Donald Trump chegou esta terça-feira, 7 de julho, a Ancara com uma mensagem que deixa adivinhar o que podem esperar os líderes dos restantes 31 países da NATO, quando se reunirem esta quarta-feira para a cimeira da Aliança, nomeadamente a insistência do presidente norte-americano de que a Gronelândia deveria ser controlada pelos Estados Unidos e não pela Dinamarca e o reforço da possibilidade que a Casa Branca pode retirar “todas as tropas” da Europa. Mas também a falta de solidariedade na guerra contra o Irão. “Foi isso que afetou a minha relação com a NATO. Porque a Gronelândia não ajuda a Dinamarca, a Dinamarca não gasta dinheiro para ajudar a Gronelândia, mas é uma parte importante para os Estados Unidos e está rodeada de navios russos e chineses”, argumentou Donald Trump à margem de um encontro no Palácio Presidencial de Ancara com Recep Tayyip Erdogan.O líder norte-americano lamentou que os aliados se tenham mostrado contra o seu plano de controlar a ilha do Ártico, e lembrou “todo o dinheiro” que já gastou na NATO, deixando ainda um alerta aos europeus. “Nós nem temos que gastar dinheiro nenhum, podemos retirar todos os nossos soldados da Europa porque a Europa é um sítio muito diferente de há 20 anos”, prosseguiu Trump.Ainda no aeroporto, Trump já tinha dito estar “muito desapontado com a NATO”, voltando a referir que a Europa e o Canadá tinham “abandonado” os EUA na sua ação militar contra o Irão. “Seria de esperar que estivessem muito dispostos a fazer algo para nos ajudar, e na verdade não estavam”.Face a isto, e falando sobre a cimeira da NATO que o trouxe a Ancara, garantiu que “se não se realizasse na Turquia, onde o meu amigo é, por acaso, um líder muito forte, uma pessoa muito forte , é possível que eu não tivesse comparecido”, numa referência a Erdogan. “Senti que precisava de comparecer pelo facto de... sei que ele não mediu esforços”.E estes esforços de Erdogan parecem ter dado resultado, pois Donald Trump anunciou que os EUA vão levantar as sanções impostas à Turquia após a compra, por parte de Ancara, de um sistema russo de defesa antimíssil - medida que levou à exclusão do país do programa de caças F-35 em 2019. Notícia que não irá agradar ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que havia pedido à Casa Branca a não vender os caças à Turquia, afirmando que Erdogan “clama abertamente pela aniquilação de Israel”.Kiev quer entrarUm dos temas fortes desta cimeira é a Ucrânia, tendo o seu presidente, mesmo antes de chegar a Ancara, afirmado que “são necessárias decisões agora que proporcionem uma maior proteção ao nosso povo, mais capacidades para a nossa defesa e uma cooperação em matéria de segurança ainda mais sólida entre a Ucrânia, a Europa e os EUA.”Volodymyr Zelensky adiantou ainda que irá participar em “quase vinte” reuniões bilaterais e assinar “novos acordos sobre drones”, com foco no reforço da defesa aérea da Ucrânia, no meio dos contínuos ataques russos. Está também agendada uma reunião com Donald Trump. Já no Fórum da Indústria de Defesa, Zelensky referiu que, durante a cimeira de Ancara, a Ucrânia deveria ter permissão para aderir à NATO, garantindo que seria um erro excluir um país que construiu defesas robustas ao longo da guerra contra Rússia, lembrando que Kiev desenvolveu praticamente todo o armamento de que necessitava. Mas, sublinhando, que precisam da ajuda europeia para criar uma alternativa aos americanos Patriot.“Tenho uma pergunta para vos fazer. Acreditam mesmo nisto? Acreditam mesmo que seria correto deixar fora da NATO um país e um povo com este nível de capacidade defensiva?”, questionou Zelensky. “Se já possuímos estas capacidades, se os ucranianos já sabem lutar desta forma, então faz todo o sentido que estas capacidades passem a integrar a defesa coletiva da aliança, tornando-nos a todos mais fortes”. Desejo que está longe de receber o apoio dos aliados, devido ao facto de a Ucrânia estar em guerra com uma potência nuclear. .Uma NATO mais europeiaUrsula von der Leyen e Mark Rutte afirmaram esta terça-feira que a Aliança precisa de se tornar mais europeia para reduzir a sua dependência de longa data das garantias de segurança dos EUA. “Ambos sabemos quão importante é a cooperação estreita entre a União Europeia e a NATO”, afirmou a presidente do executivo comunitário. “Mas, para tornar isto possível, o que precisamos é de interoperabilidade”.A alemã recordou ainda que a União Europeia está a “aumentar massivamente” as verbas destinadas à Defesa, mas avisou que espera obter um “retorno desse investimento” e garantir que cria emprego.O secretário-geral da NATO sublinhou, por seu turno, que “não podemos continuar, como fizemos, a depender excessivamente dos Estados Unidos. Precisamos de uma Europa muito mais forte dentro de uma NATO mais forte”, destacando a “clara divisão de trabalho” entre as a Aliança e a União Europeia - a primeira supervisiona a estrutura de comando, as capacidades e as normas, a segunda é responsável pela indústria, pelo investimento e pela regulamentação. De recordar que 23 dos 27 Estados-membros da UE também pertencem à NATO. “Trata-se de uma NATO transformada, em que os EUA têm um parceiro forte na Europa, muito mais forte do que há apenas quatro ou cinco anos. Assim, toda a NATO fica mais forte. Como disse o ministro de Defesa alemão no outro dia, para mantermos a dimensão transatlântica da Aliança, temos de nos tornar mais europeus. É isso que está a acontecer”, saudou Rutte. Acordos bilionáriosA NATO apresentou esta terça-feira - num evento durante o Fórum da Indústria de Defesa que apelidou de “grande revelação” - uma série de projetos militares avaliados em milhares de milhões de dólares, classificados por Mark Rutte como “dinheiro bem gasto”.Um deles diz respeito a 40 mil milhões de dólares de investimento em capacidades antidrone nos próximos cinco anos, pretendendo ainda formar cinco vezes mais operadores de drones até ao final de 2027.Outro dos projetos é a substituição da frota de 14 aeronaves de vigilância e alerta antecipado (AWACS) da Boeing com cerca de 50 anos de utilização da NATO, com o primeiro-ministro da Suécia, Ulf Kristersson, a anunciar que a Saab vai fornecer até 10 novas aeronaves de vigilância GlobalEye a um consórcio de 11 nações - Bélgica, Canadá, Dinamarca, Alemanha, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Roménia e Suécia. “É um momento de grande orgulho”, disse Kristersson, sublinhando que as aeronaves bimotoras seriam “fabricadas dentro da aliança para toda a aliança”.Noruega, Finlândia, Alemanha e Dinamarca anunciaram também a aquisição de até cinco aeronaves não tripuladas Northrop Grumman MQ-4C Triton - sistemas de alto desempenho, capazes de operar a grandes altitudes e durante longos períodos - para reforçar a força de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento própria da NATO. Segundo a Aliança, está a ser formado um consórcio industrial transatlântico para fornecer esta capacidade - enquanto a norte-americana Northrop Grumman fabricará a aeronave Triton, a Airbus Defence and Space e outras empresas europeias fornecerão o segmento terrestre, serviços de gestão de dados, comando e controlo, infraestruturas e apoio à missão..Líderes da NATO devem confirmar gastos recorde em defesa face a uns EUA a reduzir presença na Europa.Portugal registou em 2025 maior aumento anual da despesa em Defesa da última década.“A NATO precisa de se tornar mais europeia para manter a sua força”