Quando faltavam cerca de 12 horas para o fim do ultimato que tinha dado ao Irão, o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que suspendia por cinco dias a ordem para os seus militares bombardearem as centrais elétricas iranianas, depois de “conversas muito boas e produtivas” com Teerão durante o fim de semana para acabar com a guerra. Será mais um TACO ou a abertura para o fim da guerra? TACO são as iniciais da expressão Trump Always Chickens Out (“Trump acobarda-se sempre”), cunhada durante a guerra das tarifas em resposta aos recuos de última hora do presidente (normalmente em resposta ao que ditavam os mercados). Mas que foi adaptada a outras situações em que Trump ameaçou algo e depois não concretizou a ameaça. O presidente anunciou desta vez a suspensão por cinco dias (quando os mercados já estiverem fechados para o fim de semana) do ultimato de 48 horas para a reabertura do estreito de Ormuz, que tinha feito no sábado (21 de março). A resposta imediata foi a subida dos mercados e a queda do preço do petróleo, que chegou a estar abaixo dos 100 dólares. Mas novas dúvidas instalaram-se depois de Teerão negar qualquer diálogo com os EUA. A agência iraniana Fars disse que não houve “contacto direto ou indireto”, nem sequer através de intermediários. A negação dos contactos levanta questões sobre se Trump arranjou uma desculpa para poder recuar de um ultimato que ameaçava gerar problemas ainda mais graves para a região. O Irão alega que Trump suspendeu o ultimato porque Teerão ameaçou responder na mesma moeda contra infraestruturas energéticas de aliados dos EUA no Médio Oriente. E que quer só ganhar tempo para a operação militar (há mais de cinco mil marines a caminho) e fazer cair o preço dos combustíveis.Mas Trump insistiu, em declarações aos jornalistas, que no domingo à noite (22 de março) o seu enviado especial, Steve Witkoff, e o seu genro, Jared Kushner, dialogaram com um oficial iraniano - não o líder supremo, Mojtaba Khamenei, que continua sem ser visto em público e que não é reconhecido pelos EUA. Segundo o site de notícias Axios, enviados da Turquia, Egito e Paquistão reuniram com Witkoff e com o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi (em separado). O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão afirmou que não houve negociações com os EUA, reconhecendo contudo que alguns países da região estavam a tentar reduzir as tensões. Outro possível interlocutor, o líder do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, falou em “fake news”.Trump alegou que foi o Irão que iniciou o contacto e que Teerão “quer muito fazer um acordo”, havendo “pontos importantes de concordância” entre os dois lados (haverá 15 pontos em cima da mesa). Além disso, o Irão aceitou desistir de ter armas nucleares (Teerão sempre disse que não as queria, mas tinha direito a ter energia nuclear civil) e entregar o urânio enriquecido. O diálogo era suposto continuar esta segunda-feira (23 de março).Os iraniano têm recusado a ideia de um cessar-fogo, defendendo um “fim completo, permanente e abrangente” do conflito”. E que qualquer acordo deve incluir “garantias para evitar a repetição do sucedido e compensação pelos danos causados ao Irão”. Na mensagem na Truth Social em que anunciou a suspensão do ultimato, Trump falou em negociações tendo em vista a “resolução completa e total das nossas hostilidades no Médio Oriente”. .Uma possível saída para o conflito, tanto para Washington como para Teerão, não sendo contudo claro que Israel seguirá o seu exemplo. Esta segunda-feira (24 de março), os israelitas continuavam a bombardear a capital iraniana, com o Irão a continuar a responder lançando mísseis contra Israel. Também não é claro o que significará para os próprios iranianos, nomeadamente os que defendem uma mudança de regime - que pode não estar entre as prioridades dos EUA.A única certeza que há é que as declarações de Trump mudam de um dia para o outro. Na semana passada, o presidente afirmou ter dito ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, para não voltar a repetir o ataque contra as infraestruturas energéticas iranianas, depois de Israel ter bombardeado o campo de gás de South Pars (o maior do mundo, partilhado com o Qatar). Mas, no sábado (21 de março), Trump estava a ameaçar precisamente atacar as centrais elétricas iranianas caso Teerão não reabrisse “totalmente” o estreito de Ormuz em 48 horas. O ultimato de Trump surgiu um dia depois de o presidente dizer que estava a ponderar “desacelerar” a guerra no Irão, porque os EUA já estavam “muito perto” de atingir os seus objetivos militares. Isto depois de, na véspera, o Pentágono ter pedido mais 200 mil milhões de dólares para financiar o conflito que já vai na quarta semana.Teerão respondeu ao ataque israelita ao seu campo de gás atacando o terminal da maior fábrica de Gás Natural Liquefeito, no Qatar, causando danos que vão levar anos (e milhões de dólares) a consertar. E respondeu ao ultimato ameaçando as centrais israelitas e as que fornecem energia às bases norte-americanas na região do Golfo, além das centrais de dessalinização (cruciais para estes países de deserto). O que a concretizar-se seria mais uma dor de cabeça para Trump. .A guerra no Irão começou. Como acabará?