Jogador foi expulso frente à Bósnia-Herzegovina
Jogador foi expulso frente à Bósnia-HerzegovinaFoto: Benijamin Fnajoy

Cedência da FIFA a Trump causa contestação internacional. Líder dos EUA acha que Balogun "não fez falta"

FIFA reverteu suspensão do avançado dos EUA. UEFA diz que decisão "ultrapassou um limite inaceitável". Seleção belga vai recorrer. Comissão Europeia apela "ao fairplay e à competição transparente".
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A reversão da suspensão do jogador norte-americano Folarin Balogun anunciada no domingo pela FIFA tem sido alvo de fortes críticas, incluindo o próximo adversário da seleção dos EUA, a Bélgica, à UEFA e até ao antigo presidente da federação internacional, Joseph Blatter.

As críticas surgiram após as notícias avançadas pelo New York Times e pelo The Guardian, de que o líder norte-americano teria falado com o Presidente da FIFA, Gianni Infantino, a pressionar para mudar a decisão da suspensão automática do ponta-de-lança norte-americano, expulso no jogo dos 16-avos de final contra a Bósnia-Herzegovina.

Na Casa Branca, o Presidente dos EUA admitiu que telefonou ao responsável pela federação e que lhe pediu ao responsável da FIFA para "rever" a decisão, admitindo porém que a decisão foi de "um comité" e não do Presidente

"Ele [Balogun] não fez nada de errado. Duas pessoas chocaram uma contra a outra. E, já agora, se virem aquele jogo, houve dez situações que foram muito mais violentas do que essa", considerou o líder, que afirmou que o lance "não foi falta".

Ainda a defender Balogun, Trump destacou que "não sabia o que significava" um cartão vermelho e achava que "isso não significava muito".

"Depois, comecei a ouvir dizer que isso significa que não se pode jogar no próximo jogo", continuou. Uma coisa é penalizar alguém por um jogo. Mas como é que se pode penalizá-lo por um jogo que ainda nem sequer foi disputado? É muito injusto. Não se pode fazer isso".

O órgão de comunicação social Politico destaca que o apoio da Casa Branca à campanha de reverter a suspensão de Balogun foi para além de umas chamadas do líder.

O secretário do Comércio, Harold Lutnick e Andrew Giuliani, filho do antigo autarca de Nova Iorque e advogado do Presidente Rudy Giuliani, terão oferecido os advogados da Presidência à federação de futebol norte-americana e chegaram mesmo a analisar antigas exibições controversas do árbitro brasileiro Raphael Claus, que arbitrou o EUA-Bósnia.

Na conferência, o próprio Presidente norte-americano levantou suspeitas sobre Claus, dizendo aos jornalistas que "têm de olhar para a pessoa que mostrou o cartão".

Em reação, Gianni Infantino emitiu um comunicado através da FIFA a admitir que recebeu uma chamada de Trump mas assegurou que a decisão foi tomada independentemente disso.

"Os órgãos judiciais da FIFA são independentes. Funcionam de forma autónoma, aplicam o Código Disciplinar da FIFA e decidem os casos com base nos regulamentos aplicáveis e nos factos específicos que lhes são apresentados", escreveu o presidente da FIFA, sublinhando que a sua independência é "essencial para a credibilidade e a integridade do futebol".

"Leio as decisões da Comissão Disciplinar da FIFA assim que são publicadas. Às vezes, fico surpreendido com elas. Às vezes concordo com elas e outras vezes discordo", continuou.

Sobre o telefonema, Infantino disse ter explicado a Trump que "havia um processo judicial em curso que envolvia os órgãos judiciais independentes da FIFA" e que é assim que o sistema funciona.

Federação Belga "surpresa" com decisão e deve recorrer

A reação da Bélgica à reversão da suspensão de Balogun tinha surgido logo no domingo, tendo a Federação Real Belga de Futebol (FRBF) mostrou-se "surpresa" com a decisão da FIFA.

