O governo britânico deu esta terça-feira (20 de janeiro) luz verde à construção da superembaixada da China no centro de Londres, depois de os serviços secretos dizerem que os riscos para a segurança nacional podiam ser controlados (e era “irrealista” pensar que era possível eliminá-los a todos). A decisão foi criticada pela oposição, que acusa o primeiro-ministro de “capitular” diante de Pequim, em vésperas de Keir Starmer viajar até à China à procura de acordos comerciais.Em 2018, a China comprou os edifícios da Royal Mint (onde as moedas eram produzidas até 1975), perto da Torre de Londres, por 255 milhões de libras (cerca de 293 milhões de euros ao câmbio atual). Na altura, o chefe da diplomacia era Boris Johnson, que deu uma autorização prévia à construção da embaixada. Mas as autoridades londrinas vetaram os planos em 2022, por questões de segurança. O governo do Labour acabou por assumir a responsabilidade da decisão, depois de o presidente chinês, Xi Jinping, ter feito um pedido a Starmer. Mas esta foi sendo adiada ao longo de vários meses - para irritação de Pequim. . A China prevê construir no local um complexo diplomático de 20 mil metros quadrados - equivalente ao tamanho de uma das torres das Amoreiras, em Lisboa. Naquela que será a maior embaixada da China na Europa, vão viver (as residências serão no mesmo local) e trabalhar cerca de 200 pessoas (todos de nacionalidade chinesa, como é política habitual de Pequim). Os residentes daquela zona de Londres estão a angariar fundos para tentar lutar contra o complexo na justiça. Um dos problemas prende-se com a localização do complexo, próximo dos cabos de fibra ótica que fazem a ligação à City (o centro financeiro da capital britânica), suspeitando-se que os chineses possam aproveitar para espiar e ter acesso a informação sensível. Isto no meio de vários escândalos de espionagem, incluindo o arquivar de um caso contra dois britânicos que eram acusados de espiar deputados (que gerou muita polémica). Os serviços secretos (incluindo o MI5) dizem contudo que não é realista esperar que todos os potenciais riscos sejam eliminados. E consideram que o trabalho que as diferentes agências fizeram será suficiente para controlar a situação. Além do mais, lembram que o complexo vai substituir sete diferentes locais diplomáticos (um é a atual embaixada, em Regent’s Park), sendo que “a consolidação deverá trazer vantagens claras” para a segurança..“A China tem representado, e continuará a representar, ameaças à nossa segurança nacional”, declarou o secretário de Estado da Segurança, Dan Jarvis, no Parlamento. Mas, após uma avaliação detalhada dos riscos da nova embaixada, foi-lhe dada a garantia de que “a segurança nacional do Reino Unido está protegida”.Outro dos problemas prende-se com as inúmeras salas cujo desenho e propósito não foi revelado nos planos originais e que os críticos temem possam ser usadas como celas de detenção. O governo alega ter visto os planos todos, sem censura. Os dissidentes chineses, incluindo muitos exilados de Hong Kong, sentem-se contudo inseguros e temem o aumento das ações de vigilância e intimidação de Pequim. A dissidente Chloe Cheung, de 21 anos, disse à Sky News que o primeiro-ministro “dá prioridade à relação com a China em detrimento da segurança dos ativistas no Reino Unido”. . Também a oposição acusa Starmer de “capitular” diante de Pequim. O ministro-sombra do Interior, Chris Philip, lembrou no Parlamento que a decisão foi “tomada pouco antes de uma viagem planeada do primeiro-ministro” à China e sugere que o governo aprovou o pedido para facilitar um possível acordo económico, acusando o Labour de “trocar a segurança nacional por laços económicos”. Starmer disse no ano passado que laços comerciais mais estreitos com Pequim eram do interesse nacional e esta terça-feira (20 de janeiro), em Davos, a ministra das Finanças, Rachel Reeves, lembrou que outros parceiros - incluindo os EUA, França ou Alemanha - fazem mais negócios com a China do que o Reino Unido. Xi Jinping teria feito depender a visita de Starmer a Pequim, prevista ainda este mês, da aprovação da superembaixada..Da superembaixada aos espiões: a dor de cabeça chinesa de Starmer