A viagem de três dias do primeiro-ministro britânico à China, cujo momento alto se dá nesta quinta-feira ao reunir-se com o presidente Xi Jinping, resulta de um plano de reaproximação entre Londres e Pequim por parte do governo trabalhista. A pagar as faturas do Brexit, da pandemia e da guerra na Ucrânia, e tendo no principal parceiro económico, os Estados Unidos, um parceiro errático, a economia britânica necessita de um novo impulso e Keir Starmer vê o aprofundamento das relações com a China como uma inevitabilidade, através de uma “cooperação pragmática e consistente”, e deixando para segundo plano as preocupações com os direitos humanos e os riscos de segurança económica e nacional. A qualidade das relações entre os dois países tem variado ao sabor das lideranças britânicas. Em 2015, David Cameron saudou a “era dourada” bilateral ao assinar um acordo que previa a construção de duas centrais nucleares em Inglaterra por um consórcio franco-chinês (a primeira central, Hinkley C, ainda está em obras). Theresa May — a última chefe de governo britânico a visitar a China, em 2018 — hesitou em dar seguimento ao projeto, o que levou a um arrefecimento das relações. Com Boris Johnson passou-se da era dourada para a era gelada: o antigo jornalista indignou-se com a repressão aos manifestantes pró-democracia em Hong Kong, e ofereceu a cidadania a 3 milhões de residentes da antiga colónia britânica; criticou a perseguição à minoria uigure e cancelou a participação da empresa de telecomunicações Huawei do mercado 5G alegando motivos de segurança — tal como outros países europeus — na sequência de pressões da primeira administração Trump. Pequim, à época, disse que Londres ficara reduzida à “vassalagem” aos Estados Unidos..99,3Mil milhões de libras (114, 7 mil milhões de euros), foi o total das trocas comerciais em 2025, colocando a China como o quarto maior parceiro do Reino Unido.. Apesar das tensões não resolvidas pelos residentes seguintes do número 10 de Downing Street, Liz Truss e Rishi Sunak, a China continuou a ter um peso considerável na economia britânica, sendo o sexto maior mercado para as suas exportações. Pouco depois de assumir funções, em julho de 2024, Starmer e a sua equipa quiseram recalibrar as relações com Pequim. A um telefonema ainda nesses dias iniciais seguiu-se um encontro em novembro, no Rio de Janeiro, à margem da cimeira do G20. Os jornalistas descreveram o momento como tenso. O primeiro-ministro expressou o objetivo de manter “relações consistentes, duradouras, respeitosas e que se evitem surpresas sempre que possível”. Não se coibiu de chamar a atenção para o caso de Jimmy Lai, o antigo magnata e ativista de Hong Kong que passou cinco anos na solitária — e que entretanto pode enfrentar uma pena de prisão perpétua. .Na segunda-feira, fontes dos serviços de informações dos EUA disseram que as equipas dos anteriores primeiros-ministros britânicos viram os seus telemóveis pirateados por hackers chineses..Lai, de 78 anos, está com um estado de saúde frágil e tem nacionalidade britânica, motivos pelos quais Starmer foi pressionado para voltar à carga. “No passado, em todas as viagens que fiz, sempre levantei questões que precisavam de ser abordadas. Mas parte da razão para nos envolvermos com a China é para que possam ser discutidas as questões sobre as quais discordamos”, disse o trabalhista aos jornalistas durante a viagem para Pequim. Depois da reunião no Brasil, cinco reuniões ministeriais prepararam o terreno para que a discórdia não impeça o reatar dos investimentos..Escutas e espionagemO Reino Unido discorda do apoio não declarado à Rússia na guerra à Ucrânia, ou da postura agressiva no Mar do Sul da China. A espionagem é outro assunto sensível. Na segunda-feira, o Telegraph revelou que uma operação chinesa chamada Salt Typhoon teve acesso aos telemóveis da equipa de Downing Street desde 2021. Segundo fontes dos serviços de informações dos EUA, hackers ao serviço do regime comunista visaram os telemóveis de assessores de Johnson, Truss e Sunak, até 2024. Segundo o diário londrino, desconhece-se se o ataque incluiu os telemóveis dos próprios primeiros-ministros, mas uma fonte descreveu a operação como tendo “ido direito ao coração