Xi Jinping enfrenta pela primeira vez um cenário económico menos favorável.
Xi Jinping enfrenta pela primeira vez um cenário económico menos favorável.AFP

Um 2024 que promete perigos e desafios para Xi Jinping

Uma situação económica delicada, eleições em Taiwan, com independentistas à frente nas sondagens, mas também as presidenciais dos EUA irão marcar o ano para Pequim e para o presidente chinês.
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Um dos grandes desafios que a China de Xi Jinping enfrentará no próximo ano terá o desfecho, ou ponto de partida, conhecido logo a 13 de janeiro, data em que se realizam as eleições presidenciais de Taiwan. Desfecho porque se saberá se o vencedor é o DPP ou o Kuomintang e ponto de partida porque, a partir desse mesmo resultado, dependerá como será a relação futura de Pequim com Taiwan e com os Estados Unidos. Um aviso à navegação: todas as sondagens, até ao momento, dão vantagem aos independentistas do DPP, atualmente no poder. Xi, no seu discurso de fim de ano, proferido ontem, definiu a reunificação com Taiwan como uma “inevitabilidade histórica”.

“Se ganhar o Partido Democrático Progressista (DPP), é provável um aumento das tensões entre Pequim e Taipé, que tem consequências negativas para as relações entre Pequim e Washington. Se ganhar o Partido Nacionalista (Kuomintang) é possível uma pausa nas tensões entre Pequim e Taipé”, defende Carlos Gaspar, professor catedrático e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-NOVA). Uma opinião que é partilhada por Luís Tomé, professor catedrático e diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa. “Há um contexto externo com variáveis que Xi Jinping não consegue controlar inteiramente. E a primeira delas são as eleições em Taiwan, que podem precipitar fatores negativos na relação com os Estados Unidos e uma tensão muito grande se ganharem os independentistas do DPP novamente. É um mau sinal para aquilo que são os objetivos de Xi Jinping, ele determinou que a questão de Taiwan devia ser resolvida no seu tempo, o relógio está a contar e ele não vai ter muita margem para não reagir no caso dos independentistas ganharem e quererem fazer avançar a sua agenda de independência. E isso põe em causa o projeto de unidade nacional, de rejuvenescimento da China, que Xi Jinping traçou, e certamente vai fazer escalar as tensões com os Estados Unidos”.

O futuro da relação entre Pequim e Washington, além de Taiwan, também dependerá do resultado de outras eleições, as presidenciais norte-americanas, marcadas para 5 de novembro. “A relação entre os Estados Unidos e a China, como as outras relações entre os Estados Unidos e as potências relevantes, estão suspensas do resultado das eleições presidenciais de novembro. A política dos Estados Unidos em relação à China é um dos temas da campanha, talvez o único em que há uma convergência entre os dois partidos americanos”, refere o investigador do IPRI.

Um futuro incerto que leva o diretor do Departamento de Relações Internacionais da UAL a chamar a cimeira entre Joe Biden e Xi Jinping, realizada em meados de novembro em São Francisco, de “preventiva”. “Houve vários aspetos importantes dessa cimeira, sendo talvez o aspeto mais importante o reatamento dos contactos militares ao mais alto nível, mas também um grupo de trabalho comum para a inteligência artificial, a retoma das negociações ao nível do investimento e do comércio. Chamei a essa cimeira de preventiva porque as coisas estavam muito tensas, sobretudo desde a visita de Nancy Pelosi a Taiwan. A China, por várias vezes, recusara iniciativas de aproximação da presidência Biden e acabou por aceitar agora, acho que, em parte, porque Xi Jinping está numa posição de vulnerabilidade económica, coisa que nunca tinha acontecido no reinado dele, mas também porque os perigos são muito grandes em 2024, nomeadamente pelas eleições de Taiwan e dos Estados Unidos”, explica Luís Tomé.

Contestação interna

Mas é no plano interno que se encontram os principais desafios da República Popular da China no próximo ano, conforme vaticina Carlos Gaspar. “As tendências paralelas de estagnação do crescimento da economia, de envelhecimento da população e de frustração das expectativas das classes médias urbanas criam uma nova conjuntura para qual a resposta do regime comunista, com a mobilização ideológica, o culto da personalidade de Xi Jinping e o aumento da repressão, nomeadamente contra os dissidentes e as minorias, não é senão uma forma de adiar as reformas necessárias”.

