Israel esteve na linha da frente deste ataque ao Irão. Após a Guerra dos 12 Dias, em junho passado, era inevitável?Nós, os americanos e nós, não tínhamos outra opção. Tínhamos de atacar agora porque recebemos informações de que o Irão estava prestes a instalar no terreno o seu arsenal nuclear e os seus mísseis balísticos de uma forma que seríamos incapazes de o atacar no futuro. O Irão representa uma enorme ameaça para o mundo, mas especialmente para Israel. E quando eles dizem que querem destruir o Estado de Israel, e quando se estão a preparar para isso, quando estão a criar armas nucleares e mísseis balísticos, é uma ameaça existencial para o Estado de Israel. Por isso, precisávamos de agir naquele momento.Já não era hora para negociações, embora estas estivessem a acontecer?Nunca acreditámos em negociações. Os iranianos não querem negociar. É algo que não está no ADN deles. E gostaria de citar o chefe do Estado-Maior do Irão, o major-general Mousavi, que disse numa entrevista na TV: "A minha grande ambição, o meu ideal, é eliminar o regime sionista. É nisso que penso sempre.” Ora ele não vai pensar mais nisso, porque o eliminámos no sábado. Mas isto mostra com que tipo de regime estamos a lidar. Os alvos dos ataques israelitas e americanos têm sido tanto o regime iraniano e a sua liderança como as instalações nucleares. Para Israel, acabar com a capacidade de Teerão de desenvolver a bomba ainda é o principal objetivo? Estamos a falar de bombas nucleares, mas também de mísseis balísticos. E estamos a falar do apoio aos proxies. Portanto, existem três ameaças. Há uns anos não se falava tanto de mísseis balísticos, é algo bastante novo. Mas a devastação que podem causar é enorme. E o Irão queria chegar aos 8.000 mísseis balísticos. Quanto ao regime, o que gostaríamos era de criar as condições para que os civis do Irão decidam. É uma decisão que cabe ao povo iraniano.Mas impedir o Irão de obter a bomba é o principal objetivo de Israel?Estamos a atacar todos os dias. E gostaria de enfatizar a diferença entre o que fazemos e o que os iranianos estão a fazer. Porque enquanto nós atacamos alvos militares e governamentais, os iranianos atacam deliberadamente civis em Israel. Na segunda-feira, nove israelitas foram mortos, todos civis. No domingo, um civil israelita foi morto. Na guerra dos 12 Dias foram assassinados 33 israelitas. Portanto, no total, 43 israelitas foram assassinados pelo Irão no último ano. Todos eles civis. E não nos estão a atacar apenas a nós, mas também a civis nos países do Golfo. Estão a atacar hotéis no Dubai, alvos civis por todo o Golfo, Houve ataques a embaixadas dos EUA, ataques a instalações de petróleo e gás. Não são alvos militares. Esta guerra tem também uma forte ligação com a Europa. Por duas razões. Em primeiro lugar, é importante saber que, ao atacarmos o Irão, estamos a comprometer a sua capacidade de abastecer a Rússia na guerra contra a Ucrânia. Isso, é muito importante para a Europa. Além disso, creio que é a primeira vez que o Irão ataca e atinge a Europa, porque Chipre faz parte da Europa. Os iranianos atacaram a base militar britânica. Portanto, é o Reino Unido e Chipre ao mesmo tempo. E acabo de saber que lançaram um míssil contra a Turquia, um membro da NATO. Isto demonstra o que sempre dissemos: que este regime não tem limites. E pensar que um regime destes terá poder nuclear é uma situação assustadora. É um regime que massacrou os seus próprios civis em grande número. Estamos a falar de dezenas de milhares de manifestantes inocentes que só queriam protestar contra o regime. Foram assassinados pelo próprio regime. Se são capazes de fazer tais coisas contra os seus próprios cidadãos, certamente farão algo semelhante noutros países.Há baixas também do lado iraniano. Houve notícia de um ataque a uma escola para raparigas logo no sábado com dezenas de mortes. É impossível travar uma guerra sem baixas civis do outro lado?Podemos fazer o nosso melhor. Estamos a fazê-lo alertando os cidadãos de Teerão para que saiam de áreas específicas, porque não queremos atingir civis. Não estamos em guerra com o povo iraniano. Antes da Revolução Islâmica, antes deste regime brutal, tínhamos excelentes relações com o Irão. O Irão chegou a comprar um terreno em Israel para construir a sua embaixada. Esse terreno ainda pertence ao governo iraniano. Neste momento, é um parque infantil, mas esperamos que em breve haja um governo no Irão que deseje estabelecer relações diplomáticas com Israel. Nesse caso, o terreno está pronto. Só precisam de construir a embaixada. Uma das opções em aberto para a futura liderança, ou pelo menos para a transição, é o filho do Xá. Seria uma boa notícia para Israel?Não decidimos pelo povo iraniano quem será o seu líder, mas se for [Reza Pahlavi], alguém que quer viver em paz com Israel, será certamente excelente para nós. E quando digo que ele quer viver em paz com Israel, não me refiro apenas a Israel, mas também a todos os seus vizinhos, porque vemos o que está a acontecer agora, com o Irão a atacar todos os países da região.Esta retaliação do Irão surpreendeu Israel?Em alguns aspetos, é realmente uma surpresa. Se pensarmos em países como o Qatar, que tinha