O que aprendeu na escola sobre Portugal e sobre o encontro entre o Japão e Portugal em 1543? E como diplomata o que ouviu falar sobre o Portugal moderno?Os laços históricos entre o Japão e Portugal fizeram parte das aulas de História na escola, mas também tive diversas oportunidades de conhecer essa relação fora do ambiente escolar, por meio de filmes e mangas que retratam os vínculos entre os dois países. O encontro entre Japão e Portugal em 1543 trouxe novas tecnologias ao Japão e exerceu influência profunda na História japonesa. Além disso, foi através dos portugueses que o cristianismo foi introduzido no Japão. A minha esposa é católica e, por isso, ficou igualmente entusiasmada com a minha nomeação como embaixador do Japão em Portugal. Relativamente ao Portugal contemporâneo, continuam a existir intercâmbios culturais e humanos muito ativos entre os dois países. Pessoalmente, sou apreciador de futebol. Quando se fala em jogadores portugueses, o nome de Cristiano Ronaldo é amplamente conhecido, no entanto, recordo-me também com particular admiração do drible incisivo de Luís Figo. Mesmo antes de ser designado para este cargo, eu acompanhava regularmente, através da internet, o desempenho de jogadores japoneses na Primeira Liga.Portugal participou na Expo Osaka 2025 com o tema “Oceanos”. Tem ideia se o Pavilhão de Portugal conseguiu transmitir uma imagem atrativa de Portugal aos japoneses?Infelizmente, durante o período de realização da Expo Osaka estava em África e, por isso, não tive a oportunidade de visitar a mesma. No entanto, ouvi dizer que o Pavilhão de Portugal obteve uma grande popularidade. O edifício, concebido pelo renomado arquiteto japonês Kengo Kuma, destacou-se pelas exposições relacionadas com o mar e, segundo consta, foi inclusive distinguido com o Prémio de Melhor Conceito da Expo Osaka. Também tive conhecimento de comentários muito positivos, salientando como o pavilhão permitiu redescobrir o quanto os povos do Japão e de Portugal partilham um profundo apreço pelo mar e como estão historicamente ligados através do oceano. Durante o período da Expo Osaka, mais de dois milhões de visitantes passaram pelo Pavilhão de Portugal. Além de apreciarem os conhecidos pastéis de nata, puderam desfrutar, à noite, de atuações de fado com artistas como Carminho e Camané. Estou convicto de que, por meio da participação portuguesa na Expo Osaka, a compreensão mútua entre o Japão e Portugal saiu ainda mais fortalecida.Como descreve o estado atual das relações bilaterais?Em setembro do ano passado, por ocasião da visita ao Japão do primeiro-ministro Luís Montenegro, foi emitida uma declaração conjunta com o então primeiro-ministro do Japão, Shigeru Ishiba, na qual se acordou elevar as relações bilaterais entre o Japão e Portugal ao nível de uma “Parceria Estratégica”. Enquanto embaixador do Japão, pretendo envidar todos os esforços para reforçar ainda mais essa relação nos diversos domínios, nomeadamente na área política e de segurança, na economia, comércio e investimento, bem como nos intercâmbios interpessoais. Ao mesmo tempo, considero que Japão e Portugal podem aprofundar a sua cooperação em vários fóruns internacionais, incluindo nas Nações Unidas. Ao avançarmos conjuntamente em desafios comuns - como a concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a resposta às alterações climáticas e a promoção e proteção dos Direitos Humanos - espero que ambos os países possam exercer, em conjunto, uma liderança global cada vez mais relevante.O imperador Naruhito visitou Portugal quando ainda era príncipe herdeiro. Considera possível uma futura visita imperial?É com grande satisfação que sei que, em Portugal, assim como em muitos outros países, há quem espere uma visita de sua majestade o imperador. Sua majestade deseja sinceramente que as relações de amizade entre o Japão e Portugal continuem a desenvolver-se e a fortalecer-se. Enquanto embaixador gostaria também de transmitir que muitos portugueses aguardam com expectativa uma eventual visita imperial. Estou convicto de que, caso se concretize uma visita de sua majestade a Portugal, esta constituirá uma oportunidade extraordinária para promover e aprofundar ainda mais os laços de amizade entre o Japão e Portugal .Qual a importância do investimento de empresas japonesas em Portugal?Considero que o setor económico, em particular a