O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e a mulher estavam numa visita oficial à Índia quando, em outubro de 2024, o juiz Juan Carlos Peinado resolveu juntar dois crimes à investigação judicial que liderava desde abril a Begoña Gómez, referentes a uma cátedra que codirigia na Universidade Complutense de Madrid.Agora, foi numa visita oficial à China que o casal foi informado da decisão do juiz de a processar por tráfico de influência, corrupção empresarial, peculato e apropriação indevida. “Não é acidental”, disseram fontes da Moncloa aos jornalistas espanhóis, sugerindo que o objetivo é prejudicar Sánchez. O gabinete do primeiro-ministro critica não apenas o juiz - o próprio ministro da Justiça, Félix Bolaños, diz que “envergonhou muitos cidadãos, muitos juízes e magistrados “ do país - como se mostra indignado com algumas das expressões do auto, que consideram “impróprias da democracia, das instituições e da separação de poderes”.Um parágrafo está a ser especialmente contestado: “as condutas originárias de palácios presidenciais, como neste caso, parecem mais típicas de regimes absolutistas, felizmente agora esquecidos no nosso Estado, o que nos obriga a tentar analisar (talvez devêssemos regressar ao reinado de Fernando VII) este tipo na perspetiva de uma interpretação teleológica e hermenêutica dos artigos 428º e 429º do Código Penal”. Estes artigos dizem respeito aos crimes de tráfico de influências.A investigação ao chamado “Caso Begoña Gómez” começou a 24 de abril de 2024, depois de o juiz aceitar a denúncia da associação de extrema-direita Manos Limpias contra a mulher do primeiro-ministro com base em notícias de imprensa (os socialistas dizem que eram falsas). Em causa está a criação da Cátedra de Transformação Social Competitiva na Universidade Complutense, alegadamente junto com o empresário Juan Carlos Barrabés que terá supostamente beneficiado de contratos públicos. Segundo escreve agora o juiz, desde que Sánchez se tornou primeiro-ministro, “foram tomadas certas decisões públicas” favoráveis à cátedra e ao seu projeto, “que poderiam ter sido obtidas através de uma exploração singular da sua posição de influência”. .Fim da instrução: mulher de Pedro Sánchez processada por quatro crimes .Em relação ao crime de corrupção, considera que Gómez foi “a força motriz por detrás da angariação de fundos privados (..) não para a cátedra na universidade pública (que era apenas de fachada), mas para a integrar no seu património pessoal”.Dois anos depois, e após vários altos e baixos, o juiz (que passará à reforma em setembro) avança com o processo em quatro crimes - mas deixa cair o de exercício ilegal da profissão, por considerar que “existem apenas indícios fracos, sem múltiplos e sólidos indícios”. E quer um julgamento com júri. A assessora de Gómez, Cristina Álvarez, está acusada dos mesmos quatro crimes, enquanto Barrabés responde por tráfico de influências e corrupção empresarial.O início da investigação levou Sánchez a tirar “cinco dias de reflexão”, findos os quais denunciou a pressão sobre a sua família e anunciou que não se iria demitir. E desde então a pressão não diminuiu, não apenas com este caso mas com outros de corrupção a envolver seus aliados. O primeiro-ministro acusou os juízes de andarem a “fazer política”.O PSOE considera que o caso contra Gómez é “completamente infundado”, sendo parte da estratégia da direita e da extrema-direita para “assediar e minar o primeiro-ministro”, usando até a sua família. Em comunicado o partido disse que “nem tudo é válido na política”, acrescentando que foi cruzada “uma linha nunca ultrapassada na democracia espanhola”. O Partido Popular (PP) considera que esta situação é “absolutamente incrível”, enquanto a extrema-direita do Vox considera que “é apenas a ponta do icebergue”. Sánchez e a mulher, na viagem oficial à China (é a quarta do primeiro-ministro em quatro anos), não reagiram ao caso que rebentou já quando era noite em Pequim. O chefe do governo focou a sua mensagem na necessidade de “corrigir” o desequilíbrio na balança comercial entre China e Espanha e pediu aos chineses que contribuam mais para o fim das guerras no Médio Oriente e na Ucrânia.