excelentes relações com o Irão, e agora também a Turquia, o facto de Teerão estar a atacar é surpreendente, mas mostra que tipo de regime radical e brutal existe no Irão.Esses países, sobretudo as monarquias do Golfo, encontram-se num dilema em que se retaliarem contra o Irão, parecerão apoiar Israel, se não fizerem nada, continuarão sob ataque. Para Israel, isto representa uma oportunidade de aproximação a estes países, alguns dos quais, como a Arábia Saudita já tinham estado perto de se juntar aos Acordos de Abraão?Esta é uma oportunidade para lhes mostrarmos que estamos do lado deles, que não temos qualquer intenção de atacar ninguém, e quando virem que o Irão os está a atacar e que Israel os está a apoiar - porque quando lutamos contra o Irão, estamos a apoiá-los - isso mostra o futuro do Médio Oriente. Gostaríamos de ter relações com todos estes países.Israel também está a atacar o Líbano…Estamos apenas a responder. Tínhamos um acordo de cessar-fogo e uma das condições era que o Hezbollah se retirasse do sul do Líbano. Eles não fizeram isso. Avisámos várias vezes o governo libanês, que tinha de cumprir o acordo que tinha assinado. Isso não foi feito. Este cessar-fogo sempre foi arriscado e instável, mas esta semana o Hezbollah decidiu atacar Israel. O primeiro-ministro e o presidente do Líbano condenaram o Hezbollah e afirmaram que não permitem qualquer atividade militar por parte do grupo. A maioria da população libanesa não é xiita, não apoia o Hezbollah e quer viver em paz com Israel. O que temos agora é uma ditadura do Hezbollah, que na realidade é uma ditadura do Irão no Líbano. Esperamos que, no futuro, o governo libanês se fortaleça e o Hezbollah enfraqueça, para que o governo, que deseja viver em paz com Israel, consiga controlar o Líbano e tenhamos paz. Por isso, precisávamos de responder ao ataque do Hezbollah, e é isso que estamos a fazer. Não aceitaremos ter esta ameaça de dezenas de milhares de terroristas armados perto da nossa fronteira. Precisamos de eliminar essa ameaça.Neste momento, a atenção do mundo está focada no Irão. O que significa isto para a segunda fase do acordo de cessar-fogo em Gaza?Não tenho a certeza se existe uma ligação direta, porque cortámos a ajuda do Irão ao Hamas durante a guerra, mas a guerra desde 7 de Outubro [de 2023] e o próprio 7 de Outubro, também foi causado pelo Irão, uma vez que este forneceu armas ao Hamas. Por conseguinte, enfraquecer o Irão enfraquecerá todos os seus aliados. Só para dar um exemplo, o Irão doou 30 mil milhões de dólares ao longo dos anos, e 1,2 mil milhões de dólares só no último ano ao Hezbollah. Gostaríamos de ver um governo no Irão que se preocupe com os seus cidadãos, com a saúde e educação, e não que envie milhares de milhões de dólares para os aliados com o objetivo de atacar Israel. Este será o novo Médio Oriente depois desta guerra.Desde 7 de outubro que Israel tem combatido em várias frentes, conseguiu algumas vitórias, os reféns foram libertados, mas a imagem do país ficou prejudicada. Como é que Israel lida com estas críticas? Ou o mais importante é manter o apoio dos EUA, seu principal aliado?Tudo é importante. A nossa imagem é importante, não só nos EUA, mas também aqui na Europa. Esta guerra com o Irão mostra o que Israel tinha de enfrentar. Quando Israel diz que o Hamas e o Irão têm a mesma ideologia, quando explicamos aquilo contra que lutamos, por vezes as pessoas não acreditam. Quando dizia que o Irão gostaria de conquistar o Médio Oriente e a Europa, que tem mísseis balísticos capazes de atingir Israel, e que continuam a desenvolver esses mísseis para que agora possam atingir quase todas as cidades da Europa, e querem fazê-lo, muita gente não acreditou em mim. Mas hoje quando vemos do que são capazes, penso que mais pessoas acreditam em mim. E é isso que o Hamas representa, a mesma ideologia. O Hamas também quer destruir Israel. Portanto, sim, há críticas a Israel, à nossa guerra contra o Hamas em Gaza. Mas gostaria de dizer que os nossos valores, a nossa forma de pensar, são exatamente iguais aos do povo português e dos europeus. Não aceitamos essa crítica. Fizemos o possível para não ferir nenhum civil em Gaza. Mas quando os terroristas planearam usar os civis como escudo humano, tivemos de atacar. E tal como o Hamas representa uma ameaça para Israel, o Irão representa uma ameaça para o Médio Oriente e para toda a Europa.A Europa ficou mais alerta?Sim, agora o mundo inteiro vê o que vínhamos a discutir há anos, e o que vínhamos a dizer desde o 7 de Outubro. É também um alerta para Israel, porque até nós, um dia antes de 7 de Outubro, acreditávamos que poderíamos apaziguar estes terroristas. Pensámos que, se a situação económica em Gaza melhorasse, não nos atacariam. Se mais trabalhadores de Gaza e da Autoridade Palestiniana trabalhassem em Israel e recebessem salários elevados, haveria menos ameaça de terrorismo vinda desses locais. Mas estávamos enganados. E no caso do Irão, o mundo inteiro entende agora que têm uma ideologia, querem conquistar, querem destruir, querem eliminar outros países. E é por isso que estamos a lutar..Dilema das monarquias do Golfo: retaliar e parecer estar ao lado de Israel ou não reagir