"A UE é um dos projetos mais bem-sucedidos da humanidade"

Presidente da Croácia desde 2015, Kolinda Grabar-Kitarovic preferiu dar esta entrevista ao DN em inglês apesar de saber português, língua que usou no discurso que fez no Palácio da Ajuda, no jantar oferecido pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa

Nesse discurso falou dos 26 anos de relações diplomáticas e de como a Expo"98 de Lisboa foi importante para a afirmação internacional do país (pavilhão croata foi da responsabilidade do arquiteto Ivica Maricic, atual embaixador em Portugal). A presidente lembrou ainda os laços de Dubrovnik, a antiga Ragusa, com o Portugal dos Descobrimentos e a poetisa luso-croata Antónia Pusich.

Como presidente do mais recente dos 28 membros da UE, continua a acreditar que este projeto de união é aliciante para países como a Croácia?

Absolutamente. A UE é um dos projetos mais bem-sucedidos da humanidade. Temos uma união de democracias que partilham os valores que definem as nossas sociedades. E é isso que temos de continuar a defender. Quando o referendo sobre o brexit aconteceu, muita gente previu que a UE estaria à beira de dissipar-se e muitas forças centrífugas fizeram-se notar. Mas recuperámos bem como união mesmo que tenhamos pela frente muitos desafios e um deles é o orçamento plurianual que está a ser negociado. Outro é manter a união próxima dos cidadãos e sublinhar o que é. Não se trata de uma união criada apenas para projetos económicos, foi primeiro que tudo um processo de paz. E penso que na Croácia, o último país até ao momento a juntar-se à UE e o único membro a ter tido uma guerra no seu território depois da Segunda Guerra Mundial, sentimos como forte essa ideia de paz. Ainda nos lembramos dos tempos dos muros e arames farpados a dividir a Europa e por isso queremos prosseguir neste espírito de solidariedade e construir uma ainda mais forte união, que se afirme também como uma potência global.

Como avalia a evolução croata nestes 26 anos, construindo uma sociedade pós-jugoslava e pós-comunista?

Em contraste com os chamados países do antigo bloco de leste, a Croácia teve de atravessar uma mais complexa transição: primeiro foi a de um sistema não democrático para uma sociedade democrática; depois foi a transição de uma economia planeada para uma de mercado. Os outros também países as tiveram. Mas nós tivemos de lidar com a transição de um país que esteve em guerra, que foi ocupado e teve de libertar e reintegrar as áreas ocupadas, que teve de reconstruir tudo o que foi destruído na guerra, incluindo casas e infraestruturas, que teve de fazer desminagem, etc. Não foram tempos fáceis. Por causa da guerra nos anos 1990 perdemos o período de altos investimentos nos países em transição. Perdemos a primeira vaga e foram poucos os que se atreveram a investir num país que era vítima de agressão. Mas conseguimos cuidar de centenas de milhares de pessoas deslocadas da Croácia e refugiados da Bósnia e reconstruímos o país. Estivemos em recessão, mas recuperámos e nos últimos três anos tivemos indicadores positivos e estou otimista sobre o caminho que o país está a percorrer, ainda que necessitemos de fazer mais para atrair investimento estrangeiro e promover o empreendedorismo e desenvolver novos laços comerciais e económicos com os países amigos como Portugal.

Receia que o atual clima de regresso da Guerra Fria possa afetar os Balcãs?

A situação está já a afetar a região, a que prefiro chamar de Europa de Sudeste. Não gosto do termo Balcãs por causa da conotação com guerra, instabilidade e fragmentação. Há sem dúvida interesse da Rússia em influenciar a Europa de Sudeste. Através de investimentos, fazendo negócios, etc. Contudo, quando se trata da relação com a Federação Russa mantemos a mesma posição que a UE e a NATO, apoiando a aplicação dos Acordos de Minsk [sobre a Ucrânia] e os princípios do direito internacional no que diz respeito à soberania e ao direito de qualquer país decidir sobre o seu próprio futuro. Mas também mantemos o diálogo com a Rússia em assuntos como a segurança internacional. Para nós é também importante a cooperação com a Rússia no campo económico e dependemos, no que se trata de fontes de energia, da Rússia, pelo que procuramos diversificar por razões geopolíticas. Creio que temos de ser muito cautelosos para não alimentar uma escalada da situação. E espero que se possa encontrar uma linguagem comum com a Rússia que permita ultrapassar essas diferenças, porque tanto no resto do mundo depende do diálogo, como a paz na Síria ou resolver a questão dos refugiados e migrantes vindos do norte de África e do Médio Oriente. Claro, também enfrentamos ameaças comuns como o terrorismo e por isso temos de trabalhar juntos para eliminar as causas.

Considera que as relações luso-croatas vivem um bom momento depois da visita no ano passado do nosso Presidente a Zagreb e agora esta sua a Lisboa?

As nossas relações vivem um momento muito positivo, mas podem ser ainda melhores. Como disse o vosso Presidente, nestes 26 anos de relações diplomáticas não tivemos um único diferendo. Além do campo económico, há muito espaço para cooperação na educação, na cultura, no turismo, e fico satisfeita de ter assinado um programa de cooperação educativa e cultural. A língua portuguesa é popular na Croácia, com dois leitorados, um em Zagreb e outro em Zadar. Há muitos alunos interessados.

Fala português. Como aprendeu?

Eu estava na Universidade de Zagreb a estudar inglês e espanhol e havia um curso de português que escolhi e frequentei durante três anos. Até traduzi um livro de português para croata. Infelizmente nunca tive oportunidade de passar mais do que uns dias num país de língua portuguesa. Precisava de mais para mergulhar na cultura local. Hoje tento ler o máximo possível em português, mas falta-me o contacto humano e as conversas.

Quando está com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa tenta conversar em português?

Sim, um pouco. E o meu brinde no jantar oficial será em português, pois prometi-lhe isso em Zagreb no ano passado, que falaria umas frases em Lisboa.

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