A figura do imperador é o grande elo de ligação entre o Japão de 2026 e a história multimilenar do país?O Japão sempre teve um imperador, desde os tempos mitológicos, como registado nos antigos anais. Diz-se que o imperador descende da Deusa do Sol, Amaterasu, em linha direta. O poder do imperador não é temporal, mas espiritual. Simboliza o Japão e a unidade do seu povo e sempre foi venerado. O atual imperador, Naruhito, é o chefe da religião xintoísta e realiza importantes rituais anuais. Une o Japão e continua a desempenhar o mesmo papel que os seus antepassados desempenharam durante milénios.Até ser forçado a reabrir-se ao mundo por navios americanos, em meados do século XIX, o Japão era dominado pelos xóguns da família Tokugawa. Como explicar que os Tokugawa nunca tenham tentado fundar uma dinastia imperial?Na época dos xóguns Tokugawa, a sociedade japonesa baseava-se na divisão entre o poder temporal e o espiritual, tendo o imperador como chefe semidivino da religião xintoísta, enquanto o xógum exercia o poder temporal em nome do imperador. A legitimidade dos xóguns residia no facto de governarem em nome do imperador. Na realidade, o imperador estava subjugado aos xóguns e vivia como um virtual prisioneiro no seu palácio decadente em Quioto. Ainda assim, era o fulcro da sociedade japonesa e derrubá-lo seria impensável. De qualquer forma, os xóguns não tinham de o fazer. Já detinham poder absoluto.A Restauração Meiji merece mesmo ser chamada de Revolução?A chamada Restauração Meiji foi, na verdade, uma Revolução. Foi apelidada de “Restauração” - a “restauração” do imperador ao poder - para dar legitimidade aos novos governantes que tomaram o poder aos Tokugawa após intensos combates. Na realidade, o imperador Meiji não detinha muito mais poder do que os seus antecessores. As mudanças na sociedade que ocorreram após a Restauração foram a verdadeira Revolução, incluindo a rápida industrialização, a perda de estatuto dos samurais, a criação de um exército e de uma marinha nacionais com recrutamento obrigatório e o convite a especialistas ocidentais para ensinarem os segredos da revolução industrial. Esta foi uma transformação completa.Qual foi o impacto das vitórias militares de 1895 sobre a China e de 1905 sobre a Rússia na imagem internacional do Japão?As duas grandes vitórias militares do Japão, particularmente a derrota da Rússia, um país europeu e não asiático, estabeleceram o Japão como uma grande potência mundial. O efeito imediato foi a revogação dos “tratados desiguais” - que tratavam o Japão como inferior e permitiam aos ocidentais ignorar as leis japonesas e cobrar tarifas injustas - ao fim de 40 anos. O Japão e a Grã-Bretanha assinaram a aliança anglo-japonesa em 1902, a primeira vez que uma nação ocidental e outra não ocidental se aliaram como signatárias em igualdade de circunstâncias.O militarismo e a expansão imperialista que levaram à derrota na Segunda Guerra Mundial são uma mancha na história moderna do Japão?Ao tentar construir um Império, o Japão seguia o exemplo das potências ocidentais do século XIX. As ações do Japão na Segunda Guerra Mundial causaram grande sofrimento em muitos países asiáticos, o que os governos japoneses descrevem agora como lamentável, e resultaram em más relações com a Coreia e a China. O resultado foi a atual Constituição pacifista..Como descreveria a aliança pós-1945 entre o Japão e os Estados Unidos?A aliança pós-1945 entre o Japão e os Estados Unidos foi sobretudo militar. Os Estados Unidos protegeram o Japão em troca da permissão para que as tropas norte-americanas ficassem estacionadas em solo japonês. Nos primeiros anos da ocupação, o Japão foi remodelado pelo general Douglas MacArthur, que promoveu a liberdade de pensamento, de expressão e de democracia. Os americanos chegaram mesmo a elaborar a nova Constituição japonesa. No entanto, MacArthur e os seus colegas pouco sabiam sobre o Japão. Os membros do parlamento japonês eram, em grande parte, as mesmas pessoas que tinham formado o governo durante a guerra. Quando a Guerra da Coreia começou, os americanos queriam que o Japão tivesse uma presença militar, exatamente o oposto do que tinham exigido anteriormente. Na verdade, a Guerra da Coreia colocou o Japão no caminho da recuperação económica.O milagre económico japonês após a Segunda Guerra Mundial está relacionado com uma cultura de resiliência?A cultura japonesa está fundamentada no confucionismo. A autodisciplina, o autocontrolo inabalável e a capacidade de trabalhar para o bem-estar do grupo, em vez do individual, eram qualidades valorizadas pelos samurais e formam um elemento-chave das artes marciais. O trabalho árduo, a disciplina, a paciência, a disponibilidade para adotar novas ideias e aperfeiçoá-las são características da sociedade japonesa há séculos e contribuíram para a recuperação do Japão após a Segunda Guerra Mundial. Em 1960, o primeiro-ministro Ikeda Hayato prometeu que todos poderiam possuir os três tesouros - frigorífico, televisão e máquina de lavar roupa - incentivando as pessoas a trabalhar arduamente, com o objetivo de duplicar a economia japonesa em dez anos. Na verdade, foram necessários sete. Os baixos gastos militares também contribuíram. A Guerra da Coreia aconteceu no momento certo para impulsionar a economia.A disponibilidade de Shinzo Abe e dos seus sucessores, como