Flávio Bolsonaro está entre as figuras mais atingidas pelo escândalo ligado ao dono do falido Banco Master.
Flávio Bolsonaro está entre as figuras mais atingidas pelo escândalo ligado ao dono do falido Banco Master.FOTO: EPA/André Borges

Vorcaro-2026. Quem já foi atingido pelo material radioativo da política brasileira?

Altamente tóxico, dono do Banco Master contaminou um candidato ao Planalto, um aliado do atual presidente, um ex-ministro, dois juízes, o chefe do Congresso Nacional e não só em ano eleitoral.
Publicado a
Atualizado a

Como o urânio-238 ou o radónio-222, a política do Brasil também vive sob a ameaça de um material radioativo com nome, Vorcaro, e número, 2026. O dono do falido Banco Master, acusado pela Polícia Federal (PF) de corromper meia Brasília, contamina as eleições de outubro deste ano. Até porque entre os mais atingidos está Flávio Bolsonaro, o principal adversário nesse sufrágio de Lula da Silva, que, por sua vez, viu um aliado de longa data também exposto às radiações.     

Daniel Vorcaro, banqueiro nascido em Belo Horizonte, há 42 anos, corrompeu os principais atores políticos do Brasil enquanto cometia fraudes no equivalente a, no mínimo, 5,5 mil milhões de euros. Por essa razão é comparado a Marcelo Odebrecht, o dono da construtora que na década passada pagou campanhas e outros luxos de dezenas de políticos brasileiros e acabou delatando os donos do poder na Lava Jato, operação policial que abalou as estruturas do país.

Porém, Vorcaro, que está preso desde 4 de março, não precisou sequer de delatar: as duas tentativas de colaboração premiada que apresentou até agora foram recusadas pela investigação por não apresentarem nada de novo face ao que foi descoberto pelos agentes nos telemóveis do detido.

A PF apurou, por exemplo, que além da atividade fraudulenta Vorcaro mantinha uma espécie de departamento do crime onde, segundo relatório policial oficial e auto de André Mendonça, juiz do Supremo Tribunal Federal (STF), “praticava extorsões, coerções, ameaças, agressões graves com atos de violência física, moral, económica, psicológica, patrimonial e profissional”, além de “calúnias, difamações, injúrias e tráfico de influências” direcionados a quem se lhe opusesse.

Esse departamento era liderado por Luiz Philippi Mourão, conhecido como Sicário, que se tentou suicidar na prisão naquele mesmo 4 de março em que Vorcaro foi preso e morreu dois dias depois já no hospital. Uma fotografia de 2022 revelada pelo site ICL Notícias na quarta-feira, dia 15, de Sicário com Flávio Bolsonaro, cuja veracidade a campanha deste contesta mas o veículo de comunicação atesta, foi aliás o último episódio de contaminação de um político pelo radioativo Vorcaro.

Antes, uma gravação de Flávio a pedir cerca de 23 milhões de euros ao banqueiro para financiar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, já havia atingido o candidato e causado estragos na campanha. Mais: há provas de visitas de solidariedade de Flávio ao banqueiro depois de descoberta a fraude no Master.

Entretanto, Lula também foi exposto à toxicidade de Vorcaro quando a PF descobriu ligações suspeitas entre o banqueiro e um aliado do presidente, o senador Jaques Wagner, que perdeu o cargo de líder parlamentar do Partido dos Trabalhadores no Senado na sequência.       

Mas a menção ao nome de Daniel Vorcaro já contaminou muitos mais atores políticos, de líderes de partidos aos chefes do poder legislativo, passando por juízes do STF, mesmo sem ter uma delação aprovada pela PF. E, dizem nos corredores de Brasília, essa delação ainda pode ocorrer, assim o banqueiro conte tudo o que sabe.    

OS CONTAMINADOS

Ciro Nogueira 

Senador e ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro

Segundo a PF, o presidente do poderoso PP, de direita, recebia mesada de cerca de 85 mil euros e usufruiu de viagens de luxo e de imóveis pagos pelo banqueiro em troca da redação de emendas parlamentares favoráveis ao Master. Em mensagens, Vorcaro chamou-o de “irmão de vida”.  

Flávio Bolsonaro

Senador e pré-candidato à presidência

Áudios expuseram pedido de cerca de 23 milhões de euros de Flávio a Vorcaro para financiar filme sobre o pai. O candidato ainda se reuniu com o banqueiro, a quem tratava como “irmão”, já depois das fraudes no Master virem a público. E nos últimos dias foi publicada na imprensa uma foto do candidato com o chefe da milícia privada do banqueiro.

Jaques Wagner

Senador ex-ministro do PT

Segundo a PF, um ex-sócio de Vorcaro intercedia a favor do Banco Master junto ao ex-ministro dos governos Lula e Dilma. Mesmo amigo pessoal do atual presidente, Wagner acabou removido do cargo de líder parlamentar pelo PT após a revelação. O próprio Lula também recebeu Vorcaro, segundo a agenda oficial do Planalto.   

Alexandre de Moraes

Juiz do STF

O juiz mais odiado pelo bolsonarismo foi enredado nas teias do Master porque o escritório da mulher tinha contratos de cerca de 22 milhões de euros com o banco. A PF ainda descobriu troca de mensagens entre magistrado e banqueiro no dia da prisão deste. Antes, as investigações detalharam negócios num resort entre familiares de outro juiz do STF, Dias Toffoli, e um cunhado de Vorcaro também preso.

Davi Alcolumbre

Presidente do Congresso Nacional

O presidente do Senado é acusado pelo próprio Vorcaro de receber 26,2 milhões de euros do Master em troca de viabilizar investimento de 68 milhões do fundo de previdência do estado do Amapá quando o órgão era controlado pelo irmão e por um aliado. Já Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, é investigado por interceder num empréstimo de 3,7 milhões do Master à cunhada. 

Flávio Bolsonaro está entre as figuras mais atingidas pelo escândalo ligado ao dono do falido Banco Master.
Daniel Vorcaro. O Brasil também já tem um “caso Jeffrey Epstein”
Diário de Notícias
www.dn.pt