“Pela primeira vez desde que Xi Jinping chegou ao poder confronta-se com uma situação económica muito delicada. Houve uma queda muito significativa do investimento estrangeiro, o crescimento económico pode não chegar à meta dos 5% que tinha previsto para este ano, temos uma bolha imobiliária, temos um desemprego galopante, sobretudo entre os jovens - aliás, já não há estatísticas oficiais de desemprego na China desde o início do verão. O fator demográfico é um problema para Xi Jinping, pois a sua alteração da política de controlo da natalidade não está a dar resultados, da mesma maneira que ele esperava que o fim das políticas de restrição covid-19 se repercutisse de imediato num grande crescimento económico e também não está a acontecer”, acrescenta Luís Tomé.

Dois relativos fracassos de Xi Jinping que também estão a ter impacto político. “É por isso que a contestação interna também vai crescendo, embora publicamente se saiba muito pouco, vemos algumas purgas, vemos altos dirigentes que desaparecem, sabemos que há problemas internos no coração do poder chinês, mas sem grandes pormenores, e percebemos que Xi Jinping está a ter problemas que antes não tinha”, sublinha o mesmo especialista.

Mais longo do que o comunismo soviético

Este é também o ano em que a República Popular da China comemora o seu 75.º aniversário. Uma data que, no entanto, segundo os especialistas ouvidos pelo DN, não tem relevância para a presidência de Xi Jinping, que estabeleceu outros marcos.

“As datas são sempre importantes na República Popular da China, mas esta data não foi assinalada como um marco especial no calendário oficial do regime. Todavia, os 75 anos do regime comunista chinês significam que durou um ano mais do que o regime comunista soviético, e que, portanto, é o mais duradouro dos regimes comunistas”, diz Carlos Gaspar.

“Eles têm uma visão de prazo diferente e Xi Jinping fixou aquilo que chama de rejuvenescimento chinês com dois centenários: um foi em 2021, com o centenário da criação do Partido Comunista da China, e o próximo, para o qual ele tem objetivos definidos, é em 2049, com o centenário da proclamação da República Popular da China. Mas no meio deste processo, e é por isso que Taiwan também é preocupante, vamos ter o centenário da criação do Exército de Libertação em 2027, e vários relatórios, inclusivamente da CIA, dizem que se em Taiwan nestas eleições optarem pelos independentistas Xi Jinping não vai ter grande margem, nem vai ter paciência, para esperar e vai tentar condicionar as eleições seguintes”, refere Luís Tomé.

Contrabalançar o ‘Ocidente Coletivo’

E em termos mundiais, o que podemos esperar da China no próximo ano? “A trave-mestra da estratégia internacional da China é contrariar a preeminência dos Estados Unidos e formar uma coligação para contrabalançar o ‘Ocidente Coletivo’, nomeadamente na Ásia. As suas ações em todos os domínios, nomeadamente nas relações com a União Europeia, são coerentes com essa prioridade”, refere Carlos Gaspar, que não esquece também dois aliados de Pequim. “A China vai continuar a estar ao lado da Rússia, o seu principal aliado, ou parceiro estratégico, na política internacional e na construção de uma alternativa à ordem liberal das democracias. Paralelamente, a Coreia do Norte tem conseguido melhorar as suas relações com a Rússia e a China, sem desistir da sua política nuclear”.

“A prioridade estratégica da China é a sua vertente marítima, mares da China e Taiwan, e, por isso, precisa de um fortíssimo aliado estável e confiável nas suas costas asiáticas e que é a Rússia. Da mesma maneira que a Rússia precisa desse aliado nas suas costas asiáticas, porque a prioridade da Rússia é a vertente europeia, a Ucrânia. E, portanto, a Ucrânia surgiu como um desafio, mas também uma oportunidade para a China. Não é de estranhar que a China, neste contexto, tenha apresentado exatamente um ano depois da invasão russa, a 24 de fevereiro deste ano, a sua iniciativa de segurança global, que muitos consideram ser um plano de paz, mas não é, é a posição chinesa para uma solução política da crise na Ucrânia, nem sequer chama guerra ou invasão, chama crise”, acrescenta Luís Tomé.

ana.meireles@dn.pt

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