O funeral do senador Lindsey Graham junta esta terça-feira na capital dos Estados Unidos o presidente Donald Trump, o ucraniano Volodymyr Zelensky e o israelita Benjamin Netanyahu. À vez, são recebidos na Casa Branca para discutirem as guerras na Ucrânia e no Irão — conflitos que estão interligados, como se vê pela ameaça emitida na véspera por Teerão a Kiev. No sábado, Zelensky anunciou que o seu país havia realizado ataques de longo alcance no mar Cáspio contra navios que transportavam material militar a caminho do Irão. O regime teocrático disse que um navio explodiu, matando um marinheiro e ferindo um número indeterminado de colegas. Depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros Abbas Araghchi ter ameaçado ripostar, o seu porta-voz advertiu para as consequências “certamente imprevisíveis” do ataque. “Esta ação da Ucrânia foi um ato absolutamente ilegal e injustificado, contrário à Carta das Nações Unidas, bem como um ato de aventureirismo perigoso que certamente não ficará sem resposta da nossa parte”, declarou Esmail Baghaei. Como a conferência de imprensa de Baghaei se realizou com os meios de comunicação oficiais não é de esperar que tenha sido questionado sobre a legalidade dos ataques iranianos a navios comerciais que transitam pelo estreito de Ormuz.O ataque ucraniano sublinha as relações entre as guerras em curso no leste europeu e no Médio Oriente, numa mensagem nada subtil a Trump dias antes do encontro bilateral. No ano da invasão à Ucrânia, a Rússia adquiriu os drones de ataque Shahed e mísseis ao Irão, tendo mais tarde passado a fabricar os primeiros sob o nome de Geran, agora equipados numa versão com motores a jato. Moscovo retribuiu, não só com drones mas com outro equipamento militar. Por exemplo, em março, quando um drone iraniano atingiu uma base militar britânica em Chipre, o aparelho estava equipado com um dispositivo anti-interferência russo. E, segundo o New York Times, alguns navios ligados ao Irão conseguiram usar com êxito tecnologia para não serem detetados pelos rastreadores de sinal da Marinha norte-americana, a mesma usada pela chamada frota fantasma que transporta petróleo russo. Mas há mais. Quando, em março, os Guardas da Revolução atingiram com precisão a base aérea Príncipe Sultan, na Arábia Saudita, com a destruição de um radar e de aviões, e ferindo 12 militares norte-americanos, o líder ucraniano disse que os iranianos recorreram a informações pormenorizadas com imagens de satélite prestadas pelos russos. Esse desenvolvimento permitiu a Zelensky mostrar a Trump que, afinal, tinha cartas para jogar, ao contrário do que o empresário nova-iorquino chegou a dizer com insistência. A Ucrânia assinou acordos com países do Golfo para assistência com drones e intercetores de drones e — mais importante — chegou na semana passada a um acordo preliminar com os EUA para um programa de cooperação de drones. Segundo a Radio Free Europe, o documento prevê a exportação de um pequeno número de aparelhos aéreos, terrestres e marítimos, abrindo caminho a um contrato de produção de drones ucranianos nos Estados Unidos. Um tema que poderá ser abordado na reunião de hoje.Outro tema, ainda relacionado com a alegada cooperação russo-iraniana no que respeita à partilha de informações sobre as bases dos EUA no Médio Oriente para posteriores ataques, vai ser levantado por Zelensky. “Vou dizer aos nossos serviços de informações para partilharem com os nossos parceiros a informação que temos sobre a nova ajuda da Rússia ao regime iraniano”, disse. “Desde o início de julho, registámos uma vigilância ativa de satélites russos sobre os estados do Golfo e as instalações militares americanas lá localizadas. Essas imagens acabam por chegar ao Irão. Ao mesmo tempo, há uma correlação clara entre as imagens de satélite da Rússia desses locais e os ataques iranianos — tanto antes dos ataques, na preparação deles, como depois, para avaliar os danos causados”, afirmou..Oriundo de Inglaterra, onde se encontrou com o novo primeiro-ministro britânico — e já vão cinco desde o início da invasão russa, em 2022 —, o ucraniano visitou com Andy Burnham a base naval de Portsmouth. Aí ouviu do trabalhista não só uma mensagem de continuado apoio, mas também a confirmação de que Londres vai partilhar com