O embaixador croata que fala português, gosta de comida goesa e sabe os truques do trânsito lisboeta

Ivica Maričić é um apaixonado por Portugal desde 1983. E foi ideia sua o Pavilhão da Croácia na Expo'98. Nos últimos seis anos foi embaixador em Lisboa, e até acompanhou a presidente Kolinda Grabar-Kitarović a Fátima junto com Marcelo Rebelo de Sousa, que na hora da despedida o condecorou com a Ordem do Infante Dom Henrique. Vai regressar de certeza. Tem casa em Cascais.

Para nos despedirmos, Ivica Maričić escolheu o Sabores de Goa. Seria uma escolha surpreendente para um embaixador croata em Lisboa se eu não soubesse, por ter já ouvido o próprio diplomata contar, que a antiga colónia portuguesa na Índia chegou a ter uma numerosa comunidade de comerciantes de Ragusa, a moderna Dubrovnik. Também não me surpreendeu que o embaixador conhecesse bem a família dona do pequeno restaurante nos Anjos, na Rua do Zaire. É que Ivica, e tomo a liberdade de assim o tratar neste artigo, é um embaixador muito, muito especial. Com uma ligação muito, muito antiga a Portugal, como se adivinha quando se ouve o seu português fluente, que julgo que ninguém aprenderia nos seis anos em que desempenhou o cargo. Tal como não seria em meros seis anos por cá que alguém conheceria tão bem as ruas lisboetas a ponto de se poder dar ao luxo de sugerir ao motorista oficial a melhor maneira de evitar o trânsito na Almirante Reis a caminho do Sabores de Goa.

Enchem-nos a mesa com uma série de entradas goesas. Gosto especialmente das chamuças, mas também há bojes, paparis recheados, paparis simples, bajipuri. Ivica sabe o nome de tudo! É variada a oferta e abundante a quantidade, pelo que nos entretemos, agora que o embaixador está a terminar a missão, a recordar como nos conhecemos. Foi num jantar de despedida de um antigo embaixador húngaro, tão bem-sucedido que depois de Portugal serviu no Brasil e agora está na Rússia. Chama-se Norbert Konkoly e fala muito bem português, quase, quase tão bem como Ivica.

Mas foi durante uma conversa para a rubrica Mala Diplomática, que escrevo na revista Volta ao Mundo, que verdadeiramente comecei a conhecer este croata altíssimo, capaz de fazer um português de 1,83 m sentir-se baixote. É que quando o arquiteto Ivica Maričić me contou que foi o responsável pelo pavilhão da Croácia na Expo'98 não resisti a dizer-lhe que me lembro perfeitamente da água e da areia debaixo do chão de vidro e do filme sobre o mar Adriático. Sim, foi o pavilhão que mais me marcou e ali estava o responsável por aquela maravilha. Claro, depois da conversa para a Volta ao Mundo passei a ter também tema para uma entrevista para o Diário de Notícias, foi só esperar pelo pretexto, que chegou em maio de 2018 com o 20.º aniversário da Expo lisboeta.

"Sucesso da Croácia na Expo'98 foi um pavilhão com água e um ecrã de 360º a mostrar o Adriático" foi o título, com Ivica a explicar então que "foi a primeira grande divulgação da Croácia num evento internacional como país independente. Até uns meses antes algumas partes da Croácia estavam sob ocupação mas nós não falámos desse problema no pavilhão. Optámos por uma mensagem positiva e por tudo o que é bom: a natureza, o mar. Isso também foi uma surpresa e muitos comentaram porque estavam a pensar que íamos falar de guerra e destruição. Foi uma mensagem absolutamente positiva".

Pausa agora na conversa, e na busca de memórias, para escolhermos os pratos principais: o do dia é dobrada à goesa, com o chouriço goês a dar-lhe o toque indiano. Pedimos também umas gambas fritas. E para beber, por sugestão de Ivica, um jarro de vinho tirado à pressão. Como croata tem obrigação de perceber de vinhos, afinal também por lá os romanos deixaram esta tradição.

De Zagreb a Cascais

Peço a Ivica que sintetize a forma como começou a sua relação com Portugal, que tem já quase quatro décadas. "Nasci em 1954 em Zagreb, Croácia. Estudei Arquitetura em Zagreb, mas cheguei a estar com um pé numa universidade britânica, Brighton. Aliás, depois de ter ganho um prémio de design britânico, o que muito agradou às autoridades, chegou-me a ser oferecida uma bolsa para estudar finalmente em Brighton, mas não me agradou. Sempre foram os países do sul que me atraíram. E desde 1983 que conhecia Portugal. Vim até cá com um grupo de amigos num 2 CV. E assim que saímos da confusão de Espanha e entrámos no Alentejo percebi como Portugal era diferente. Fomos parar no Guincho, mais à frente já não havia nada", recorda, entre risos. Ainda teve uma bolsa que o levou a fazer uma pós-graduação na Colômbia, que aproveitou para conhecer a América Latina, mas mesmo para quem gosta do sul, diz, "era sul a mais". E acaba por se instalar em Portugal, onde tem casa em Cascais, onde volta com frequência mesmo quando as funções diplomáticas, que surgiram da ligação à Expo'98, o fazem ficar em Zagreb.

