"Trump vai tentar ser uma espécie de presidente-sombra"

Cientista político, professor na Universidade Estadual da Califórnia, Fresno, Thomas Holyoke antecipa que Trump usará o poder que tem no tempo que lhe resta para minar a futura administração. Depois, tentará pôr em causa a legitimidade de Biden.

A menos de um mês da tomada de posse de Joe Biden, que estragos pode fazer o ainda presidente Donald Trump?
Em termos de estragos ao poder executivo, não há muito que o presidente Donald Trump possa fazer. Ele está a introduzir vários apoiantes em posições no governo, alguns deles em cargos nomeados. Teoricamente, Joe Biden pode demiti-los a todos no dia 20 de janeiro, embora tenha de saber que eles estão lá e isso não é sempre tão fácil como parece. Às vezes é difícil descobrir exatamente quem é um nomeado presidencial que pode ser removido. Penso que é algo que o presidente Trump está a tentar fazer, instalar apoiantes em cargos de nível médio nos departamentos do governo.

Qual é o objetivo disso? Podem fazer alguma coisa por Trump?
Podem criar problemas a Joe Biden. Nalguns casos, é para recompensar apoiantes. Noutros, pode ser apenas uma forma de ser desagradável para Biden. Mas, mais importante do que isso, há uma série de ordens executivas que o presidente pode ainda assinar para criar situações difíceis para Joe Biden. Por exemplo, sabemos que a administração Trump disse ao Departamento de Segurança Interna e ao Corpo de Engenheiros do Exército para trabalharem 24 horas por dia a tentar construir o máximo possível do muro na fronteira com o México. Joe Biden pretende parar com isso, pelo que o pessoal de Trump vai tentar erigir o máximo que puder antes de 20 de janeiro. O que é que Biden vai fazer, mandar tudo abaixo?
A ideia é pô-lo numa posição estranha. A administração Trump também vai começar a leiloar, em janeiro, licenças de exploração de petróleo no Alasca, algo que a nova administração disse que não permitirá. Mas a administração Biden terá muita dificuldade em tentar desfazer um leilão em território federal, neste caso na Floresta Nacional de Tongass e na Reserva Natural do Ártico.

Porque Biden não poderia cancelar o leilão?
Sim. Porque uma vez leiloadas as licenças, o governo entra em contratos com empresas privadas e depois é difícil virar-se e tentar invalidá-los. Abriria espaço a processos legais e os tribunais podem não permitir que os contratos sejam anulados. É este tipo de coisas que está em curso. Biden tem muita experiência e sabe disso. Deverá conseguir lidar com elas mais rapidamente do que um presidente inexperiente. Na verdade, Biden é provavelmente a pessoa com mais experiência a tornar-se presidente desde que estou vivo. Sabe como tudo funciona e está numa melhor posição para desfazer o mal feito pela administração Trump do que qualquer outra pessoa estaria.

É possível que os despedimentos e a colocação de pessoas da confiança de Trump no governo - em cargos para os quais não estão habilitadas - sejam tentativas de encobrir possíveis problemas?
Pode estar a passar-se algo do género. Não é suposto que documentos sejam destruídos. Mas o que estão estas pessoas a fazer nestas posições? Não sabemos. Portanto é possível, se bem que especulativo neste momento. Não me surpreenderia. Uma das coisas que Biden pode fazer no primeiro dia é uma diretiva para suspender a destruição de documentos e despedir essas pessoas.

Após a posse de Joe Biden, antecipa que Donald Trump continue ativo politicamente, ao contrário do que é costume nos EUA?
Antecipo que seja isso mesmo o que vai acontecer. Trump vai tentar ser uma espécie de presidente-sombra. A tradição americana é que os ex-presidentes saem de cena, calam-se e não criticam o novo. Mas não há qualquer expectativa que Donald Trump siga essa posição, está quase garantido que não o fará. Será muito vocal e muito crítico. Talvez o faça para preparar as bases e voltar a candidatar-se em 2024. Ou talvez seja apenas porque Donald Trump está profundamente ressentido com o facto de Joe Biden o ter vencido. Isto será uma forma de se vingar, estando sempre a criticá-lo no Twitter e nos meios de comunicação aliados, continuando a desafiar a legitimidade da administração Biden.

Supõe que Trump vai tentar perdoar-se a si e à família? E que a sua atitude nos próximos quatro anos dependerá dos processos legais a que for sujeito?
Não sabemos sequer se isso é possível. Vai perdoar-se por acusações que não foram ainda feitas? É uma coisa bizarra. Ninguém sabe se é legal ou não. Mas parece que os desafios legais que Trump vai enfrentar virão dos estados e não do governo federal. E os perdões só abrangem crimes federais.

O Partido Republicano estará disposto a ajudá-lo e a bloquear Biden em tudo o que puder?
Certamente sim na Câmara dos Representantes. No Senado não tanto. E as coisas podem mudar muito com as eleições especiais na Geórgia. Se os democratas ganharem, passarão a controlar o Senado e todo o Congresso. Isso tornaria muito mais fácil para Biden implementar a sua agenda.

Acredita que os democratas podem mesmo ganhar?
Sim. Joe Biden venceu no estado e os republicanos locais estão envolvidos numa espécie de autodestruição. Trump tem dito que o sistema eleitoral na Geórgia é ilegítimo e fraudulento, e isso não inspira fé nos eleitores. Se não tiverem fé no sistema, as pessoas votarão menos. Ao defender a sua posição, Trump pode estar a suprimir o voto republicano na Geórgia.

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