área do investimento, é um domínio repleto de grande potencial nas relações entre o Japão e Portugal. As empresas japonesas têm investido sobretudo em projetos de infraestruturas, com destaque para o setor da energia. O Japão dispõe de elevada especialização técnica em áreas como eletricidade, gás, caminhos de ferro e outros segmentos fundamentais das infraestruturas. Através de investimentos nesses setores, acredito que as empresas japonesas podem contribuir de forma significativa para o crescimento e a modernização da economia portuguesa. Da mesma forma, estou convicto de que o Japão oferece diversas oportunidades de negócio para as empresas portuguesas. Além da expansão dos investimentos bilaterais, Japão e Portugal dispõem igualmente de amplas possibilidades de cooperação conjunta em países terceiros, nomeadamente nos países de língua portuguesa, bem como em diversas regiões de África e da América Latina.Tem ideia de quantas empresas japonesas existem em Portugal?Segundo os dados mais recentes de que disponho, no ano passado estavam estabelecidas em Portugal 121 representações ou filiais de empresas japonesas.Qual a situação atual da economia japonesa?A economia japonesa tem mantido uma trajetória de recuperação moderada. No ano fiscal de 2024, o PIB nominal ultrapassou, pela primeira vez, os 600 biliões de ienes [um euro equivale a 181 ienes]. Além disso, a taxa de aumento salarial registada em 2024 atingiu o nível mais elevado dos últimos 33 anos, e os aumentos salariais previstos para 2025 superam os do ano anterior, refletindo sinais encorajadores e inéditos em diversos setores da economia. Por outro lado, a sociedade japonesa enfrenta desafios estruturais significativos, nomeadamente o envelhecimento populacional e a diminuição da taxa de natalidade, que resultam numa redução da população. Neste contexto, o governo do Japão considera essenciais três eixos prioritários: a abertura de novos mercados e a promoção ativa da inovação; no plano externo, a manutenção e o reforço de uma ordem económica internacional livre e justa, baseada em regras; e, por fim, a garantia da segurança económica por meio do fortalecimento de cadeias de abastecimento resilientes.Como descreve as relações do Japão com os Estados Unidos e com a China atualmente?Os Estados Unidos são o único aliado do Japão e constituem a base da sua política diplomática e de segurança, sendo também um pilar essencial para a paz e estabilidade na região do Ásia-Pacífico. Quanto à China, esta representa uma das relações bilaterais mais importantes para o Japão. Os dois países mantêm fortes vínculos económicos, bem como intercâmbios culturais e humanos. Por outro lado, existem diversos desafios e questões pendentes entre o Japão e a China. Ambos os países têm uma grande responsabilidade pela paz e prosperidade da região do Pacífico e do mundo. É fundamental manter um diálogo consistente com a China, cooperar em temas de interesse comum e, ao mesmo tempo, exigir ações responsáveis. Considero essencial construir uma relação construtiva e estável com a China.É importante na relação com os Estados Unidos o bom entendimento pessoal que se nota entre a primeira-ministra Sanae Takaichi e o presidente Donald Trump?Sem dúvida, considero fundamental que os líderes de ambos os países estabeleçam uma relação próxima, permitindo sempre uma troca franca de opiniões e diálogo direto.As relações entre o Japão, a quarta maior economia mundial, e a União Europeia, a segunda maior economia mundial, são estratégicas?Não apenas a União Europeia, mas também os países europeus são parceiros estratégicos do Japão, com os quais partilhamos valores e princípios fundamentais, como a liberdade, a democracia e o Primado da Lei. O Japão considera essencial proteger uma ordem internacional livre e aberta, baseada no Estado de Direito. Para atingir esse objetivo, torna-se ainda mais importante reforçar a cooperação com a UE e com os países europeus individualmente.Da popularidade do manga e anime à moda do sushi, o chamado soft power japonês é importante para a imagem do país? Acredito que o softpower é um ativo muito importante para o Japão. Em Portugal, é muito gratificante constatar que não só a pop culture, como manga e anime, mas também a cultura tradicional, e até a gastronomia japonesa - como sushi e ramen - são amplamente apreciadas. Recentemente, comecei