Kiev a tecnologia da Stone Cloak, uma nova capacidade de interferência eletrónica. São bloqueadores de sinal que se acoplam a drones, impedindo o rastreio por parte dos sistemas de defesa aérea russos. Segundo Downing Street, milhares destes bloqueadores já foram oferecidos a Kiev. Agora, a Ucrânia tem a possibilidade de produzi-los em massa. Em Washington, Zelensky também vai abordar a questão da defesa aérea para lá dos drones, uma vez que para destruir os mísseis balísticos e hipersónicos russos as defesas ucranianas recorrem aos caros e cada vez mais escassos mísseis intercetores dos sistemas Patriot. Na última reunião conjunta, em Ancara, durante a cimeira da NATO, Trump deu autorização para que a tecnologia daqueles mísseis possa ser produzido na Ucrânia. Mas, por muito expedita que a indústria bélica ucraniana seja, não será capaz de produzir os primeiros mísseis nos próximos 12 meses. Daí que o ucraniano vá pedir um reforço na entrega dos referidos mísseis. Outros dois temas estão na lista de Zelensky. Um deles, diretamente ligado ao funeral. A legislação promovida por Lindsey Graham para impor mais duras sanções à Rússia recebeu o seu nome quando deu entrada no Senado. Recebeu apoio de mais de 60 senadores, garantindo a sua aprovação. Porém, a sua votação não foi agendada e Zelensky aproveitará para pedir celeridade aos congressistas como uma homenagem ao malogrado senador. Por fim, o ucraniano vai medir o pulso a Trump no que concerne à sua política sobre as negociações de paz, tendo em conta o encontro — fracassado, segundo transpirou — entre os chefes da diplomacia dos EUA e da Rússia na semana passada. Marco Rubio disse então que, para se alcançar um acordo de paz, são necessárias “novas sugestões e novas ideias” que agradem tanto a Kiev como a Moscovo. Que renovada abordagem será essa, quando os Estados Unidos “estão focados no Médio Oriente”, como disse Zelensky? Este dia de importância acrescida no tabuleiro geopolítico completa-se com a visita de Netanyahu, que tal como Zelensky, tinha em Graham um forte aliado. O israelita é o líder internacional recordista de visitas a Trump, a sétima desde o início do segundo mandato. As relações entre ambos abanaram nos últimos tempos em resultado dos ataques continuados no Líbano, já depois de vigorar o memorando de entendimento entre EUA e Irão, e que incluía o cessar-fogo nos países da região. Na semana passada, Trump recebeu o presidente libanês, Joseph Aoun. Na ocasião, o norte-americano disse que o Líbano é um “país muito maltratado” e “duramente atingido” durante décadas, tendo prometido ajuda. Já Aoun disse que o seu país quer acabar com as hostilidades com Israel e pediu assistência para o desarmamento do Hezbollah, a milícia e partido apoiado pelo Irão. A caminho da capital dos EUA, Netanyahu disse que o seu objetivo é “salvaguardar a segurança de Israel, fortalecer o seu poder e expandir o círculo de paz” à volta do país. A reunião acontece quando se dá uma pausa no conflito, após 13 dias de bombardeamentos dos EUA e retaliações iranianas. Segundo Trump, o Irão pediu mais negociações porque os norte-americanos estão a “pressioná-los muito intensamente”. À Associated Press, mediadores paquistaneses e catarianos disseram ter alcançado progressos para levarem os EUA e o Irão de regresso à mesa.EUA e França trocam acusaçõesOs EUA abandonaram uma reunião do Conselho de Segurança da ONU quando o embaixador da França usava a palavra, depois de este ter comparado os EUA à Coreia do Norte e a outros estados autoritários em relação aos direitos humanos. Dan Negrea, alto funcionário da delegação dos EUA, criticou o que chamou de “atuação hipócrita” por parte de Paris. Na sexta-feira, os EUA votaram contra a renovação do mandato do alto comissário da ONU para os direitos humanos, Volker Türk, ao lado da Rússia, Coreia do Norte ou Nicarágua. A missão francesa junto das Nações Unidas em Genebra disse que os EUA “costumavam ser um exemplo em matéria de direitos humanos. Já não é o caso”, escreveu no X. E concluiu: “E o mundo já não os ouve.”.Liga Árabe pede a Trump que trave as "ambições extremistas" de Israel em Gaza.Ucrânia regista o maior número de vítimas civis desde o início da guerra.Presidente cazaque pede a Putin para "congelar" guerra na Ucrânia