Um ano de ataques às "narcolanchas": pelo menos 227 mortos e a mesma cocaína a entrar nos EUA
A 2 de setembro de 2025, o presidente norte-americano, Donald Trump, revelou aos jornalistas na Sala Oval que os militares dos EUA tinham acabado de "neutralizar", nas águas internacionais do Mar das Caraíbas, uma embarcação rápida oriunda da Venezuela. Esta transportava alegadamente "uma grande quantidade de droga" e 11 "narcoterroristas" foram mortos.
Mais tarde, Trump partilhou o vídeo do momento nas redes sociais: 29 segundos a preto e branco que mostravam o "ataque cinético".
Esse foi o início da chamada Operação Lança do Sul que se alargou também ao Pacífico e, um ano depois, já terá resultado na morte de pelo menos 227 pessoas, todas apresentadas pelas autoridades norte-americanas como sendo traficantes de droga. Só três pessoas foram resgatadas.
Estima-se que, no total, tenham sido atacadas pelo menos 68 "narcolanchas" ao longo do ano, o último a 25 de agosto, nas Caraíbas, em que morreram quatro pessoas. O último ataque do lado do Pacífico terá sido dois dias antes, fazendo dois mortos.
As operações surgiram depois de vários cartéis terem sido classificados pelos EUA como terroristas, incluindo o venezuelano Tren de Arágua, tendo Trump na altura prometido "levar a luta aos cartéis e narcoterroristas que têm envenenado as nossas comunidades durante demasiado tempo".
O Pentágono alega que a operação "tem sido amplamente bem-sucedida", explicando que os ataques do Comando Sul dos EUA ao longo do último ano levaram a "reduções recorde da atividade marítima ilícita", falando numa redução de "65% nas Caraíbas Ocidentais, 60% nas Caraíbas Orientais e quase 50% em áreas-chave do Pacífico Oriental".
Mas o balanço positivo do Pentágono choca com os dados da agência de combate ao narcotráfico norte-americana, a DEA.
Segundo um artigo do final de julho, publicado no The Washington Post, analistas da DEA concluíram que os ataques "não afetaram o fornecimento ou o preço da cocaína nos EUA e levaram os traficantes a diversificar as suas operações".
De acordo com o mesmo artigo, em vez de usar as lanchas rápidas, os traficantes estão a optar por embarcações maiores, evitando as águas internacionais e seguindo mais próximo da costa, onde as forças americanas têm menos probabilidade de abrir fogo.
Os responsáveis do Pentágono terão admitido aos congressistas, numa audiência à porta fechada, que a Operação Lança do Sul não reduziu a pureza da cocaína (o que deveria acontecer se houvesse menos desta droga disponível no mercado).
Os ataques militares contra as lanchas anteciparam o ataque de janeiro que levou à extração do então presidente venezuelano, Nicolás Maduro, atualmente detido numa prisão em Nova Iorque a aguardar o desenrolar do processo em que é acusado de narcotráfico.