a estudar português. Conhecer a língua e a cultura do país parceiro é fundamental para compreender e respeitar o modo de vida, os valores e a forma de pensar das pessoas que vivem em cada país. Também é muito positivo observar que o número de portugueses que viajam para o Japão tem aumentado significativamente nos últimos anos. Acredito que essas experiências contribuem para aprofundar ainda mais a compreensão mútua entre ambos os povos. Recentemente, quando Portugal foi atingido pelas chuvas e ventos fortes, a embaixada publicou informações práticas nas redes sociais sobre como lidar com inundações, gerando grande repercussão. Ficou surpreendido com a reação elogiosa?Em primeiro lugar, gostaria de expressar as minhas condolências a todos aqueles que foram afetados pelos danos causados por esta depressão. Tal como Portugal, o Japão também é um país exposto a diversos desastres naturais devido à sua localização costeira, e considero muito importante compartilhar conhecimentos e experiências. Como mencionei antes, fico muito satisfeito ao ver que muitos portugueses se interessam pela cultura japonesa, como manga, anime ou tradições culturais. Mas, ao observar a reação às publicações da embaixada nas redes sociais, senti ainda mais satisfação ao constatar que o público português demonstrou interesse pelo conhecimento e experiência japonesa em gestão de desastres. Próximo da residência oficial, no Restelo, em Lisboa, há um monumento que simboliza descobertas e intercâmbios. Mesmo após quase meio milénio de intercâmbios humanos entre Japão e Portugal, ainda existem aspectos que desconhecemos mutuamente, e surgem sempre novas descobertas. Acredito que, através dessas descobertas, podemos alcançar uma compreensão mais profunda, e, nesse sentido, fico muito contente com a receção positiva da experiência japonesa em situações de desastre.Com a sua experiência como embaixador junto da União Africana, como vê as relações de Portugal com os países lusófonos, em África e não só?Antes de ser destacado em Portugal, servi como embaixador junto à Representação da União Africana na Etiópia. O Japão tem promovido, ao longo de 30 anos, a Ticad - Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento Africano, para apoiar o desenvolvimento do continente africano. Enquanto embaixador na Representação da UA, também colaborei intensamente na preparação da 9.ª Ticad, realizada em Yokohama em setembro do ano passado. Para o Japão, a energia e o dinamismo dos jovens africanos para o desenvolvimento representam um enorme atrativo. Embora o Japão tenha vindo a estreitar os laços com África, reconhecemos que não é possível alcançar resultados suficientes sem parcerias. Neste contexto, ao fortalecer as relações com países africanos de língua portuguesa, como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, o conhecimento e a experiência que Portugal acumulou ao longo dos anos com estas nações são extremamente valiosos e especiais para o Japão. Espero que Japão e Portugal possam colaborar de forma construtiva para apoiar o desenvolvimento contínuo destes países, contribuindo conjuntamente para o seu progresso.Como descreve a experiência de construção democrática do Japão a partir da Restauração Meiji e, nomeadamente, a forte tradição democrática pós-1945?O Japão começou o seu caminho em direção à modernização desde a Restauração Meiji, em 1868. Depois disso, através de várias experiências, o Japão atual foi constituído. A democracia no Japão é uma delas. A democracia não é construída num dia. O povo japonês acredita fortemente em valores universais como liberdade, democracia, garantia dos direitos humanos fundamentais e o Primado da Lei.Com a realização recente das eleições gerais no Japão, a primeira-ministra Takaichi teve a oportunidade de reafirmar a sua liderança. Esta clara confirmação por parte do eleitorado foi importante para a primeira-ministra?De acordo com as palavras proferidas pela sra. Sanae Takaichi durante a campanha eleitoral, esta eleição serviu para confirmar se os cidadãos apoiam as políticas que a mesma tenciona implementar. Os resultados das recentes eleições refletem exatamente essa validação por parte do eleitorado japonês. .“A maioria dos japoneses apoia fortemente a constituição pacifista”.“Nós, descendentes dos cristãos ocultos japoneses, fazemos as orações que nos ensinaram no século XVI”