Para assinalar o primeiro 10 de Junho como presidente, além da ilha Terceira, nos Açores, António José Seguro escolheu o Luxemburgo. Uma decisão que a poeta e tradutora Sónia da Silva garante agradar à comunidade portuguesa naquele país. Estamos a falar de mais de 90 mil pessoas, ou seja, mais de 13% da população do Grão-Ducado. “Foi sempre uma comunidade muito trabalhadora e continua a ser uma comunidade muito discreta e intimamente ligada às suas origens”, conta, sentada nos degraus da igreja de São Roque, no largo Trindade Coelho. Em Lisboa a convite da Embaixada do Luxemburgo para uma noite de poesia no âmbito da Festa da Francofonia, Sónia da Silva explica que “quando há uma comemoração ou uma visita de uma personalidade com a qual o povo se identifica, é um momento saudoso muito forte” para os portugueses no Luxemburgo. Nascida naquele país em 1975 e filha de emigrantes portugueses que em finais de 1974 trocaram Sever do Vouga pelo Luxemburgo, Sónia da Silva garante que é “uma honra” ter sido convidada pela Embaixada do Luxemburgo em Portugal para “evocar o que eu gosto mais de fazer: construir pontes, seja no meu trabalho de tradução, seja na minha nova função”. Essa nova função é a de diretora do Institut Pierre Werner, um centro cultural europeu criado em 2003 no Luxemburgo por iniciativa dos governos alemão, francês e luxemburguês. Mas comecemos pelo que trouxe Sónia a Lisboa desta vez: a poesia. A tradutora recorda como ao convidarem poetas portugueses para o Printemps des Poètes do Luxemburgo, iniciativa da qual é fundadora, perceberam que muitos não estavam traduzidos em francês. “Comecei então a fazer essas traduções”, conta. E recorda como o gosto pela tradução “surgiu aos 15 anos, quando comecei a ter latim. Na altura percebi que, enquanto filha de imigrante, conseguia ter uma ligação valorizante com a minha língua materna, e isso foi um grande júbilo para mim, reencontrar-me com a língua materna através dessa etimologia e assim enaltecer a língua da casa.” E explica: “No meu tempo, era quase mal visto cultivar a língua materna. Tínhamos vergonha de dizer que frequentávamos aulas de português fora do ensino: havia o preconceito que isso prejudicava a aprendizagem das línguas ensinadas na escola luxemburguesa. Hoje, felizmente, o discurso do corpo docente mudou... Contudo, a relação dos lusodescendentes com a língua materna ainda não é pacificada ao ponto de favorecer uma transmissão orgulhosa.”No seu coração, Fernando Pessoa tem um lugar especial, ou não tivesse Sónia traduzido a antologia francesa do Livro do Desassossego. “É um poeta de que eu gosto, mas nunca me teria atrevido a traduzi-lo se não tivesse recebido uma encomenda da editora. Foi uma marca de confiança e um desafio enorme”, explica a luxemburguesa. Mas confessa que também gosta muito de poesia contemporânea e de poetas portuguesas. “A geração atual é muito forte. E tenho o cuidado de fazer vibrar as vozes femininas de forma geral, porque é uma convicção política minha”, garante. Quanto a nomes, diz gostar “de todas” e lamenta que “algumas já tenham partido, como Adília Lopes ou Ana Luísa Amaral, que eu adoro.” E prossegue: “gosto de toda a geração da Filipa Leal, poeta cujo livro Vale Formoso por mim traduzido foi recentemente publicado no Luxemburgo e acabou por nos juntar na embaixada em Lisboa.” Aponta ainda Carla Louro, a vencedora do prémio Nuno Júdice, “uma nova voz que está a emergir na poesia feminina. Foi uma alegria assistir ao lançamento do primeiro livro dela em Lisboa”..À frente do Institut Pierre Werner há pouco mais de três meses, Sónia da Silva confessa que, em tempos conturbados como os atuais “o desafio é tentar construir algo parecido com uma pequena Europa.” E o instituto, que junta Luxemburgo, França e Alemanha (países fundadores da União Europeia), tem como objetivos a “fraternização, a promoção do espírito europeu, mas de forma alargada, não é só convidar grandes nomes franceses e alemães, além de luxemburgueses, mas abrir-se mais e promover tanto intercâmbio de ideias como projetos comuns.”Um projeto que marcou Sónia da Silva foi o último que promoveu como responsável pela