"A fim de salvaguardar os direitos legítimos de todas as equipas participantes e de proteger os princípios fundamentais do fair play no nosso desporto, tanto neste Campeonato do Mundo da FIFA como em futuras edições do torneio, a RBFA está a analisar todas as opções possíveis", lê-se no comunicado publicado no site.

O jornal The Athletic confirmou que a federação belga enviou uma carta à FIFA para recorrer sobre a decisão disciplinar e que o direito de recurso foi garantido.

O selecionador belga, o francês Rudi Garcia, foi mais incisivo e ironizou dizendo que não sabia que o "5 de julho era igual ao 1 de abril na FIFA" -- referenciando o dia das Mentiras.

"Penso que devemos remeter para a [declaração] da minha federação, a federação belga. Penso que nela estão abordados muitos aspetos. A federação não se defende a si própria, não defende a seleção nacional — defende o futebol em geral. Defende a sua integridade. Defende a sua ética", acrescentou.

UEFA diz que decisão cria "um precedente" e ultrapassa os limites

Num comunicado emitido esta segunda-feira, a UEFA considerou que a decisão da FIFA "ultrapassou um limite inaceitável".

"O futebol, tal como qualquer outro desporto, assenta em regras, que constituem a base para uma competição justa, honesta e transparente. Por vezes, as regras estão abertas a interpretação. Neste caso, não", lê-se na declaração, onde a associação considera que a suspensão automática após um cartão vermelho "não é uma opção discricionária e não requer a decisão de um órgão competente para ser aplicada".

"Trata-se de um princípio consagrado nos regulamentos, que não pode ser sujeito a exceções, muito menos no meio de um torneio em que vários outros jogadores se encontraram na mesma situação e cumpriram regularmente a sua suspensão", continua a UEFA.

"Quando a certeza das regras deixa de ser garantida pelos seus guardiões, a integridade do jogo fica em causa e a credibilidade de uma competição é comprometida", acrescentam, sublinhando que esta decisão "cria um precedente no torneio em curso".

"O futebol é o desporto mais amado do mundo porque é um jogo bonito e inspira confiança por ser praticado em todo o lado com as mesmas regras", explicam, expressando ainda "a nossa incredulidade perante uma decisão tão sem precedentes, incompreensível e injustificável".

Comissão Europeia apela "ao fairplay e à competição transparente"

Questionada em conferência de imprensa sobre o caso, a porta-voz da Comissão Europeia, Eva Hrncirova, não comentou diretamente o caso de Balogun mas defendeu que a competição seja "transparente" e com "fairplay".

"Respeitamos o direito das federações desportivas de decidirem quais os critérios ao abrigo dos quais os participantes competem. E qualquer decisão desse tipo deve, obviamente, ser tomada com base num conjunto de critérios objetivos e transparentes", continuou.

O comissário maltês com a pasta do Desporto, Glenn Micallef, disse na rede social X que acreditava "como fã" que Balogun não merecia ser expulso mas sublinhou que "as decisões sobre regras desportivas e questões desportivas competem aos organismos desportivos, não aos políticos".

"Influenciar decisões desportivas comprometeria a autonomia do desporto", acrescentou. "Em vez disso, devemos concentrar-nos nos verdadeiros desafios de governação que o desporto enfrenta, incluindo a instrumentalização do desporto para fins políticos".

"Cartões vermelhos não são anulados com telefonemas políticos", diz Blatter

Ao coro das críticas à FIFA juntou-se o antigo presidente e antecessor de Infantino, Joseph Blatter, que partiu para a rede social X para criticar a reversão da suspensão de Balogun e sublinhar que "os cartões vermelhos não são anulados por telefonemas políticos".

"São anulados por regras, provas e organismos independentes. Se um Presidente dos EUA intervir junto do presidente da FIFA — e um jogador for subitamente absolvido antes de um jogo da fase eliminatória do Mundial —, a pergunta é inevitável: Quo vadis, FIFA?", lê-se na publicação. "O futebol nunca deve tornar-se um campo de manobras para o poder político", acrescentou.

Corrigido às 14h44 com indicação de que Balogun foi suspenso após ser expulso

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