Donald Trump acusou esta madrugada (hora de Lisboa) diretamente a República Popular da China de ter levado a cabo aquele que alega ser "o maior comprometimento de dados eleitorais da história". No centro das acusações do presidente norte-americano está a alegada "aquisição ilícita de 220 milhões de ficheiros de eleitores dos EUA" por parte de Pequim, uma situação que o atual inquilino da Casa Branca classifica como um "pesadelo de segurança eleitoral sem precedentes".Numa intervenção marcada por fortes críticas ao sistema eleitoral e às próprias agências de segurança do país, Trump anunciou a desclassificação imediata de relatórios de informação que, segundo a sua Administração, revelam "vulnerabilidades chocantes na infraestrutura eleitoral" do país.De acordo com as alegações de Trump, os dados obtidos pela China incluem informações sensíveis como "nomes, moradas, números de telefone e preferências partidárias". O presidente acusou ainda o governo chinês de ter "atribuído uma unidade de exploração de dados especificamente a este projeto" com o objetivo de interferir na política interna do país.Citando o que afirma serem relatórios confidenciais da CIA datados de meados de 2018, Trump alegou que a política oficial de Pequim passava por "alavancar todos os elementos domésticos e estrangeiros que se opunham ao Presidente dos EUA" num esforço coordenado para "reduzir os votos do Presidente, forçar a sua demissão ou impedir a sua reeleição"."Eles não queriam, lutaram como o diabo para não ter um Donald Trump a vencer", declarou o chefe de Estado, justificando a alegada perseguição com as duras medidas económicas tomadas pela sua Administração. "Eles sabiam que eu estava atento, cobrei-lhes milhares de milhões de dólares em tarifas e construí as forças armadas mais fortes do mundo."Acusações de encobrimento ao "Deep State"Outro dos ângulos centrais do discurso de Trump focou-se na atuação das agências de espionagem norte-americanas. O presidente dos EUA acusou membros daquilo que designou de "Deep State" (Estado Profundo) de terem trabalhado ativamente para "suprimir e desvalorizar a informação sobre a extensão da sinistra intromissão eleitoral da China".Trump alegou que os serviços de informações dos EUA detetaram em 2020 que dezenas de milhões de dados de eleitores em 18 estados tinham sido "comprados, roubados ou pirateados pela China", mas que os responsáveis "mantiveram a informação secreta e oculta", não informando o Congresso nem o próprio Presidente. Trump foi mais longe e acusou funcionários de "manipularem deliberadamente" o briefing diário presidencial para lhe ocultar dados e de operarem "um governo sombra" dentro do FBI.Na sequência destas alegações, Trump disse ter solicitado à Direção de Nacional de Informações, ao Departamento de Justiça, ao FBI e à CIA que "investiguem como e porquê que tal informação crucial foi escondida", exigindo a demissão e a eventual "acusação criminal" dos envolvidos.Alegado favorecimento a Biden e sacos de ObamaNum dos momentos mais agressivos da sua intervenção, o presidente norte-americano alargou o espectro das suas denúncias para visar diretamente as administrações de Joe Biden e de Barack Obama, associando-as ao que descreve como uma vasta rede de corrupção e encobrimento.Quanto ao ex-presidente Joe Biden, Trump alega que relatórios confidenciais do FBI de 2020 — que acusa burocratas corruptos de terem ocultado do público — provam que as operações de interferência da China "incluíram inclusivamente uma tentativa de fabricar boletins de voto ilegais" especificamente para beneficiar o candidato democrata.Adicionalmente, Trump apontou o dedo ao Departamento de Justiça (DOJ) da Administração Biden, acusando-o de interferência política ativa para "sufocar" alegados crimes eleitorais cometidos por democratas. O governante citou um caso ocorrido em 2020 no Michigan, em que a polícia estatal realizou buscas a uma organização democrata de mobilização de eleitores (Get Out the Vote) em Muskegon. Segundo o presidente, os agentes do FBI que analisaram o caso concluíram que tinham sido cometidos crimes graves — como a falsificação de assinaturas e o registo de cidadãos inexistentes —, mas Trump acusou a tutela judicial de Biden de ter "atrasado deliberadamente a investigação e de a ter matado".As denúncias estenderam-se também ao antigo presidente Barack Obama. Trump assegurou que a atual Administração localizou recentemente uma quantidade significativa de sacos de destruição de documentos (burn bags) contendo informações deixadas por Obama que deveriam ter sido incineradas na altura. O presidente alega que, devido à "incompetência grosseira das pessoas responsáveis", estes sacos não foram destruídos, revelando dados que classificou como "chocantes".O "precedente" da Venezuela para