"Sempre foram os países do sul que me atraíram. E desde 1983 que conhecia Portugal. Vim até cá com um grupo de amigos num 2 CV."

Chega a dobrada à goesa, saborosa, e os camarões picantes. Decidimos partilhar. Ivica aprecia a gastronomia portuguesa, incluindo nestas variantes que vêm dos tempos do império. Recordo-me de um almoço no Laurentina, em Lisboa, onde, depois de partilharmos um bacalhau assado com batata a murro bem regado com azeite, nos aventurámos numa moqueca de bacalhau, afinal os donos do restaurante são beirões mas chegaram a viver em Maputo, então Lourenço Marques, daí o nome Laurentina, como uma cerveja que ainda existe em Moçambique.

Nisto de Império Português e Croácia já referi a presença de comerciantes de Dubrovnik em Goa, mas aprendi com o meu amigo diplomata que há ainda mais ligações, como "o jesuíta croata que foi mandado para a América do Sul para fazer a divisão das fronteiras entre Espanha e Portugal e ficou preso em São Julião da Barra e só depois da queda do marquês de Pombal é que foi libertado. Ou um almirante croata da frota de Dona Maria I que se tornou governador de Cabo Verde, e a sua filha foi a primeira mulher poeta portuguesa, tendo grande influência na literatura e no jornalismo".

Também alguns portugueses fizeram história na Croácia. No livro que publiquei recentemente com o título Encontros e Encontrões de Portugal pelo Mundo, há um capítulo dedicado à Croácia que se baseia em Amato Lusitano, médico judeu que chegou a trabalhar em Dubrovnik. Foi, aliás, Ivica quem me falou dessa etapa croata do médico nascido em Castelo Branco e que morreu em Salónica, então parte do Império Otomano.

Para sobremesa aqui no Sabores de Goa, Ivica pede gelado de manga. Peço o mesmo apesar de ter ainda chegado a ser tentado pelo bebinca, bolo goês feito com camadas de leite de coco, farinha e gemas.

A conversa vai até às minhas memórias de uma viagem à Croácia, quem sabe motivada por aquele fabuloso pavilhão em que falsamente se caminhava sobre o Adriático, de águas quentes que convidam a horas a flutuar enquanto se olha para uma costa, como a da Ístria, em que as terras têm uma torre veneziana. Gostei de Zagreb, com o seu ar de pequena Viena, e de Pula, com o impressionante coliseu romano. Mas o que mais recordo, e mais tenho vontade de revisitar, são os lagos Plitviće, com cascatas, uma maravilha da natureza. Foram estes lagos o tesouro da Croácia que Ivica escolheu como tema da conversa que tivemos em tempos para a Volta ao Mundo e ainda há umas semanas, quando convidei o embaixador e a mulher Daska para uma espécie de almoço de despedida em Setúbal, onde ficaram a conhecer os salmonetes e massacotes da minha cidade, o meu filho Daniel comentou como gostou dos lagos Plitviće, que conheceu quando tinha 6 anos. Recorda-se perfeitamente das minicascatas cheias de peixes.

Kolinda, Fátima, Marcelo e o Mundial da Rússia

Está na hora de nos despedirmos do Sabores de Goa, depois do café. Graças a Ivica, cuja ligação emocional a Portugal nunca o afastou um milímetro das suas obrigações como embaixador, conheci várias personalidades croatas, como Maja Markovćić Kostelać, diretora executiva da EMSA, a Agência de Segurança Marítima Europeia, com sede em Lisboa. E também a presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarović, que me deu uma entrevista em maio do ano passado onde se declarou euroentusiastas. Usei gravata para a ocasião, não só por se tratar de uma chefe de Estado como por ser a chefe de Estado do país que inventou a gravata (já tinham reparado na semelhança fonética entre gravata e croata?).

Usei gravata para a ocasião, não só por se tratar de uma chefe de Estado como por ser a chefe de Estado do país que inventou a gravata.

E se a entrevista foi em inglês, por ser mais prático para a governante, nessa noite, convidado para o jantar oficial no Palácio da Ajuda, ouvi Kolinda Grabar-Kitarović falar português, língua que estudou na universidade em Zagreb. Ao lado, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa estava encantado com a bela balzaquiana, que conheceu no ano anterior numa visita de Estado à Croácia. Deram-se tão bem que foram juntos a Fátima, como fiquei depois a saber. Aliás, quando a seleção croata brilhou no Mundial de Futebol na Rússia, e a presidente se mostrou como a mais entusiasta adepta, escrevi um artigo sobre a relação de Kolinda Grabar-Kitarović com Portugal que foi um sucesso na edição online.

Já agora, por falar em Marcelo Rebelo de Sousa, recebo ao final da tarde uma foto via WhatsApp de uma medalha. É Ivica a contar-me que pouco depois de ter saído do Sabores de Goa recebeu um telefonema do Palácio de Belém a pedir que fosse ter com o Presidente. Uma condecoração bem merecida. A Ordem do Infante Dom Henrique. Ivica Marićić sai neste sábado de Portugal, como é de protocolo nisto de um embaixador que termina a sua missão. No caso dele, sei que é um até já. Este croata vai morrer de saudades de Portugal.

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