O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que Washington vai contribuir com dez mil milhões de dólares para o Conselho de Paz, dizendo que, no futuro, esta organização criada no âmbito do cessar-fogo na Faixa de Gaza vai “praticamente supervisionar” as Nações Unidas. Uma declaração que não deverá agradar a muitos aliados, que optaram por não aderir à iniciativa e falhar a reunião inaugural precisamente pelas preocupações de que Trump esteja a tentar substituir a organização global. “O Conselho de Paz vai praticamente supervisionar as Nações Unidas e garantir que funcionam corretamente”, disse Trump no encontro no Instituto da Paz em Washington, recentemente rebatizado com o seu nome (o presidente disse que não teve conhecimento prévio). “Vamos trabalhar com a ONU. Acho que tem grande potencial, mas não tem vivido esse potencial”, acrescentou. A Carta das Nações Unidas, assinada em São Francisco em 1945, não prevê qualquer organização de supervisão.Trump indicou ainda que os EUA vão ajudar financeiramente a organização -- esquecendo-se que os problemas financeiros são causados, em parte, pela dívida norte-americana no valor de quatro mil milhões de dólares (na semana passada terá pago 160 milhões). “Vamos garantir que as suas instalações são boas. Eles precisam de ajuda, e precisam de ajuda financeira. Vamos ajudá-los financeiramente e vamos garantir que as Nações Unidas são viáveis.”Só 27 dos mais de 60 países convidados aceitaram estar no Conselho de Paz de Trump. O Vaticano foi um dos últimos países a recusar o convite. “Uma das nossas preocupações é que, a nível internacional, seja sobretudo a ONU a gerir estas situações de crise. Este é um dos pontos em que temos vindo a insistir”, indicou o secretário de Estado, o cardeal Pietro Parolin. A carta constitutiva do Conselho de Paz, assinada no mês passado, não faz qualquer menção a Gaza e tem sido criticada pelo seu mandato global que aparentemente visa suplantar as Nações Unidas, e por confiar amplos poderes a Trump como presidente vitalício..Primeira reunião do Conselho da Paz de Trump será marcada pelas ausências.A União Europeia enviou a comissária para o Mediterrâneo, Dubravka Šuica, como “observadora” para a reunião inaugural, o que apanhou de surpresa a França que disse que ela não tinha um “mandato” do Conselho Europeu. Segundo a Euronews, Espanha, Bélgica, Suécia e Portugal são outros países que questionaram a presença de Šuica em Washington, avisando que isso podia ser interpretado como um apoio coletivo.Outros países da União Europeia, como Itália, Chipre ou Grécia, participaram também como observadores. Portugal também admite fazer o mesmo, segundo indicou ontem à Lusa fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros. .Portugal admite assistir a reuniões sobre Gaza do Conselho de Paz de Trump.Trump agradeceu aos líderes presentes - incluindo o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que disse que vai angariar 75 milhões de dólares para projetos relacionados com futebol em Gaza. “Quase todos os líderes aceitaram e aqueles que ainda não aceitaram, estão a fazer-se de espertos. Mas isso não funciona. Não se podem fazer de espertos comigo”, disse Trump no encontro. O presidente disse acreditar que o Conselho de Paz “é uma das coisas mais importantes e consequentes” em que estará envolvido. “Em termos de poder e prestígio nunca houve nada parecido”, acrescentou. Dinheiro e tropasA reunião inaugural ficou marcada pelo anúncio de Trump de que nove países - Cazaquistão, Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Bahrein, Qatar, Arábia Saudita, Uzbequistão e Kuwait - já se comprometeram com sete mil milhões de dólares para um pacote de apoio à reconstrução de Gaza depois de o Hamas entregar as armas (um objetivo que está longe de ser cumprido). Os próprios EUA vão destinar dez mil milhões de dólares para o Conselho de Paz - não sendo claro de onde virá o dinheiro e se Trump estará a falar no apoio ao enclave palestiniano ou ao mandato mais alargado. O presidente disse que é um valor pequeno, quando comparado com os custos da guerra. “O Conselho de Paz é muito generoso com o dinheiro porque não há nada mais importante ou menos dispendioso do que a paz”, disse Trump, alegando que o contributo dos EUA é equivalente a “duas semanas de guerra”. A Faixa de Gaza ficou destruída na guerra lançada por Israel em resposta ao ataque terrorista do Hamas do 7 de outubro de 2023, que fez mais de 1200 mortos. Segundo os números das autoridades do enclave, controladas pelo Hamas, quase 72 mil pessoas já morreram na Faixa de Gaza, incluindo mais de 570 depois do cessar-fogo de 10 de outubro. A primeira fase do plano de 20 pontos de Trump. Estima-se que a reconstrução do enclave custe 70 mil milhões de dólares. Depois de Trump, o general reformado Jasper Jeffers, líder da recém-criada Força Internacional de Estabilização de Paz, anunciou que a Indonésia, Marrocos, Cazaquistão, Kosovo e Albânia prometeram enviar tropas para a Faixa de Gaza. Além disso, o Egito e a Jordânia, países que fazem fronteira com a Faixa de Gaza, concordaram em formar as forças policiais e de segurança. Serão 12 mil polícias e 20 mil soldados, afirmou. “Com estes primeiros passos, ajudámos a trazer a segurança de que Gaza necessita para um futuro de prosperidade e paz duradoura”, disse Jeffers.O desarmamento do Hamas continua a ser um desafio para o avanço do plano de paz de Trump. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, disse em Israel que o grupo terrorista vai desarmar de uma forma ou de outra. “Muito em breve, o Hamas vai enfrentar um dilema: desarmar-se pacificamente ou ser desarmado à força”, afirmou. Em Gaza, o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, disse que qualquer força internacional deve “monitorizar o cessar-fogo e impedir que a ocupação [israelita] continue a sua agressão”. O desarmamento poderia ser discutido, disse, sem um compromisso direto. O Conselho de Paz inclui Israel (esteve representado pelo chefe da diplomacia, Gideon Sa’ar) mas nenhum palestiniano.