uma manipulação digital indetetávelPara sustentar as suas acusações de que os sistemas de voto eletrónico nos EUA são vulneráveis a manipulações externas, Trump evocou o cenário internacional, apontando diretamente para o regime de Nicolás Maduro na Venezuela.O presidente alegou que a CIA obteve informações detalhadas sobre um "plano específico" levado a cabo em 2020 para "digitalmente manipular as próprias eleições" venezuelanas a favor de Maduro. Segundo Trump, os documentos desclassificados revelam "detalhes precisos sobre os métodos que o regime desenvolveu para alterar digitalmente os totais de votos".O aspeto mais grave realçado pelo governante é que estas supostas alterações digitais teriam sido desenhadas para ocorrer "de formas que não poderiam ser detetadas mesmo com uma auditoria, por mais profunda que fosse". Trump utilizou esta alegada operação na Venezuela como um alerta para a segurança nacional, argumentando que este exemplo "sublinha a razão pela qual temos de tomar medidas urgentes para garantir que o sistema [dos EUA] nunca possa ser pirateado ou comprometido".Pressão sobre o Congresso para a reforma eleitoralUtilizando estas alegações como justificação, o presidente norte-americano voltou a pressionar o Congresso para aprovar o projeto de lei "Save America Act". Trump voltou a defender que o atual sistema é "catastroficamente falível" e que as vulnerabilidades deixam as máquinas de voto expostas a ataques de adversários como a "Rússia, China, Irão e Coreia do Norte".Trump alegou que o sistema precisa de reformas urgentes, defendendo que todos os votantes passem a apresentar "documento de identificação com fotografia" e "prova de cidadania". O líder do governo atacou também o voto por correspondência, classificando-o como "inerentemente corrupto", e defendeu que este método deve ser banido, exceto em casos estritos de doença, deficiência ou destacamento militar."A única razão pela qual não o aprovariam é se quisessem fazer batota", acusou o presidente, instando os cidadãos norte-americanos a pressionarem os seus representantes no Senado e na Câmara dos Representantes.Trump prometeu que os documentos citados pelo presidente seriam imediatamente disponibilizados no portal oficial da Casa Branca (whitehouse.gov), mas à hora de publicação desta notícia tal não acontecia.O presidente assegurou ainda que a sua Administração já iniciou o processo de notificação aos estados cujos dados terão sido comprometidos pela China.As investigações e decisões dos tribunais em 2020O discurso de Donald Trump recupera uma retórica de contestação que remonta às eleições presidenciais de 2020. O registo histórico e judicial desse período aponta, no entanto, numa direção diferente das alegações apresentadas pelo presidente dos EUA.Logo após o ato eleitoral de novembro de 2020, a campanha de Donald Trump, em conjunto com vários grupos de apoiantes, interpôs um total de 62 ações judiciais em tribunais estaduais e federais de diversos estados-chave — incluindo a Pensilvânia, o Michigan, a Geórgia, o Arizona, o Nevada e o Wisconsin. O objetivo passava por contestar os procedimentos de votação, as contagens de votos por correspondência e a certificação dos resultados eleitorais.Dessas 62 iniciativas jurídicas, 61 acabaram por ser rejeitadas, arquivadas ou retiradas voluntariamente devido à manifesta falta de provas sustentáveis ou à ausência de legitimidade processual das partes queixosas. Entre estas decisões, contam-se pelo menos 30 processos que foram analisados detalhadamente quanto ao seu mérito antes de serem formalmente descartados pelos magistrados, que classificaram os argumentos apresentados como "infundados" ou baseados em "especulações".Muitas das decisões de rejeição destas contestações legais foram redigidas por juízes de inclinação conservadora e nomeados pelo Partido Republicano, incluindo vários magistrados federais que tinham sido indicados diretamente por Donald Trump para os seus cargos ao longo do seu primeiro mandato. No plano federal, o próprio Supremo Tribunal dos Estados Unidos recusou intervir para anular os resultados certificados pelos estados.Em paralelo, os órgãos especializados do Governo norte-americano responsáveis pela segurança eleitoral — onde se incluiu a Agência de Cibersegurança e Segurança de Infraestruturas (CISA), tutelada pelo próprio Departamento de Segurança Interna (DHS) de Trump — emitiram relatórios oficiais conjuntos na altura. No documento, as autoridades declararam formalmente que a eleição de 2020 tinha sido "a mais segura da história da América", garantindo não existir qualquer prova ou indício de que sistemas de votação tivessem sido pirateados, manipulados ou adulterados de forma a alterar os resultados oficiais..Obama responde a acusações de traição da administração Trump