de Downing Street”. Noutra frente, em outubro, foram retiradas as acusações contra dois britânicos acusados de espionagem no Parlamento britânico em favor da China. O caso foi abandonado depois de o governo não confirmar, para efeitos legais, que a China era um inimigo ou uma ameaça à segurança nacional. Deputados conservadores acusaram o governo de Keir Starmer de abandonar o caso por receio de que um julgamento prejudicasse ainda mais as relações entre os dois países. .57Mil m2 é o espaço a ocupar pela futura embaixada da China no centro de Londres, incluindo residências e túneis.. Em paralelo, depois de meses de aceso debate e apesar das advertências sobre as possíveis consequências, os trabalhistas acabaram por dar luz verde à construção de uma nova embaixada chinesa localizada perto da Torre de Londres. Teme-se que a “superembaixada” — será a maior na Europa — se torne num ninho de espionagem. Houve quem chamasse a atenção para o facto de estar próximo do centro financeiro da capital poderia permitir a Pequim ter acesso aos dados que circulam nos cabos de fibra ótica instalados no subterrâneo.“A China tem representado e continuará a representar ameaças à nossa segurança nacional”, considerou o ministro da Segurança Dan Jarvis, na Câmara dos Comuns, na semana passada. Mas este garantiu que “a segurança nacional do Reino Unido está protegida”, após uma avaliação feita pelos serviços de informações sobre os riscos do novo edifício. O momento da decisão — apesar de o processo poder ainda arrastar-se nos tribunais devido a um processo anunciado pelos vizinhos do empreendimento — abriu caminho para o desanuviar de tensões entre Reino Unido e China. Acrescente-se as palavras de Starmer à Bloomberg à partida para o Oriente, nas quais se recusou a escolher entre os EUA e a China. “Não faço isso. Temos relações muito próximas com os EUA. Claro que queremos e vamos manter esses negócios, juntamente com a área da segurança e da defesa. Igualmente, não seria sensato enfiar a cabeça na areia e ignorar a China, sendo esta a segunda maior economia do mundo e havendo oportunidades de negócios.”Starmer, que encabeça uma delegação que inclui dois ministros e dezenas de empresários e diretores do setor cultural, foi recebido com palavras elogiosas pelo temperamental Global Times, o órgão em inglês do Comité Central do Partido Comunista. “As observações de Starmer podem ser vistas como alinhadas com uma série de recentes declarações de líderes ocidentais — ou, dito de outra forma, como um sinal de que o Reino Unido finalmente recuperou o bom senso”, lê-se no editorial. Este destaca ainda o facto de nos últimos tempos Pequim ter recebido o francês Macron, o canadiano Carney e o finlandês Orpo e que em breve deverá ser a vez do alemão Merz, demonstrativo de que “o caminho de ‘ignorar a China’ e ‘alienar a China’ não é viável” — uma alfinetada à administração Trump. No discurso do presidente dos EUA em Davos, este disse que a China tenta vender turbinas eólicas a “gente estúpida”. Um dos negócios em preparação é precisamente a construção de uma fábrica de turbinas na Escócia, um investimento de 1,7 mil milhões de euros. Para que o Reino Unido atinja as metas de neutralidade carbónica em 2050, a energia eólica e a energia solar são caminhos obrigatórios, e ambos são dominados pela China. .803Mil milhões de libras é quanto estima o Gabinete para a Responsabilidade Orçamental sobre o investimento a realizar no Reino Unido para atingir a neutralidade carbónica, em 2050.. Também nesta área a dependência de um regime não democrático desperta alertas. Charles Parton, investigador do think tank Royal United Services Institute realça que as turbinas eólicas, ainda que montadas na Europa, são controladas por módulos de fabrico chinês, os quais têm de ser atualizados com regularidade. “Se desejarem, podem inserir malware ”, disse ao Telegraph. Em sentido oposto, Wang Yiwei, especialista em assuntos europeus da Universidade Renmin da China, disse à Associated Press que os pontos fortes do Reino Unido em serviços financeiros, consultoria e outros são uma janela de oportunidade dado o crescente interesse chinês por serviços como saúde e cuidados a idosos. “É um mercado enorme.”