Keir Starmer recorreu à sabedoria oriental ao resumir o porquê da sua visita à China: “Gostaria de evocar uma frase chinesa, que penso capturar a essência do que estou a dizer: perseguir objetivos comuns, preservando as diferenças. É isso que estamos a esforçar-nos por alcançar juntos.” No campo teórico, terão alcançado. Foi anunciado um acordo para “desenvolver uma parceria estratégica abrangente, estável e de longo prazo”. O primeiro-ministro britânico ouviu na quinta-feira o presidente Xi Jinping apelar para o papel que ambos os países podem desempenhar no palco global em prol da paz e da estabilidade. Recebeu também um elogio ao seu partido, e anúncios de quebra de barreiras. Starmer quer “uma relação mais sofisticada, adequada para estes tempos”, mas é prematuro para saber se a visita que termina amanhã terá resultados mais duradouros do que uma vitória diplomática de Pequim, ao ouvir do primeiro-ministro que Londres não tem de escolher entre a China e os EUA..Starmer aposta na China em modo de “cooperação pragmática”.O chefe do governo britânico teve um dia preenchido com encontros ao mais alto nível: o presidente Xi Jinping (em dois momentos, com as respetivas equipas, e acompanhados apenas de um assessor e de tradutor), o primeiro-ministro Li Qiang e o presidente do Congresso Nacional do Povo Zhao Leji. Também Xi citou um provérbio, no caso atribuído a Mao Tse-tung: “Alarga o olhar por amplas paisagens”, disse no início das suas declarações a Starmer, no que foi lido como um apelo contra o imediatismo e em favor de uma visão de conjunto que acomode as diferenças e se baseie no respeito mútuo. As relações bilaterais passaram da “era dourada” de 2015 para a “era do gelo” a partir de 2019, com a repressão de Pequim em Hong Kong e em Xinjiang e a recusa de as empresas chinesas entrarem em setores críticos como a energia e as telecomunicações. Xi e Starmer coincidiram que o palco internacional está instável, motivo pelo qual devem trabalhar em conjunto. O primeiro-ministro britânico disse viverem-se “tempos desafiantes para o mundo”. O líder chinês Xi descreveu a situação internacional como “turbulenta e fluida” e advertiu contra o “unilateralismo” e a “política de poder”, tendo afirmado que as grandes potências devem impedir que o palco internacional “regresse a um mundo semelhante a uma selva”. O presidente dos Estados Unidos não foi referido de forma direta, mas estaria nas entrelinhas, dada a sua guerra comercial, o rapto do líder venezuelano Nicolás Maduro e as ameaças quer a adversários, quer a aliados. O mesmo se poderia dizer do russo Vladimir Putin e da sua guerra de conquista na Ucrânia, porém sendo este seu parceiro estratégico e tendo o líder comunista elogiado os “inquebrantáveis” laços sino-russos, não seria para Moscovo que Xi estava a apontar.Virando-se para o Reino Unido, Xi disse que como membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e grandes economias, os países têm um papel de diálogo e cooperação para manter a paz e a estabilidade mundiais. E, ao mesmo tempo, podem desenvolver a economia e o bem-estar das populações de ambos os países. Deixou uma farpa aos anteriores chefes do executivo britânico, ao dizer que as relações bilaterais sofreram “reviravoltas nos anos anteriores, o que não era do interesse de nenhum dos dois países”. Em contrapartida, elogiou as “contribuições importantes para o crescimento das relações China-Reino Unido” do Partido Trabalhista de Starmer.Cavalos a galope Segundo a CCTV, a televisão oficial chinesa, ao recordar que que o novo ano chinês (ano do Cavalo) está à porta, Xi disse acreditar no sucesso da visita e que a cooperação entre os dois países será “um cavalo a avançar a galope”, expressão usada para descrever “assumir a liderança”. Sobre essa questão, Xi parece ter comentado a política interna britânica, onde vozes como a líder conservadora Kemi Badenoch defenderam que a visita não deveria ter lugar e que não deveria ter sido autorizada a construção de uma nova embaixada chinesa em Londres, em especial depois das revelações de espionagem a que os anteriores governantes terão sido sujeitos. “Às vezes, as coisas boas demoram a acontecer. Contanto que seja a decisão certa que sirva os interesses fundamentais do país e do povo, então, como líderes, não devemos fugir das dificuldades e devemos avançar com firmeza”, disse Xi.O líder chinês anunciou duas medidas reveladoras da boa vontade do regime comunista. Pôs o Reino Unido em linha com 50 países, Portugal incluído, e agora os seus cidadãos em turismo ou negócios estão dispensados de visto para permanências inferiores a 30 dias; e baixou as taxas aduaneiras ao whisky escocês, uma medida que o governo britânico estima ter um impacto positivo nas empresas do setor de 250 milhões de libras nos próximos cinco anos. Muito superior foi o investimento anunciado pela AstraZeneca: 15 mil milhões de dólares até 2030 para investigação e desenvolvimento e produção de medicamentos em terras chinesas. Os britânicos foram imunizados com vacinas daquela empresa farmacêutica contra o vírus detetado na China e causador da pandemia. Também foram assinados 10 acordos, mas um dos que mais interessa a Londres - o acesso ao mercado chinês dos serviços profissionais e dos serviços financeiros - ficou, para já, de fora. Foi acordado realizar um “estudo de viabilidade”.No meio de perspetivas de negócios, Starmer confirmou ainda ter falado na questão dos direitos humanos na China e em particular no caso do ex-magnata Jimmy Lai, que pode receber uma sentença de prisão perpétua. Segundo foi assegurado à Sky News, o tema não foi apenas levantado, mas discutido de forma substantiva.