Sanae Takaichi, para ultrapassar os limites da Constituição pacifista é o resultado de verem a China de hoje como uma ameaça?O Japão está situado numa posição desconfortável perto de dois vizinhos beligerantes - a China e a Coreia do Norte - e com a Rússia não muito distante. Durante a ocupação, os americanos queriam erradicar o militarismo japonês, mas mudaram de ideias quando começou a Guerra da Coreia. Nessa altura, o Japão já era um aliado, não uma ameaça. As Forças de Autodefesa do Japão - na prática, umas forças armadas - foram criadas em 1954. Durante décadas, os japoneses permitiram o envio de tropas para o estrangeiro, no âmbito das operações internacionais de manutenção da paz, embora evitassem, na sua maioria, as missões de combate. Mas Shinzo Abe, que chegou ao poder em 2014, queria que o Japão tivesse um exército normal. Aprovou uma lei que permitia ao Japão usar a força caso os Estados Unidos ou outro aliado sofressem um ataque inimigo. As suas tentativas de minar a Constituição pacifista provocaram enormes protestos no Japão. Sanae Takaichi foi ainda mais longe, irritando a China ao dar um exemplo hipotético de uma situação deste tipo, e a China respondeu. A maioria dos japoneses apoia fortemente a constituição pacifista. Abe era conhecido pela sua postura de linha dura e Takaichi é uma sua protegida. Portanto, a ameaça da China - para não falar da Coreia do Norte - é a causa declarada, mas em ambos os casos os primeiros-ministros também querem simplesmente fortalecer as forças armadas japonesas.Depois de sofrer com as bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki, imagina o Japão a adotar um dia uma arma nuclear?Os japoneses estão particularmente conscientes das consequências terríveis da bomba atómica. Todos os anos, há encontros em Hiroxima para assinalar o lançamento da bomba e para prometer que nunca mais haverá outra. O Japão tem uma política de não produzir ou possuir armas nucleares, nem de permitir a sua entrada no seu território. Existe um enorme sentimento público contra as armas nucleares, tornando altamente improvável que o Japão alguma vez adote essas armas.Da popularidade dos mangas ao prestígio dos automóveis Toyota ou Nissan, qual é a força do soft power japonês?Os japoneses estão bem cientes da importância do soft power e utilizam-no com grande habilidade. Nos últimos anos, o Japão cativou a imaginação do mundo com a singularidade e a delicadeza da sua cultura. É um país seguro e limpo, as pessoas são simpáticas, os comboios são pontuais, a comida é saudável e deliciosa, e a cultura é rica, variada e extraordinária. Tudo, desde a cozinha japonesa aos seus carros e mangas, é feito a pensar na qualidade. Tudo isto torna o Japão um lugar muito atrativo. O Japão é um dos maiores exportadores mundiais de cultura pop, como manga, anime, J-pop e videojogos criativos como a Nintendo e a Playstation. Marcas como a Toyota, Nissan, Sony e Panasonic reforçam a imagem do Japão como uma nação moderna e sofisticada, enquanto a moda japonesa é distinta e peculiar. A cozinha japonesa, como o sushi, o ramen e o saké, é apreciada em todo o mundo. Muitas pessoas são fascinadas pela cultura tradicional japonesa, como a ikebana, a cerimónia do chá, as artes marciais e a pintura japonesa. Tudo isto gerou um grande interesse pelo Japão e resultou num enorme boom turístico. Todos querem ir ao Japão..Pela primeira vez, com Takaichi, há uma mulher chefe de governo. Porque é que não é possível hoje em dia também uma imperatriz reinante?No passado, houve oito imperatrizes. Isto mudou com a Constituição Meiji de 1889 e foi fixado na Constituição escrita pelos americanos, que afirma que o imperador deve ser um homem. Sob o governo de Abe, houve uma proposta na Dieta para permitir que a filha do imperador Naruhito, Aiko, sucedesse ao seu pai, uma vez que naquele momento não existia um herdeiro masculino viável. De seguida, a Princesa Kiko, esposa do irmão de Naruhito, engravidou de um filho, o que pôs fim ao debate. O sobrinho do imperador, o príncipe Hisahito, atingiu recentemente a maioridade e é agora reconhecido como futuro príncipe herdeiro, seguindo os passos do pai, Fumihito. Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao Japão. Que legado deixaram?Os primeiros portugueses chegaram à ilha de Tanegashima em 1543. Outros seguiram-nos rapidamente. Eram sobretudo comerciantes, mas trouxeram consigo armas de fogo, que mudaram o curso da história japonesa num período de guerra civil. Os japoneses ficaram fascinados ao ver estes primeiros europeus. A cultura destes primeiros portugueses - a cultura Nanban (‘Bárbara do Sul’) - é celebrada como muito rica. Existem inúmeras representações em belíssimos biombos dourados de mercadores portugueses a desfilar pelas ruas de Quioto e Osaka com os seus chapéus altos e calças largas. Chegaram a inspirar uma febre da moda, com jovens japoneses do século XVI a usar trajes portugueses. Os portugueses introduziram alimentos como a tempura (‘tempora’) e a kasutera (‘pão de Castela’), que hoje fazem parte da cozinha japonesa. Os jesuítas trouxeram o cristianismo, que existiu sempre no Japão mesmo depois de ter sido proibido pelos xóguns. Assim, os portugueses deixaram uma marca muito distinta e rica na história e cultura japonesas..Popularidade da princesa Aiko relança debate sobre lei da sucessão no Japão