Ataque aos "irmãos cristãos". Radicais islâmicos sob suspeita no Sri Lanka

Explosões em hotéis e igrejas, na manhã deste domingo, fizeram mais de 200 mortos, entre eles um português que estava no Sri Lanka em lua-de-mel. Foi decretado recolher obrigatório e redes sociais estão bloqueadas. Autoridades já detiveram oito suspeitos.

Pelo menos 207 pessoas morreram após uma série de explosões que ocorreram esta manhã no Sri Lanka, de acordo com o último balanço oficial das autoridades. Estão confirmadas as mortes de nove estrangeiros, entre os quais um português, natural de Viseu, que estava em lua-de-mel na ilha. Há mais de 450 feridos.

A AFP avança que serão pelo menos 35 as vítimas de outras nacionalidades. Segundo o The Guardian, o ministro dos negócios estrangeiros do Sri Lanka confirmou a morte de cinco britânicos, três indianos, dois turcos, outros dois com nacionalidades entre os EUA e o Reino Unido, além da vítima portuguesa.

Adianta que há mais 19 feridos estrangeiros e ainda mais de 20 corpos por identificar.

Segundo informação avançada pela cônsul honorária de Portugal em Colombo ao DN, entre os mortos há um jovem português, com cerca de 30 anos. Estava no país em turismo com a mulher, que está "bem", de acordo com Preenie Sharma Pinto.

À agência Lusa, a cônsul referiu que há mais portugueses no país, mas "estão todos bem", acrescentando que está a dar apoio à mulher da vítima. "É um dia muito triste, estamos chocados", adiantou.

O jovem era natural da zona de Viseu e estava no Sri Lanka em lua-de-mel, confirmou o DN. A mulher já terá pedido ajuda ao Governo português para regressar a casa o mais rapidamente possível. O casal estava hospedado no Hotel Kingsbury. Marcelo Rebelo de Sousa já falou ao telefone com a viúva, prometendo-lhe todo o apoio.

O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, lamentou a morte do jovem português que estava em viagem no Sri Lanka e garante que "todos os serviços estão ativados" para "continuar a acompanhar e a manter abertos os canais de comunicação diretos quer na Embaixada de Portugal em Nova Deli, quer da cônsul honorária no Sri Lanka".

Radicais islâmicos sob suspeita

Apesar de a autoria dos ataques ainda não ter sido reivindicada por nenhum grupo, já há 13 detidos. Sem adiantar a identidade dos mesmos, Ruwan Wijewardane, ministro da Defesa, disse ainda que a maioria dos ataques desta manhã terá sido perpetrada por bombistas suicidas.

De acordo com a Agência France Press (AFP), a polícia do Sri Lanka tem estado em alerta nos últimos dias, temendo que um recém-criado grupo radical islâmico - National Thowheeth Jama"ath (NTJ) - executasse atentados suicidas contra igrejas católicas. Contudo, a ligação dos suspeitos a este grupo ainda não foi confirmada. O governo apenas confirma que se trata de extremistas religiosos, para evitar que haja reações contra a comunidade em causa.

Após os ataques e face ao número crescente de vítimas, o presidente do Sri Lanka apelou à calma da população. "Por favor, permaneçam calmos e não sejais enganados por rumores", disse Maithripala Sirisenam, numa mensagem à nação, num país onde os confrontos têm sido frequentes no passado em reação a eventos violentos. O presidente mostrou-se "em choque" e triste com o sucedido, esclarecendo que "investigações estão em andamento para descobrir que tipo de conspiração está por detrás destes atos cruéis".

Pelo menos oito explosões

A capital do Sri Lanka, Colombo, foi alvo de pelo menos quatro explosões, em três hotéis de luxo - o Shangri-La Colombo, o Kingsbury Hotel e o Cinnamon Grand Colombo - e uma igreja. Duas outras igrejas foram também alvo de explosões, uma em Negombo, a norte da capital e onde há uma forte presença católica, e outra no leste do país. Muitos fiéis celebravam o Domingo da Ressurreição, o dia mais importante entre os rituais da Semana Santa.

Um vídeo partilhado pela CNN mostra o momento em que a igreja de St. Anthony, em Colombo, explode.

As explosões ocorreram "quase em simultâneo", pelas 08:45 (03:15 em Portugal), de acordo com fontes policiais citadas por agências internacionais.

Horas depois das primeiras explosões - já ao início da manhã em Lisboa - registou-se uma sétima explosão num hotel em Dehiwala, arredores de Colombo, junto ao jardim zoológico, onde terão morrido pelo menos duas pessoas, de acordo com a AFP. Ainda segundo a agência de notícias francesa, pouco depois deu-se uma oitava explosão no distrito Dematagoda, da qual resultaram três vítimas mortais, agentes da polícia. Este último atentado terá sido perpetrado por um bombista suicida.

De acordo com a BBC, o governo do Sri Lanka decretou o recolher obrigatório de todos os cidadãos, que entre as 18:00 e as 6:00 deverão manter-se em casa.

