS levam para a sua oitava cimeira

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os chamados BRICS, reúnem-se este fim de semana em Goa para a sua oitava cimeira. O conflito de Caxemira e a disputa pelas ilhas do mar do Sul da China serão temas a discutir, numa altura em que as economias dos cinco países se encontram em diferentes patamares

Brasil: Crise política e económica tendo como cenário um processo de corrupção

É a maior economia da América Latina, mas que deverá sofrer uma contração de cerca de 3% este ano, um valor semelhante ao registado em 2015. O desemprego e a inflação rondam os 10%. Esta má performance da economia é acompanhada por uma crise política que levou à destituição de Dilma Rousseff da presidência do Brasil e à sua substituição por Michel Temer a 31 de agosto. As medidas políticas já aprovadas pelo novo governo do PMDB foram bem aceites pelos mercados - com o real a ficar mais forte em relação ao dólar - mas causaram os protestos de uma parte da população. Paralelamente continua a investigação do processo Lava-Jato, o maior caso de corrupção do Brasil, que já chegou a Lula da Silva, pondo em risco as ambições do PT de voltar ao poder nas eleições presidenciais de 2018.

Rússia: Em modo Guerra Fria com o Ocidente, principalmente os Estados Unidos

A Rússia está cada vez mais afastada do Ocidente - anexação da Crimeia, apoio aos separatistas ucranianos, conflito na Síria e até um piscar de olho à Grécia durante a crise das negociações de um novo resgate com a União Europeia e o FMI - com a tensão das relações entre Moscovo e Washington estarem num ponto em que muitos já falam num cenário pior do que os tempos da Guerra Fria. Ao mesmo tempo o Kremlin está a aproximar-se da China, tendo sido o único governo a defender as pretensões de Pequim sobre várias ilhas do Mar do Sul da China num painel de arbitragem do conflito em Haia. Esta aproximação teve início depois das sanções impostas pelo Ocidente e o impacto da crise do preço do petróleo na frágil economia russa. Em 2015, o PIB russo diminuiu 3,7%. O Fundo Monetário Internacional prevê uma contração de 0,8% este ano e um pequeno crescimento em 2017.

Índia: Conflito com o Paquistão atinge novo pico de tensão

Ao contrário dos seus parceiros dos BRICS, a economia indiana está de boa saúde - está avaliada em 2,38 biliões de dólares e apresenta um crescimento anual de 7,5%, o valor mais alto dos cinco países deste grupo. Mas a Índia tem sido notícia nos últimos meses por um novo capítulo da deterioração das relações com o Paquistão por causa de Caxemira, território que os dois países reclamam para si desde o fim da colonização britânica e a guerra da independência em 1947. A 1 deste mês, forças de Nova Deli e Islamabad envolveram-se em trocas de tiros na fronteira comum, que se prolongaram por várias horas. O que aconteceu dois dias depois de a Índia ter anunciado a realização de "ataques cirúrgicos" contra grupos "terroristas" na parte paquistanesa da região e do governo indiano ter reconhecido que procedeu à evacuação das localidades situadas junto à Linha de Controlo, a fronteira de facto entre a Índia e o Paquistão em Caxemira, numa extensão em profundidade de dez quilómetros. Nova Deli justificou a operação em território paquistanês com o ataque levado a cabo a 18 de setembro contra uma base militar na cidade de Uri, no qual perderam a vida 18 militares indianos, transformando-o no ataque mais mortífero e, anos recentes na Caxemira indiana.

China: Disputas territoriais levam à construção de ilhas artificiais

A economia chinesa está a viver o seu período de crescimento mais lento em 25 anos, mas continua a ser a segunda maior do mundo, a seguir aos Estados Unidos. A China chega a esta cimeira com o propósito de expandir o acesso dos produtos nacionais aos mercados estrangeiros, seja através de uma rota comercial terrestre desde a Ásia Central, passando pela Rússia, até à Europa, ou marítima via o Oceano Índico. Mas o grande desafio de Pequim perante a comunidade internacional é a sua disputa territorial no mar do Sul da China, que conta com a oposição de Filipinas, Japão, Malásia, Brunei e Taiwan e chegou ao Tribunal Permanente de Arbitragem de Haia - em julho, este organismo deu razão às Filipinas, dizendo que a China não tem laços históricos ou argumentos geográficos que justifiquem as suas reivindicações territoriais. Pequim respondeu que Haia não tem jurisdição sobre matérias relacionadas com soberania.

Para marcar a sua posição, a China tem construído ilhas artificiais em recifes e atóis, de forma a evitar que fiquem submersos na maré alta, nos quais está a instalar bases militares, aeroportos e edifícios civis. Um dos episódios recentes destas disputas deu-se em agosto, com o governo japonês a protestar por causa das incursões de barcos da China em torno das ilhas Senkaku, administradas por Tóquio e disputadas por Pequim. No mesmo mês, o Vietname reforçou as suas posições militares, com bases móveis de lançamento de mísseis, nas ilhas Spratly, também disputadas pela China.

África do Sul: Suspeitas de corrupção do presidente e protestos estudantis

A mais pequena economia do grupo dos BRICS tem sido ensombrada pelas constantes suspeitas de corrupção que pendem sobre o seu presidente, Jacob Zuma. O mais recente episódio ocorreu esta semana, com Zuma a apresentar um recurso na justiça para impedir a divulgação de um relatório oficial sobre a alegada influência de empresários sobre o chefe de Estado. O inquérito da mediadora da República, Thuli Madonsela, visa particularmente a poderosa família Gupta, empresários de origem indiana suspeitos de terem intervindo junto de Jacob Zuma, ouvido esta semana durante quatro horas no âmbito deste processo, para a nomeação de ministros ou de dirigentes de empresas públicas. O governo sul-africano tem também enfrentado uma onda de protestos estudantis, que começou a 19 de setembro, quando foi anunciado um aumento dos preços das matrículas de até 8%. Esta semana ocorreram incidentes na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, onde a polícia dispersou os manifestantes com balas de borracha e gás lacrimogéneo depois de estes atacarem com pedras os seguranças privados do campus.

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