Presidente croata fala português e foi a Fátima com Marcelo

Kolinda Grabar-Kitarovic tem sido elogiada pelo apoio entusiasta à seleção croata. Esteve em Portugal em maio e falou ao DN

"Eu estava na Universidade de Zagreb a estudar inglês e espanhol e havia um curso de português que escolhi e frequentei durante três anos. Até traduzi um livro de português para croata. Infelizmente nunca tive oportunidade de passar mais do que uns dias num país de língua portuguesa. Precisava de mais para mergulhar na cultura local. Hoje tento ler o máximo possível em português, mas falta-me o contacto humano e as conversas", explicou Kolinda Grabar-Kitarovic numa entrevista ao DN publicada a 13 de maio deste ano. A presidente da Croácia estava então de deslocação oficial a Portugal, retribuindo uma visita feita um ano antes por Marcelo Rebelo de Sousa ao pequeno país dos Balcãs, independente desde 1992. Hoje a presidente croata é uma celebridade global pelo apoio entusiasta à seleção no Mundial da Rússia, apesar de ocasionais vozes críticas sobre estar em pré-campanha eleitoral ou pertencer a um partido com um currículo nacionalista nem sempre bem-visto durante o processo de desagregação da Jugoslávia nos anos 1990.

A entrevista fora feita na sexta-feira anterior, dia 11, em Lisboa, e a presidente preferiu responder em inglês, por se sentir mais à vontade em temas como a integração europeia. "A UE é um dos projetos mais bem-sucedidos da humanidade", foi aliás o título escolhido pelo DN, refletindo o euro-entusiasmo da mulher de 50 anos que desde 2015 lidera o mais recente dos membros da União Europeia (aderiu em 2013). Nesse mesmo dia, num jantar oferecido pelo presidente português no Palácio da Ajuda, Kolinda Grabar-Kitarovic discursou em português durante uns 15 minutos, mostrando uma fluência que pode ter surpreendido parte dos convidados, mas não Marcelo Rebelo de Sousa, que a conhecia já bem de uma visita em maio de 2017 à Croácia, que coincidiu com os 25 anos do estabelecimento de relações bilaterais.

O presidente português acompanhou no sábado seguinte, dia 12, Kolinda Grabar-Kitarovic a Fátima, onde ambos assistiram à procissão das velas. Vinda de um país de forte tradição católica, a presidente croata fez questão de visitar o santuário mariano, com Marcelo Rebelo de Sousa a declarar então: "Partilhamos este momento, que foi muito emotivo". Ao mesmo tempo, em Lisboa, realizava-se o Festival da Eurovisão, a que o presidente não pode comparecer devido ao compromisso com a croata, uma política de grande sucesso, que já foi ministra dos Negócios Estrangeiros, embaixadora nos Estados Unidos e secretária-geral adjunta da NATO. Aliás, antes da final do Mundial teve de ir a Bruxelas a uma cimeira da NATO onde esteve com o presidente americano Donald Trump e dias depois em Moscovo encontrou-se com o presidente russo Vladimir Putin a quem ofereceu uma camisola da equipa croata com o nome nas costas.

Curiosamente, a visita do presidente português a Zagreb no ano anterior coincidiu com o festival da Eurovisão na Ucrânia, e, como foi noticiado então, Kolinda Grabar-Kitarovic deu os parabéns a Marcelo Rebelo de Sousa pela vitória de Salvador Sobral em Kiev. "Amar pelos dois"sensibilizou a presidente croata, que teve a vantagem de perceber perfeitamente a letra. Também ouviu fados de Cuca Roseta, num concerto oferecido em Zagreb pelo presidente português (e voltou a haver fado para Kolinda Grabar-Kitarovic em Lisboa, em maio de 2018, na Ajuda).

O segundo lugar da seleção na Rússia, representando um país de apenas quatro milhões de habitantes, originou uma vaga de curiosidade e admiração pela Croácia que envolveu a própria presidente, que terá tirado licença sem vencimento nos dias dos jogos e pago do próprio bolso as viagens à Rússia. Também deu nas vistas o abraço aos jogadores no balneário depois de mais uma vitória e depois a sua presença na cerimónia na final, em Moscovo, trajada com a camisola da seleção e orgulhosa do desempenho da seleção, derrotada por 4-2 pela França mas com uma exibição de grande nível.

"Nas últimas semanas a Croácia tornou-se notícia no mundo graças ao sucesso da sua seleção nacional no Mundial e o apoio de todos os croatas dentro e fora do país, das estruturas do Estado, bem como da própria Presidente da Croácia, obviamente uma adepta apaixonada. Isso foi para nosso país uma promoção sem precedentes, criando também entre os croatas uma união nacional absoluta em todos os níveis da sociedade", comentou ao DN Ivica Maricic, embaixador em Portugal. Fluente em português e tão ligado a Portugal que em 1998 foi responsável pelo pavilhão da Croácia na Expo de Lisboa, o diplomata confirma a boa relação entre a sua presidente e o nosso. E recorda ainda que foi numa cimeira em Lisboa, durante a presidência portuguesa, que a então Comunidade Europeia reconheceu a Croácia, que mesmo assim esteve envolvida numa dura guerra depois de cortar com a Jugoslávia, que só terminou em 1995.

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