A reversão da suspensão do jogador norte-americano Folarin Balogun anunciada no domingo pela FIFA tem sido alvo de fortes críticas, incluindo o próximo adversário da seleção dos EUA, a Bélgica, à UEFA e até ao antigo presidente da federação internacional, Joseph Blatter.As críticas surgiram após as notícias avançadas pelo New York Times e pelo The Guardian, de que o líder norte-americano teria falado com o Presidente da FIFA, Gianni Infantino, a pressionar para mudar a decisão da suspensão automática do ponta-de-lança norte-americano, expulso no jogo dos 16-avos de final contra a Bósnia-Herzegovina.Na Casa Branca, o Presidente dos EUA admitiu que telefonou ao responsável pela federação e que lhe pediu ao responsável da FIFA para "rever" a decisão, admitindo porém que a decisão foi de "um comité" e não do Presidente"Ele [Balogun] não fez nada de errado. Duas pessoas chocaram uma contra a outra. E, já agora, se virem aquele jogo, houve dez situações que foram muito mais violentas do que essa", considerou o líder, que afirmou que o lance "não foi falta"..Ainda a defender Balogun, Trump destacou que "não sabia o que significava" um cartão vermelho e achava que "isso não significava muito"."Depois, comecei a ouvir dizer que isso significa que não se pode jogar no próximo jogo", continuou. Uma coisa é penalizar alguém por um jogo. Mas como é que se pode penalizá-lo por um jogo que ainda nem sequer foi disputado? É muito injusto. Não se pode fazer isso".O órgão de comunicação social Politico destaca que o apoio da Casa Branca à campanha de reverter a suspensão de Balogun foi para além de umas chamadas do líder.O secretário do Comércio, Harold Lutnick e Andrew Giuliani, filho do antigo autarca de Nova Iorque e advogado do Presidente Rudy Giuliani, terão oferecido os advogados da Presidência à federação de futebol norte-americana e chegaram mesmo a analisar antigas exibições controversas do árbitro brasileiro Raphael Claus, que arbitrou o EUA-Bósnia.Na conferência, o próprio Presidente norte-americano levantou suspeitas sobre Claus, dizendo aos jornalistas que "têm de olhar para a pessoa que mostrou o cartão"..Em reação, Gianni Infantino emitiu um comunicado através da FIFA a admitir que recebeu uma chamada de Trump mas assegurou que a decisão foi tomada independentemente disso. "Os órgãos judiciais da FIFA são independentes. Funcionam de forma autónoma, aplicam o Código Disciplinar da FIFA e decidem os casos com base nos regulamentos aplicáveis e nos factos específicos que lhes são apresentados", escreveu o presidente da FIFA, sublinhando que a sua independência é "essencial para a credibilidade e a integridade do futebol"."Leio as decisões da Comissão Disciplinar da FIFA assim que são publicadas. Às vezes, fico surpreendido com elas. Às vezes concordo com elas e outras vezes discordo", continuou.Sobre o telefonema, Infantino disse ter explicado a Trump que "havia um processo judicial em curso que envolvia os órgãos judiciais independentes da FIFA" e que é assim que o sistema funciona..Federação Belga "surpresa" com decisão e deve recorrerA reação da Bélgica à reversão da suspensão de Balogun tinha surgido logo no domingo, tendo a Federação Real Belga de Futebol (FRBF) mostrou-se "surpresa" com a decisão da FIFA."A fim de salvaguardar os direitos legítimos de todas as equipas participantes e de proteger os princípios fundamentais do fair play no nosso desporto, tanto neste Campeonato do Mundo da FIFA como em futuras edições do torneio, a RBFA está a analisar todas as opções possíveis", lê-se no comunicado publicado no site.O jornal The Athletic confirmou que a federação belga enviou uma carta à FIFA para recorrer sobre a decisão disciplinar e que o direito de recurso foi garantido.O selecionador belga, o francês Rudi Garcia, foi mais incisivo e ironizou dizendo que não sabia que o "5 de julho era igual ao 1 de abril na FIFA" -- referenciando o dia das Mentiras."Penso que devemos remeter para a [declaração] da minha federação, a federação belga. Penso que nela estão abordados muitos aspetos. A federação não se defende a si própria, não defende a seleção nacional — defende o futebol em geral. Defende a sua integridade. Defende a sua ética", acrescentou..UEFA diz que decisão cria "um precedente" e ultrapassa os limitesNum comunicado emitido esta segunda-feira, a UEFA considerou que a decisão da FIFA "ultrapassou um limite inaceitável"."O futebol, tal como qualquer outro desporto, assenta em regras, que constituem a base para uma competição justa, honesta e transparente. Por vezes, as regras estão abertas a interpretação. Neste caso, não", lê-se na declaração, onde a associação considera que a suspensão automática após um cartão vermelho "não é uma opção discricionária e não requer a decisão de um órgão competente para ser aplicada"."Trata-se de um princípio consagrado nos regulamentos, que não pode ser sujeito a exceções, muito menos no meio de um torneio em que vários outros jogadores se encontraram na mesma situação e cumpriram regularmente a sua suspensão", continua a UEFA."Quando a certeza das regras deixa de ser garantida pelos seus guardiões, a integridade do jogo fica em causa e a credibilidade de uma competição é comprometida", acrescentam, sublinhando que esta decisão "cria um precedente no torneio em curso"."O futebol é o desporto mais amado do mundo porque é um jogo bonito e inspira confiança por ser praticado em todo o lado com as mesmas regras", explicam, expressando ainda "a nossa incredulidade perante uma decisão tão sem precedentes, incompreensível e injustificável"..Comissão Europeia apela "ao fairplay e à competição transparente"Questionada em conferência de imprensa sobre o caso, a porta-voz da Comissão Europeia, Eva Hrncirova, não comentou diretamente o caso de Balogun mas defendeu que a competição seja "transparente" e com "fairplay"."Respeitamos o direito das federações desportivas de decidirem quais os critérios ao abrigo dos quais os participantes competem. E qualquer decisão desse tipo deve, obviamente, ser tomada com base num conjunto de critérios objetivos e transparentes", continuou.O comissário maltês com a pasta do Desporto, Glenn Micallef, disse na rede social X que acreditava "como fã" que Balogun não merecia ser expulso mas sublinhou que "as decisões sobre regras desportivas e questões desportivas competem aos organismos desportivos, não aos políticos"."Influenciar decisões desportivas comprometeria a autonomia do desporto", acrescentou. "Em vez disso, devemos concentrar-nos nos verdadeiros desafios de governação que o desporto enfrenta, incluindo a instrumentalização do desporto para fins políticos".."Cartões vermelhos não são anulados com telefonemas políticos", diz BlatterAo coro das críticas à FIFA juntou-se o antigo presidente e antecessor de Infantino, Joseph Blatter, que partiu para a rede social X para criticar a reversão da suspensão de Balogun e sublinhar que "os cartões vermelhos não são anulados por telefonemas políticos"."São anulados por regras, provas e organismos independentes. Se um Presidente dos EUA intervir junto do presidente da FIFA — e um jogador for subitamente absolvido antes de um jogo da fase eliminatória do Mundial —, a pergunta é inevitável: Quo vadis, FIFA?", lê-se na publicação. "O futebol nunca deve tornar-se um campo de manobras para o poder político", acrescentou.Corrigido às 14h44 com indicação de que Balogun foi suspenso após ser expulso.Gianni Infantino destaca “momento de celebração” no arranque do Mundial 2026 apesar das polémicas