A Coreia do Norte gaba-se de não ter casos de covid mas quer desenvolver vacina

Coreia do Norte vai juntar-se à corrida para desenvolver uma vacina contra o Covid-19. Uma tentativa de convencer os norte-coreanos de que o líder Kim Jong Un está a enfrentar mais um desafio para proteger o seu povo.

A Coreia do Norte garante que se juntou à corrida para desenvolver uma vacina contra o covid-19. Acredita-se que na Comissão Estadual de Ciência e Tecnologia daquele país já estão em andamento ensaios clínicos para uma candidatura e já está a acontecer um debate sobre como levar a cabo a terceira fase, que envolve testes em humanos. Para o exterior do país, essa alegação pode parecer dúbia.

A corrida para desenvolver uma vacina para uma doença que infetou quase 14,5 milhões de pessoas e matou mais de 605.000 em todo o mundo é um dos desafios tecnológicos e científicos mais assustadores e prementes que o mundo enfrentou recentemente. Provavelmente custará enormes somas de dinheiro e os vários países estão a investir fortemente para vencer o que está se tornar uma competição de superioridade científica e orgulho nacional.

No entanto, a Coreia do Norte possui um dos sistemas de saúde mais degradados do planeta e há décadas que conta com a assistência da Organização Mundial da Saúde (OMS) para fornecer vacinas e imunidade ao seu povo. Além disso, Pyongyang não admitiu publicamente nenhuma infeção por covid dentro do país. Pelo contrário. Até se tem gabado que não existem casos no país.

Ainda assim, a Coreia do Norte está disposta a gastar tempo, dinheiro e recursos no desenvolvimento de uma vacina. Um artigo de opinião na BBC aponta um conjunto de razões para tal acontecer, como o medo genuíno do vírus e a tentativa de convencer os norte-coreanos de que o líder Kim Jong Un está a enfrentar mais um desafio para proteger o seu povo.

A Coreia do Norte foi um dos primeiros países a ver o covid-19 como uma ameaça séria, até porque a maioria dos especialistas acredita que o seu sistema de saúde seria rapidamente dominado por uma pandemia. Muitas instalações médicas norte-coreanas não têm acesso a eletricidade confiável ou a água corrente. Medicamentos e outros equipamentos são geralmente escassos.

A capacidade de teste também parece ser um problema. No início de julho, apenas 922 pessoas num país de cerca de 25 milhões haviam sido testadas para o vírus, segundo o representante da OMS na Coreia do Norte, Dr. Edwin Salvador.

Salvador disse na altura que, desde o início da pandemia, 25 551 pessoas foram colocadas em quarentena e posteriormente libertadas. Cerca de 255 pessoas - todos norte-coreanos - ainda estavam em quarentena a 3 de julho.

Muitos especialistas independentes em saúde pública estão céticos quanto às alegações de a Coreia do Norte não ter infeções confirmadas de covid-19. O vírus é altamente infeccioso e poderia facilmente penetrar no país sem ser detetado.

Dito isto, a Coreia do Norte está bem posicionada para impedir que os aglomerados se espalhem, pois pode aprovar rapidamente o tipo de medidas de confinamento que outros estados demoraram a adotar. Afinal, é uma ditadura que controla rigorosamente quem entra - geralmente apenas um pequeno número de turistas, diplomatas e trabalhadores humanitários - e para onde os seus cidadãos podem e não podem ir. Os desertores dizem que os norte-coreanos comuns não podem viajar para longe de casa sem a aprovação do governo.

Kim Jong Un disse no início deste mês que os esforços do seu país foram um "sucesso brilhante", mas alertou os seus funcionários para não serem complacentes, pois a crise global da saúde ainda não desapareceu.

Na última quarta-feira, havia mais de 140 vacinas candidatas em avaliação pré-clínica e 23 que haviam atingido ensaios clínicos, segundo uma lista compilada pela OMS. Algumas das gigantes empresas farmacêuticas que apoiam essas vacinas valem mais do que toda a economia da Coreia do Norte.

Ou seja, financeiramente o impulso norte-coreano por desenvolver uma vacina não faz sentido, escreve o produtor digital da BBC Internacional, Joshua Berlinger.

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