Num momento em que vários líderes europeus defendem o reforço das capacidades militares do continente, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, optou este sábado, 14, por marcar uma diferença clara: rejeitou o rearmamento nuclear e apelou às potências atómicas para travarem uma nova corrida ao armamento “enquanto ainda é possível”.A intervenção teve lugar na Conferência de Segurança de Munique, um dos principais fóruns mundiais de debate sobre geopolítica e defesa, onde Sánchez se tornou o primeiro chefe de Governo espanhol a discursar nesta conferência, que decorre desde 1963.“Um erro histórico”Perante uma audiência composta por líderes políticos, responsáveis militares e especialistas em segurança internacional, Sánchez foi direto: apostar de novo no reforço dos arsenais nucleares seria, nas suas palavras, “um erro histórico”.O líder espanhol alertou que as potências nucleares estão atualmente a gastar mais de 11 milhões de dólares por hora em armamento atómico e recordou estimativas segundo as quais os Estados Unidos poderão investir cerca de 946 mil milhões de dólares em armas nucleares nas próximas décadas.“Não é uma questão de esquerda ou de direita. É uma questão de fazer o que está certo”, sublinhou, citado pela agência EFE, apelando à negociação de um novo acordo START de controlo de armas nucleares que substitua o tratado recentemente expirado entre Moscovo e Washington e evite uma escalada."Imploro-vos que impeçam o início de uma nova corrida armamentista enquanto ainda é possível. A humanidade ficará eternamente grata e vos julgará se não o fizerem", disse.Sánchez referiu que o avanço da inteligência artificial acrescenta um fator de incerteza ao equilíbrio estratégico global, tornando ainda mais arriscada qualquer corrida aos arsenais nucleares. "Este é um erro histórico que não podemos repetir, especialmente hoje, com a sombra projetada pela inteligência artificial, uma sombra de incerteza sobre o mundo inteiro", denunciou. Reforçar a defesa, mas sem armas nuclearesApesar da posição firme contra o rearmamento atómico, o chefe do Governo espanhol reiterou o compromisso de Espanha com a segurança europeia, sobretudo face à ameaça da Rússia.Sánchez lembrou que, desde que assumiu funções, Espanha triplicou a despesa em defesa e duplicou o número de militares destacados em missões da NATO. Defendeu ainda o fortalecimento das capacidades europeias e voltou a apoiar a criação de um exército europeu, “não daqui a dez anos, mas já”.Relação com os EUA e futuro da EuropaNo mesmo fórum, Sánchez manifestou-se incrédulo perante declarações de figuras da administração norte-americana que encaram a União Europeia como uma ameaça estratégica e deixou a mensagem de que os Estados Unidos terão de aceitar "uma Europa mais integrada e capaz de agir por si".Ao lado da primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, e do presidente finlandês, Alexander Stubb, o líder espanhol defendeu que a União Europeia é "um dos maiores projetos políticos do século XX e um pilar de estabilidade global"..Merz em Munique: "A Europa acaba de regressar de umas férias da história"