"Tudo o que é excessivo, normalmente, em diplomacia, para um país da nossa dimensão, ou mesmo da dimensão de Espanha, não é bom", defendeu esta quarta-feira, 4 de março, o antigo primeiro-ministro português José Manuel Durão Barroso, na Culturgest, em Lisboa, durante uma aula promovida pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, na qual o orador principal foi o embaixador jubilado da União Europeia nos Estados Unidos, nas Nações Unidas e do Reino Unido João Vale de Almeida.À margem da aula, Durão Barroso, em delcarações aos jornalistas, recusou ao ideia de que Portugal, ao permitir a utilização da Base das Lajes por parte dos Estados Unidos, entrou na guerra com o Irão, defendendo que "o que diz o embaixador do Irão não se escreve"."O embaixador do Irão mente constantemente, o Irão mentiu uma vez a mim, quando eu era primeiro-ministro", disse, recordando um episódio em que o embaixador do Irão disse querer "propor a Portugal uma comemoração das relações históricas entre Portugal e a Pérsia, que são muito antigas"."O embaixador do Irão em Lisboa pediu para eu o receber, embora normalmente o primeiro-ministro não receba embaixadores. Eu recebi, porque ele dizia que era para programarmos uma comemoração histórica das relações culturais entre Portugal e a Pérsia. O que é que ele fez? No dia seguinte, aparece na agência noticiosa do Irão um relato absolutamente falso, dizendo que eu louvei o Irão, que eu disse bem do regime do Irão, uma mentira", relatou, acrescentamdo que "são países que tudo o que dizem mentem".Vinca do a ideia de que Portugal tem feito tudo bem neste caso, Durão Barroso concordou com o comunicado do Governo português, justificando que não tem "à partida razões para não acreditar". "Não quero entrar na política interna", completou, recusando entrar em comentários sobre o que o primeiro-ministro, Luís Monetenegro, defendeu esta quarta-feira no Parlamento."O que eu sei é que o Governo diz que os americanos respeitaram o que estava no tratado. No que o Governo diz, em princípio eu acredito, claro", sublinhou.Depois de lembrar que "nós não queríamos esta guerra", algo que, explicou, "foi dito já por praticamente todos os líderes europeus", Durão Barroso admitiu que "é evidente que esta guerra está fora do direito internacional".No entanto, completou, "quem decidiu a guerra não fomos nós, foram os Estados Unidos e Israel", argumentou, com a justificação de que isto só aconteceu em resposta a "agressões contínuas que o Irão vem fazendo".Quando foi a invasão de Israel pelas forças do Hamas, o chamado 7 de outubro, com aquela mortandade e aqueles ataques horríveis, o que se passou foi que o Irão foi talvez o único país que não só felicitou como encorajou estas ações", disse Durão Barroso, acrescentando que "o Irão tem estado a financiar e a apoiar politicamente o terrorismo fora do seu território, naquela região, do Líbano, à Síria, ao Iraque e outras regiões". "Por isso, trata-se de uma guerra entre os Estados Unidos e Israel de um lado e o Irão do outro. E os Estados Unidos são o maior aliado de Portugal e dos países da União Europeia", destacou, deixando uma pergunta retórica: "Onde é que está o nosso interesse estratégico?"As possibilidades de resposta surgiram logo a seguir, com o também antigo presidente da Comissão Europeia a questionar se Portugal "está com os norte-americanos, que são, apesar das dúvidas e das diferenças, uma democracia, um país onde há o Estado de Direito, como ainda agora se viu com a decisão do Supremo Tribunal americano, a tomar uma posição contra o Presidente americano. Ou está a nossa posição a favor de um regime, que é um regime totalitário, que mata mais os seus cidadãos?"Sobre o interesse estratégico de Israel, Durão Barroso afirmou que passa por "destruir as capacidades militares do Irão. Há muito tempo."Durão Barroso reconheceu que conhece "muito bem" o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, desde 1988, quando ambos eram "secretários de Estado dos Negócios Estrangeiros ao mesmo tempo". "Visitei-o em Israel várias vezes, encontrei-o muitas vezes, em funções políticas, e para ele o que está a passar é o cenário de sonho, que é o objetivo que ele tinha há muito tempo. Dito isto, nós temos de pensar nestas questões não em termos do senhor Netanyahu ou em termos do senhor Trump, temos de pensar em termos de qual é o interesse estratégico das democracias abertas, das sociedades como a nossa, onde queremos que homens e mulheres tenham os mesmos direitos, onde as pessoas possam organizar-se", defendeu.Críticas a Espanha, louvores a PortugalDepois de insistir que "o que o Governo diz é que as relações, que as regras foram respeitadas", no que diz respeito à utilização das Base das Lajes, nos Açores, Durão Barroso voltou a lançar uma pergunta retórica para defender a ideia: "Vamos agora nós pegar um problema com os Estados Unidos, será isso do interesse nacional português?" "Vamos lá ter algum bom senso, alguma sabedoria", apelou, admitindo que gosta do facto de Portugal ter "posições de sabedoria, posições moderadas". "Não se está a exibir, não se está a pôr em bicos de pés, que é o que serve o nosso interesse nacional. Nós somos vistos como um país confiável, nós somos fundadores da NATO, e somos um país, é normal dizer isto, de vocação atlântica", rematou."Nós vamos perder esse capital, que é um capital que temos de sermos aliados confiáveis, previsíveis, sérios, por causa agora de algumas declarações?", questionou, sem esperar qualquer resposta.Depois de assumir uma posição discordante das declarações do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que disse "não à guerra" e recusou a utilização de bases espanholas por parte dos Estados Unidos, Durão Barroso considerou que "esta posição recente foi muito determinada por razões de política interna". "O Governo espanhol tem uma parte que é de extrema esquerda, mas esta posição nunca seria tomada por Felipe González, pelos grandes socialistas que eu conheci e com quem trabalho muito perto. Tenho um grande respeito pelo Partido Socialista Espanhol, aliás, aqui para nós, fui mais apoiado pelo Partido Socialista Espanhol do que pelo português, quando estava na Comissão [Europeia]", admitiu."Eu gosto imenso de Espanha. Agora, esta decisão, a mim parece-me precipitada, parece-me excessiva", afirmou, concluindo que "as pessoas devem ter algum sentido do equilíbrio". .Irão: Bruxelas garante estar “pronta para agir” para proteger interesses comerciais da UE ."O Irão representa uma enorme ameaça para o mundo, mas especialmente para Israel"