Os dias passam, o entra e sai no Eliseu é constante e os telefonemas não param à procura de um compromisso. Quase dois meses depois da segunda volta das eleições legislativas, as mais participadas em 30 anos, mas também as que mais fragmentaram a Assembleia Nacional, a França continua sem um novo primeiro-ministro. As atenções estão centradas no presidente Emmanuel Macron, que, com a decisão de antecipar as eleições e depois querer garantir “uma maioria numerosa e estável” num cenário de incerteza, pode ter cavado a própria sepultura..Num jogo de bloqueios, Macron fechou a porta tanto à extrema-direita do Reunião Nacional (RN) de Marine Le Pen - o maior partido com 126 deputados, apesar de ter sido o terceiro mais votado -, como à esquerda radical d’A França Insubmissa (LFI), de Jean-Luc Mélenchon. Este último partido tem 72 deputados e é o maior dentro da Nova Frente Popular (NFP, 193 deputados), a aliança de esquerdas que foi a mais votada nas legislativas. O bloco aliado ao presidente tem 168 representantes. São precisos 289 para ter a maioria absoluta..A NFP apostou na funcionária de carreira, Lucie Castets, para a chefia do Governo. Mas Macron recusou e parecia apostar no ex-ministro conservador Xavier Bertrand ou no antigo primeiro-ministro socialista Bernard Cazeneuve - que deixou o partido em 2022, rejeitando uma outra aliança de esquerdas. O problema é que cada um dos campos políticos ameaçava censurar o outro - ou até o próprio, não sendo certo que Cazeneuve conseguisse o apoio de toda a esquerda. E esses nomes já terão caído..A nomeação do chefe de Governo depende apenas do presidente, que não tem data limite para o fazer - e inicialmente excluiu fazê-lo durante os Jogos Olímpicos de Paris, atrasando mais o processo que só reiniciou a 23 de agosto. Mas os deputados podem pedir de imediato uma moção de censura. É por isso que Macron acaba por ficar nas mãos dos partidos. O problema é não pode escapar, estando proibido pela Constituição de voltar a dissolver a Assembleia Nacional no ano que se segue às legislativas..Bloqueios.A NFP insiste em nomear o chefe do Governo, mas a rejeição à LFI parece inultrapassável (mesmo tendo Mélenchon aceitado não ter ministros para o seu partido). Por causa da negativa de Macron em aceitar a nomeação de Castets, 80 deputados de três grupos parlamentares já apresentaram uma proposta para a destituição do chefe de Estado - terá de ser aprovada por dois terços dos deputados, algo improvável..Já a direita tradicional defende a “coabitação” (expressão usada quando há um primeiro-ministro de um campo diferente do presidente), de preferência saído das suas fileiras. Ao centro, são traçadas linhas vermelhas à esquerda, enquanto se procura que os socialistas se separem do resto da NFP, para não depender da extrema-direita do RN..Já o partido de Le Pen parece querer surgir como “fazedor de reis”. Daí a abertura a um Governo “técnico”, cuja principal missão seria mudar o sistema eleitoral para um de representação proporcional antes da convocação de novas eleições em 2025. Em França, os deputados são eleitos por círculo eleitoral, num sistema de duas voltas (exceto quando um candidato consegue mais de 50% dos votos na primeira). Nestas eleições, o RN parecia no caminho para uma maioria absoluta na primeira volta, mas foi criada uma “frente republicana” que permitiu focar o voto anti-RN..Com todos estes obstáculos, a cada dia que passa a lista de potenciais primeiros-ministros ganha e perde nomes. Esta quarta-feira falava-se no autarca de Cannes, David Lisnard, d’Os Republicanos. Na véspera a aposta era em Thierry Beaudet, um funcionário que está à frente do Conselho Económico, Social e Ambiental. Macron parece testar a reação dos partidos. Entretanto Gabriel Attal, que se demitiu a 16 de julho, continua de maneira interina no cargo. E arrisca ainda estar assim quando começar a nova sessão legislativa, a 1 de outubro..“Ao recusar jogar o jogo, imperfeito, da democracia, convencido de que a solução ideal, capaz de ‘garantir a estabilidade do país’, só pode partir dele, Emmanuel Macron privou-se paradoxalmente de opções”, escreveu a jornalista Solenn de Royer-Dupré na sua crónica no jornal Le Monde. “Colocou-se nas mãos dos partidos, correndo o risco de ver tudo voltar para cima dele, aos seus erros de julgamento - a louca dissolução - e à sua procrastinação. Sem contar que uma eventual censura do primeiro-ministro, que terá penosamente escolhido, lhe será imediatamente atribuída”, acrescentou..O ex-presidente socialista e atual deputado François Hollande resumiu o problema: “Macron não quer mudar de política. Ele procura uma pessoa, não-censurável, mas que terá a mesma política que ele. Ele não quer ceder nem no poder, nem na sua política. Ele não quer coabitar”, disse ao programa Le Quotidien..susana.f.salvador@dn.pt