A antiga primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra era uma das pessoas que ontem esperavam à porta da prisão Klong Prem, em Bangkok, pela libertação de Thaksin Shinawatra. E dar um abraço à filha foi a primeira coisa que o também antigo chefe do Governo fez mal saiu em liberdade, após 15 anos no exílio e oito meses detido. Aos 76 anos, Thaksin cumpria uma sentença de um ano por corrupção e abuso de poder durante o tempo em que chefiou o executivo tailandês, de 2001 a 2006. Envergando camisa branca, calças azuis e ténis, Thaksin tinha à espera, além da filha mais nova e herdeira política, centenas de apoiantes envergando o vermelho do seu partido Pheu Thai. E apesar de a formação garantir que a intenção do antigo primeiro-ministro, agora que voltou a ser um homem livre, é manter-se nos bastidores, não falta quem especule, inclusive nos media tailandeses, que ele possa voltar à política ativa. Thaksin, para já, limitou-se a dizer que se encontra de boa saúde e “aliviado”. Mas a especulação sobre o seu regresso político não espanta se olharmos para o percurso do homem que fez fortuna no sector das telecomunicações. Desde o momento em que chegou ao poder, em 2001, o bilionário procurou remodelar o país, ganhando tanto apoiantes dedicados como adversários ferrenhos. O seu partido continuou a vencer eleições, mesmo depois de ele ter sido deposto por um golpe de Estado em 2006. Mas os tribunais, controlados pela oposição conservadora e pelo establishment monárquico, foram multiplicando as decisões judiciais contra os seus aliados, que coincidiram também com anos de violentos confrontos nas ruas e outro golpe de Estado em 2014, logo após o afastamento do poder de Yingluck Shinawatra, irmã de Thaksin.Mesmo a partir do exílio, no Dubai, Thaksin nunca se afastou verdadeiramente da liderança do seu partido. Em 2023, regressou à Tailândia, onde recebeu um perdão do rei Rama X. Mas os problemas legais não se ficaram por aí e em setembro do ano passado o Supremo Tribunal condenou-o a um ano de prisão, alegando que não tinha cumprido devidamente a sua pena e que os seis meses que passara no hospital após regressar ao país foram um estratagema para evitar a prisão.O regresso para trás das grades surgiu pouco depois da queda do governo de coligação liderado pelo Pheu Thai. Duas semanas antes, o Tribunal Constitucional destituíra a sua filha, Paetongtarn Shinawatra, da chefia do Executivo devido a um telefonema tornado público no qual discutia com Hun Sen (presidente do Senado do Camboja, que governou o país por mais de três décadas) a forma de lidar com o conflito fronteiriço entre os dois países. Durante a prisão de Thaksin, o Pheu Thai obteve o seu pior resultado de sempre nas eleições gerais de fevereiro. Foi relegado para o terceiro lugar, atrás do Partido Popular reformista, e eclipsado pelo partido conservador Bhumjaithai, que beneficiou de uma onda de sentimento nacionalista após a guerra fronteiriça com o Camboja. “Thaksin sai da prisão para um novo ambiente político”, explicou à BBC o analista político Ken Lohatepanont. “Nunca se pode descartar Thaksin, mas o desafio que ele e o seu partido enfrentam é de uma magnitude diferente dos que enfrentou no passado. O Pheu Thai terá de decidir se um regresso de Thaksin irá impulsionar o partido, ou se será melhor para o partido colocar em destaque os líderes da nova geração”, acrescentou o autor da Newsletter The Coffee Parliament, sobre política tailandesa..Conversa com o “tio” cambojano ameaça derrubar líder tailandesa.Tribunal Constitucional suspende primeira-ministra da Tailândia