comunicação do Museu Nacional de História e Arte, sobre os 50 anos do 25 de Abril. Apesar da grande comunidade portuguesa, a Revolução dos Cravos “não era muito conhecida do grande público, mas foi um orgulho para a comunidade portuguesa ser honrada no âmbito de uma exposição no Museu Nacional.” O museu teve a preocupação de fazer os textos expográficos em francês e em português e “fizemos um enorme programa à volta da exposição, de ateliês, conferências, visitas guiadas temáticas”, explica Sónia da Silva, acrescentando: “Isso vibrou com a comunidade portuguesa, mas os próprios luxemburgueses não tinham conhecimento desse passado, do porquê de tanto português ter emigrado para o Luxemburgo nos anos 70 e quão difícil foi deixarem o seu país e chegarem num cuja língua nacional está muito longe da portuguesa.” A exposição foi “um momento de compreensão mútua.” Mesmo para os lusodescendentes, sobretudo os mais jovens, o momento foi de descoberta, ampliado através da mostra fotográfica de Alfredo Cunha que Sónia da Silva propôs como complemento. “Conseguimos desencadear esse diálogo que o filho não tinha com o pai mas que o neto conseguiu ter com o avô. ‘Conta-me lá como foi, porque é que deixaste o país, o que é que viveste na guerra colonial?’ As pessoas, da geração dos meus pais, que muitas vezes tentaram esquecer porque queriam avançar na vida e ter um futuro melhor para os filhos, sentiram-se muito honrados por lhes termos dado voz nessa exposição.”Para os pais de Sónia, o Luxemburgo acabou por ser um acaso. O pai foi procurar trabalho e voltou com um contrato para aquele país. Mudou-se primeiro, a mulher seguiu-o mais tarde. A tradutora já nasceu lá e faz questão de destacar que o Luxemburgo é um país de imigração muito particular. “Não é a França, não é a Suíça, não é a Alemanha. Tem uma constelação linguística muito específica. Temos três línguas oficiais: luxemburguês, alemão e francês. E todas as crianças são alfabetizadas em alemão. Só este ano é que vão mudar a lei para haver a opção de serem alfabetizadas em alemão ou em francês”, explica. E recorda como para um filho de imigrante fazer toda a escola em alemão não é fácil quando os pais não conseguem dar apoio aos filhos nesse idioma. Mesmo assim, acredita que o sistema plurilinguístico do ensino luxemburguês é uma força, “desde que não seja fraturante”. Quanto à imagem da comunidade portuguesa, admite que terá mudado desde os seus tempos de criança. “Hoje as coisas são diferentes, há mais comunidades estrangeiras e o Luxemburgo está-se a abrir. É um país onde há uma grande paz social. Pelo facto também de ter um grande conforto financeiro.” O que pode ter mudado a perceção que os luxemburgueses têm dos portugueses “são as pessoas, que vão conseguindo destacar-se socialmente e integrar-se na sociedade. Não é uma palavra que eu gosto muito ‘integração’: deveríamos todos poder avançar sem ter que vestir uma segunda pele para condizer. Mas diria que cada vez mais portugueses conseguem ter um papel decisivo - na política, no meio social. E isso faz com que sejamos vistos de forma diferente.”Quanto à comunidade portuguesa, diz Sónia da Silva, “esta gosta de viver lá. O que é bonito no Luxemburgo é o facto de ser um país multicultural, com tantas comunidades e misturas. Sentimos que estamos no meio da Europa e no entanto ouve-se falar frequentemente português na rua. É um país onde, em princípio, não se sente racismo. Lá está: é um país com grande paz social. Viver num país tão seguro e cosmopolita é uma sorte.”Mas se percebem as vantagens de viver num dos países com um dos PIB per capita mais alto do mundo, os jovens portugueses e lusodescendentes não esquecem as origens. “Há algo muito particular com o povo português. Continua a ser aquele povo de coração cheio”, garante Sónia da Silva. Essa é uma das razões que a tradutora evoca para explicar as vindas frequentes a Portugal dos emigrantes no Luxemburgo: “É uma fonte de abraços, é uma fonte de afeto.” Os portugueses são “um povo muito generoso e nós precisamos cada vez mais de cultivar esse tipo de laços”.Ilha Terceira e Luxemburgo vão receber as comemorações do Dia de Portugal