Anthony Fauci, o especialista que tem como trabalho corrigir Trump

"Não posso atirar-me para a frente do microfone e empurrá-lo", diz Anthony Fauci, a voz da ciência que tem corrigido as falsidades e incorreções do presidente dos EUA nas conferências de imprensa.

No dia 6 de março, no final da visita ao Centro de Controlo de Doenças (CDC), de boné vermelho na cabeça, Donald Trump (não) respondia aos jornalistas, à pergunta sobre a capacidade de resposta dos hospitais à afluência de infetados com o novo coronavírus. Em vez disso, falou no seu tio, o físico John Trump, e equiparou-se aos homens da ciência. "Eu gosto destas coisas. Eu realmente entendo-as. As pessoas ficam surpreendidas por eu compreendê-las. Todos estes doutores disseram-me 'Como é que sabe tanto sobre isto?'. Talvez eu tenha uma habilidade natural. Talvez eu devesse ter feito isto em vez de concorrer à presidência."

Donald Trump não tem sido um defensor da ciência, pelo menos no que concerne ao ambiente (ao retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, por exemplo) ou à energia (ao dizer que as turbinas de energia eólica causam cancro). Mas agora tem de ouvir um homem da ciência todos os dias. E não raro a desmenti-lo.

Com o agravar da epidemia, Donald Trump passou a presidir diariamente a uma conferência de imprensa na qual estão presentes alguns elementos da equipa criada no final de janeiro, a task force da Casa Branca para o coronavírus. Presidida pelo vice-presidente Mike Pence, engloba elementos da administração e diretores de agências como o CDC, a FDA (regulador dos medicamentos) e o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infeciosas. O diretor de há 36 anos é Anthony Fauci, de 79. Tão reputado no meio como desconhecido do grande público, Fauci passou a meme quando levou a mão à testa ao ouvir o presidente a associar o Departamento de Estado a teorias da conspiração.

Na quinta-feira, Trump lançou a ideia de que um medicamento usado contra a malária, a cloroquina, pode ser a resposta para o covid-19: "Há uma tremenda esperança com base nos resultados e outros testes. Há uma tremenda esperança." Um dia depois, na mesma sala, ao lado de Trump, Fauci afirmou: "Não. A resposta é não."

O imunologista explicou que aquelas esperanças são baseadas em informações "episódicas". "Não foi feito num ensaio clínico controlado, por isso não se pode fazer nenhuma declaração definitiva sobre isso." Aliás, Trump afirmara que a FDA já tinha aprovado o seu uso, tendo sido também desmentido pela agência.

Nada disso impediu Trump de voltar à carga na segunda-feira, ao comentar no Twitter a história de um cidadão que terá ficado curado do covid-19 depois de ter sido medicado com cloroquina. "Ótimo resultado inicial de um medicamento que começará amanhã em Nova Iorque e outros lugares!"

Na notícia do tabloide New York Post, o próprio doente disse que os médicos não atribuem a cura aos medicamentos.

Horas antes, Trump também punha em causa a ideia das restrições sociais pedidas pelos especialistas de saúde pública e que . "Não podemos deixar que a cura seja pior do que o problema em si", escreveu ele. "No final do período de 15 dias, tomaremos uma decisão sobre o caminho que queremos seguir! ", ele acrescentou, sem mais detalhes.

Cerca de um terço dos americanos estão em várias fases de encerramento virtual, inclusive nas três maiores cidades do país, ou seja, Nova Iorque, Los Angeles e Chicago. Oito estados, incluindo Ilinóis e Nova Jérsia, ordenaram aos residentes que ficassem em casa, a menos que fosse essencial, mas Trump tem resistido até agora às chamadas para anunciar um isolamento oficial.

Os Estados Unidos são já o terceiro país com mais casos de pessoas infetadas com o covid-19

"Testes lindos"

Também na sexta-feira Fauci reconheceu que havia falta de testes disponíveis, apesar de a situação estar a evoluir. "Eu recebo as mesmas chamadas que muitos de vocês [jornalistas] recebem. Por uma razão ou outra não podem receber [testes]. Essa é uma realidade que está a acontecer agora. É a mesma coisa que há algumas semanas atrás? Absolutamente não."

