O Ministério Público do Brasil solicitou ao Tribunal de Contas a abertura de um inquérito para identificar as autoridades do país que participaram em festas organizadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, cuja liquidação está a abalar as estruturas da República por envolver o poder económico, político e judicial do país. Como esses eventos, segundo relatos da imprensa, eram faustosos, regados a whisky e vinhos caros e tinham a presença de modelos estrangeiras, o escândalo está a ser comparado ao de Jeffrey Epstein, nos EUA. As festas, segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo que cita 13 executivos, empresários e integrantes de órgãos públicos como fontes sob anonimato, ocorreram sobretudo na estância balnear de Trancoso, na Bahia, mas também noutros pontos do Brasil e do mundo, como Lisboa. Uma outra reportagem, da revista Liberta, é citada no próprio requerimento do Ministério Público. Lá, os eventos são descritos como suntuosos e restritos a políticos, de partidos diversos, e executivos de instituições públicas, nos quais não era permitido entrar de telemóvel, embora o banqueiro tivesse um sistema de câmaras próprio. Peritos da Polícia Federal (PF) já tiveram acesso a esses vídeos dos sistemas de vigilância do imóvel em Trancoso, noticia, entretanto, o jornal O Tempo, e procuram agora, através do registo de visitas, sustentar os vínculos entre os participantes das festas e Vorcaro. Nos encontros eram oferecidos caviar, vinhos, como Petrus, La Tâche e Armand Rousseau, e whisky Macallan Black de 12 anos, segundo as reportagens, com o serviço a cargo de modelos europeias – em idade legal, ao contrários dos crimes patrocinados por Epstein. Três aviões privados de uma empresa do banqueiro fizeram pelo menos 20 aterragens e decolagens de Trancoso, entre o fim de dezembro de 2023 e meados de outubro de 2025, conforme dados da Agência Nacional de Aviação Civil, citados pelo jornal O Tempo.Eventos em Nova Iorque e em Lisboa, este ocorrido após o Fórum Jurídico organizado pelo juiz Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), são citados pela Folha de S.Paulo como exemplos de luxo extremo. A defesa de Vorcaro respondeu à imprensa tratarem-se de “relatos distorcidos, utilizados para construir narrativa difamatória e sensacionalista contra o empresário”.Elio Gaspari, colunista do jornal O Globo, chamou o caso de “Epstein tupiniquim”, usando, em vez de “brasileiro”, o nome do povo indígena que habitava o litoral do país antes de 1500. “Mas o circuito de Vorcaro era mais modesto”, sublinhou. “Há mais do que estilos de vida extravagantes nas semelhanças entre Jeffrey Epstein e Daniel Vorcaro, pivôs de escândalos de corrupção que expõem as entranhas do poder, no Brasil e nos EUA”, opinou, por sua vez, Marcos Tosi, articulista do jornal Gazeta do Povo. E concluiu: “Apesar de não haver qualquer acusação de que Vorcaro tenha agido como um predador sexual, que é o caso de Epstein, ainda assim o ‘empreendedor’ brasileiro está associado a festas de arromba, proibidas para menores de 18, e a um mesmo padrão de ostentação e tráfico de influência com poderosos da política, do poder judicial, celebridades e ricaços”. Para o deputado Duarte Júnior, do PSB, de centro-esquerda, as questões levantadas pelo Ministério Público revelam “um modus operandi que envolve a contratação de garotas de programa norueguesas ou dinamarquesas [nas reportagens fala-se em ucranianas de outros países do leste europeu] que não falam português, até para que não compartilhassem nem soubessem quem eram as pessoas que estavam ali”. “O que chama a atenção é que essas práticas libidinosas teriam sido filmadas. E filmaram para chantagear? Imaginem se forem partilhadas? É algo que pode fazer cair a República. Parece que muitas autoridades dos três poderes tiveram participações nesse modus operandi do Vorcaro”, prosseguiu, citado pelo site MyNews, o parlamentar que é relator de uma CPI que quer chamar Vorcaro a depor.Com uma estratégia de captação de recursos considerada suicida, o Banco Master, fundado por Vorcaro, 42 anos, natural de Belo Horizonte, cresceu imparável até um passivo multimilionário o obrigar a vender a instituição ao Banco de Brasília. Em setembro passado, porém, o Banco Central (BC) vetou a operação. Meses depois, a PF prendeu Vorcaro, supostamente em fuga no aeroporto de Guarulhos, por fraudes em torno de quase dois mil milhões de euros.Entre os muitos poderosos associados ao empresário, Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, e Dias Toffoli, juiz do STF, foram os primeiros alvos políticos: um e outro têm contra si pedidos de impeachment de parlamentares da esquerda à direita. Em causa, a tentativa de aquisição do Master pelo Banco de Brasília, instituição pública controlada por Ibaneis, e o sigilo decretado por Toffoli ao processo, antes de se saber que o magistrado viajou num jato de Vorcaro para Lima, no Peru, para assistir à final da Taça dos Libertadores e que dois irmãos seus são sócios num resort de um cunhado do banqueiro também preso no escândalo. Toffoli já deixou a relatoria do caso..Escândalo Master. Brasília teme uma nova Operação Lava Jato