Decidiu ainda fechar o acesso a todas as redes sociais,uma medida já tomada noutras ocasiões de conflito, para tentar impedir a propagação de discurso de ódio contra as minorias.

Nas redes sociais, são várias as pessoas que apelam à doação de sangue para ajudar os feridos. E, de acordo com a BBC, vários hospitais do Sri Lanka já estão a ser invadidos por filas intermináveis de dadores.

Segundo a CNN, as escolas do Sri Lanka serão encerradas pelo menos durante os próximos dois dias.

O primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe convocou uma reunião do conselho de segurança nacional na sua casa para o final do dia. Na sua conta de Twitter, disse condenar "veementemente os ataques", que considerou "cobardes". "Chamo todos os cingaleses durante este tempo trágico para permanecerem unidos e fortes", escreveu. "Por favor, evitem a propagação de informação não verificada e especulações. O governo está a tomar medidas imediatas para conter esta situação", rematou.

Cristãos alvo de intimidação

A violência contra minorias religiosas na ilha tem sido frequente. O último ataque foi em 2018, quando o Governo teve de declarar estado de emergência após confrontos entre muçulmanos e budistas cingaleses com dois mortos e dezenas de detidos. Mas atentados desta magnitude não tinham tido lugar no Sri Lanka desde a guerra civil entre a guerrilha tâmil e o Governo, um conflito que durou 26 anos e terminou em 2009, e que deixou, de acordo com dados da ONU, mais de 40 mil civis mortos.

No Sri Lanka, a população cristã representa 7%, enquanto os budistas rondam 67%, os hindus são 15% e os muçulmanos 11%.

Nos últimos anos, os grupos cristãos têm sido alvo de crescente intimidação por parte de alguns monges budistas extremistas, com estes últimos a acusar os muçulmanos de forçar as pessoas a converterem-se ao islamismo.

Apesar das divergências religiosas, após a notícias das explosões, o Conselho Muçulmano do Sri Lanka enviou um comunicado onde condena o acontecimento. No documento da organização, partilhado por uma jornalista indiana do The Hindu, na sua conta de Twitter, pode ler-se: "Condenamos os ataques nos locais de culto dos nossos irmãos e irmãs cristãos, no seu santo dia da Páscoa, assim como nos hotéis de Colombo. Lamentamos a perda de vidas inocentes devido a elementos extremistas e violentos que desejam criar divisões entre grupos religiosos e étnicos para realizar sua agenda. Esta é uma tentativa deliberada de criar pânico e perturbar a vida civil. Os ensinamentos fundamentais de todas as fés são Paz e Justiça. Condenamos fortemente a violência e o extremismo em todas as suas formas".

O conselho apela ainda a toda a "comunidade muçulmana" a "fornecer qualquer assistência necessária às pessoas afetadas".

Reações pelo mundo

Em Portugal, já são várias as figuras políticas que prestam condolências às vítimas no Sri Lanka. Em declarações à SIC, Marcelo Rebelo de Sousa disse estar solidário com "a dor da viúva e da família" do jovem português que morreu numa das explosões, adiantando que não tem confirmação de mais nenhuma vítima portuguesa.

O Presidente da República considera a tragédia vivida na ilha um ataque "contra a dignidade da pessoa, contra a dignidade religiosa e contra o Estado de direito".

A dirigente do CDS, Assunção Cristas, a primeira líder partidária portuguesa a reagir, confessou estar "consternada" com o acontecimento. "Os ataques no Sri Lanka, quando as comunidades celebravam a Páscoa, a maior festa dos cristãos, deixa-nos consternados e profundamente unidos em oração", disse.

As mensagens vão chegando de todas as partes do mundo. A primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, também já reagiu aos ataques. "Devemos manter-nos unidos para garantir que ninguém pratica a sua fé com medo", escreveu.

Seguiu-se Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, apresentando as suas condolências e mostrando-se disponível para ajudar. E também o presidente francês Emmanuel Macron .

Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, disse ter recebido a notícias com "horror e tristeza".

O português António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas reitera que a ONU está solidária com a população da ilha. "A ONU é solidária com o Sri Lanka, enquanto a comunidade global luta contra o ódio e o extremismo violento juntos. Os locais sagrados devem ser respeitados", escreveu.

O papa Francisco condenou os ataques que apelidou de "violência tão cruel".

"Recebi com tristeza e dor a notícia do grave atentado que hoje mesmo, dia de Páscoa, levou o luto e a dor a algumas igrejas e a outros lugares de encontro no Sri Lanka. Desejo manifestar a minha afetuosa proximidade à comunidade cristã atingida quando estava reunida em oração e a todas as vítimas de tão cruel violência. Confio ao senhor aqueles que morreram tragicamente e rezo pelos feridos e por todos aqueles que sofrem por causa deste dramático acontecimento", disse durante as comemorações do dia de Páscoa no Vaticano.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.