Tudo como antes no primeiro dia de trégua em Ghouta

Cessar-fogo de cinco horas diárias desrespeitado por forças pró e contra Assad. Paris e Cruz Vermelha criticam "semitrégua"

Moscovo vai manter um "corredor humanitário" que permita a entrada de ajuda e a saída de civis na região de Ghouta, afirmou ontem o ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov. No entanto, o primeiro dia de trégua saldou-se por um falhanço, durante o qual terão morrido um adulto e uma criança na sequência de bombardeamentos do regime de Assad.

A trégua, declarada na véspera pelo presidente russo Vladimir Putin, limita-se a cinco horas diárias, entre as 9 e as 14. Mas nem durante esse período as armas se calaram. "25 projéteis, ataques aéreos e barris de explosivos foram despejados sobre Ghouta tendo matado dois civis, um dos quais uma criança", informou à AFP o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, organização que se opõe ao regime de Bashar al-Assad. Por sua vez, o exército russo acusou os grupos rebeldes de terem desrespeitado o cessar-fogo. "As ações foram acompanhadas de artilharia e tiroteios", disse o major-general Yuri Yevtushenko à agência Interfax. Também a agência síria Sana relatou que rebeldes fizeram tiro ao alvo aos corredores humanitários no campo de Al-Rafidain com lança-granadas. A agência de Damasco disse que o objetivo dos tiroteios é impedir que os civis - cerca de 400 mil - saiam.

"A Rússia compreende a complexa situação humanitária no leste de Ghouta", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov em conferência de imprensa conjunta com o homólogo francês, Jean-Yves Le Drian. "Foi criado um corredor humanitário concreto que será usado para fornecer ajuda humanitária e, na outra direção, pode decorrer uma evacuação médica e todos os civis que desejam partir podem", afirmou Lavrov.

Já o ministro francês reconheceu que a trégua diária de cinco horas é "um passo em frente", mas insuficiente. E fez saber que Paris quer a monitorização da suspensão das hostilidades.

Le Drian adiantou que três grupos rebeldes comunicaram a intenção de respeitar a trégua, ao que Lavrov respondeu que tem de se esperar para ver.

À Reuters, fonte diplomática francesa disse que esta trégua anunciada pelos russos "não é boa". "Não se faz uma semitrégua. É a resolução das Nações Unidas que tem de ser acionada por inteiro."

Também o Comité Internacional da Cruz Vermelha criticou ontem a pausa de 300 minutos instaurada pela Rússia. "É impossível levar uma caravana humanitária em cinco horas. Temos uma longa experiência em trazer ajuda através da linha de frente na Síria, e sabemos que pode demorar um dia para simplesmente passar pelos pontos de controlo, apesar do acordo de todas as partes. E depois ainda há que descarregar os bens", comentou o diretor da Cruz Vermelha no Médio Oriente, Robert Mardini.

Já a Organização para a Proibição de Armas Químicas vai investigar se nos recentes ataques a Ghouta foram utilizadas armas proibidas. No domingo, os sintomas que levaram à morte de uma criança são análogos a quem foi exposto a bombas de gás de cloro. Damasco assinou em 2013 a convenção na qual se compromete a não utilizar armas químicas, mas tem sido acusado de o ter feito durante os sete anos de conflito.

O chefe da diplomacia britânica, Boris Johnson, juntou ontem a sua voz à do secretário de Defesa norte-americano, Jim Mattis, e admitiu a hipótese de uma intervenção militar, caso haja "provas incontestáveis" do uso de armas químicas contra alvos civis. Mas logo esvaziou a retórica ao reconhecer que "o Ocidente não pode impor uma solução militar".

Quem está a impor a solução é "ao mesmo tempo incendiário e bombeiro", disse o general norte-americano Joseph Votel sobre Moscovo. A campanha do regime sírio e do aliado russo em Ghouta, nos arredores da capital, iniciada dia 18, matou mais de 560 pessoas.