Quando Trump fez a dita visita ao CDC, disse: "Eles têm os testes. E os testes são lindos. Qualquer um que precise de um teste, faz um teste."

Mike Pence fez uma afirmação semelhante na semana passada, dizendo que "um milhão de testes estão no campo" e que "até ao final desta semana, mais 4 milhões de testes serão distribuídos."

No início do mês, durante uma reunião transmitida pela televisão com executivos da indústria farmacêutica, Trump sugerir que uma vacina poderia ser concluída entre "três a quatro meses". "Você não terá uma vacina, terá uma vacina para ser testada", respondeu Fauci. "Como lhe tenho dito, sr. presidente, um ano a um ano e meio", concluiu.

Fauci tem sido a voz da razão e dos factos numa Casa Branca pouco dada à ponderação.

Informado pela primeira vez sobre o vírus e a sua ameaça em janeiro, Trump não reconheceu o vírus como um problema. Proibiu a entrada de viajantes da China em 31 de janeiro, mas manteve um discurso em que menosprezava a gravidade do covid-19. Manteve o discurso de negação durante um mês, uma janela de tempo durante o qual o coronavírus estava a espalhar-se pelos Estados Unidos. Ainda no início de março, Trump dizia que o vírus deveria desaparecer em abril e que os números eram ótimos.

No dia 13, Trump cedeu e declarou emergência nacional para desbloquear vários recursos financeiros e logísticos. Ainda assim, no dia 16, Trump afirmou: "Temos um problema que há um mês ninguém tinha pensado nele."

Investigador sem apego ao dinheiro

Anthony Fauci dirige desde 1984 o instituto de investigação dedicada à prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças infeciosas como o VIH/sida, infeções respiratórias, ou malária como doenças emergentes (ébola ou zika), mas também apoia a investigação em transplantes e doenças relacionadas com a imunidade. Foi conselheiro de seis presidentes dos EUA. Além disso, ou mais importante, é um investigador reputado com contribuições que ajudaram a combater doenças autoimunes que até há poucos anos eram fatais.

Segundo o seu currículo, "Fauci fez contribuições fundamentais para a compreensão de como o VIH destrói as defesas do corpo, levando à sua vulnerabilidade face a infeções mortais.Além disso, ele tem sido instrumental no desenvolvimento de tratamentos que permitem que pessoas com VIH vivam vidas longas e ativas. Ele continua a dedicar grande parte de sua pesquisa aos mecanismos imunopatogénicos da infeção pelo VIH e ao alcance das respostas imunitárias do corpo ao vírus."

"Há anos, quando Tony estava a aproximar-se de uma idade normal de reforma, tentei ver se ele queria, após uma vida normal de serviço federal, levar algumas das suas consideráveis competências e conhecimentos para o setor privado. Ele rapidamente disse que não - o dinheiro não o motivava, mas sim o serviço ao país. E ele ficou no instituto - para a felicidade do país. Se há algum profissional médico que possa ajudar o país a lidar com a crise da COVID-19, é Tony Fauci, um exemplo do melhor que este país tem para oferecer", escreveu no The Hill o administrador David Rubenstein, do grupo empresarial Carlyle.

Questionado pela Science Magazine como é que ainda não tinha sido despedido, Fauci respondeu: "Embora discordemos em algumas coisas, ele [Trump] ouve. Ele segue o seu próprio caminho. Ele tem o seu próprio estilo. Mas em questões substantivas, ouve o que eu digo."

Sobre um caso em concreto, no qual Trump acusou a China de saber do novo coronavírus três ou quatro meses antes de 31 de dezembro, data em que a descoberta do vírus foi reconhecida, Fauci disse: "Da próxima vez que se sentarem com ele e falarem sobre o que vai dizer, vão dizer-lhe: 'A propósito, sr. presidente, tenha cuidado com isto e não diga isso.' Mas não posso saltar para a frente do microfone e empurrá-lo. Certo, disse-o. Vamos tentar corrigir isso para a próxima vez."

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