Foi uma segunda-feira marcada por declarações contraditórias ou, pelo menos, pouco claras sobre o processo negocial entre os Estados Unidos e o Irão, a horas do termo do cessar-fogo. Tudo aponta que o vice-presidente J.D. Vance parta nesta terça-feira para Islamabad, enquanto o Irão também dava sinais de que poderia enviar a sua delegação. Em paralelo, ficou assente que os embaixadores de Israel e do Líbano vão encontrar-se na quinta-feira, numa segunda ronda, enquanto o calar das armas foi interrompido pelo lado israelita e o Hezbollah anunciou que não iria submeter-se à linha amarela demarcada no sábado no sul do Líbano. O Paquistão está confiante de que o Irão acabará por participar nas negociações com os EUA, apesar das críticas e das mensagens públicas dos dirigentes iranianos sobre o bloqueio aos seus portos e o desrespeito ao cessar-fogo, depois de os norte-americanos terem apresado um cargueiro iraniano. “Recebemos um sinal positivo do Irão. As coisas estão fluidas, mas estamos a tentar que eles estejam aqui quando começarmos as negociações amanhã [esta terça-feira] ou um dia depois”, disse à Reuters um funcionário paquistanês. Antes, o presidente iraniano acusou a administração Trump de emitir “sinais pouco construtivos e contraditórios” quanto às negociações e disse que “o cumprimento dos compromissos é a base para um diálogo construtivo”, quando o seu país tem “um profunda e histórica desconfiança” perante os EUA. Concluiu: “Os iranianos não se submetem à força”. Mais tarde, o ministro dos Negócios Estrangeiros Abbas Araghchi disse ao homólogo paquistanês Ishaq Dar que as “violações contínuas do cessar-fogo” por parte dos EUA são um grande obstáculo à continuação do processo diplomático.Do outro lado, Donald Trump disse à agência Bloomberg que é de esperar que as hostilidades regressem de imediato se não se chegar a acordo e disse não ter urgência no assunto. “Não vou precipitar-me a fechar um mau acordo. Temos todo o tempo do mundo.” Mas também apontou, nas mesmas declarações, que o cessar-fogo de duas semanas com o Irão expira na quarta-feira à noite, hora de Washington. A data para o fim do cessar-fogo seria na terça-feira à noite, uma vez que o anúncio da pausa foi feito no dia 7. Outro exemplo de declarações contraditórias relaciona-se com a ida do vice-presidente para o Paquistão. No domingo, afirmou que J.D. Vance não iria participar devido a preocupações de segurança. Depois, a Casa Branca esclareceu que Vance iria chefiar a delegação dos EUA no Paquistão. Já na segunda-feira, Trump afirmou que Vance já tinha partido para Islamabad, quando na realidade estava em Washington. A CNN e o New York Times noticiaram que a viagem iria realizar-se nesta terça-feira.Em paralelo, à Associated Press, um funcionário libanês confirmou a realização de uma segunda reunião a ter lugar em Washington na quinta-feira entre diplomatas de Beirute e de Telavive. Isto apesar de Israel ter prosseguido com ações militares e de o Hezbollah ter atacado uma caravana militar durante o cessar-fogo de dez dias iniciado na quinta-feira à noite. Segundo o funcionário libanês, a segunda sessão vai focar-se em consolidar a trégua e em estabelecer um cronograma de negociações mais amplas.Israel e Gaza na agenda da UEOs ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia reúnem-se nesta terça-feira no Luxemburgo. Um dos temas em análise é a suspensão do acordo de associação com Israel, uma pretensão dos governos de Espanha, Eslovénia e Irlanda sustentada nas violações dos direitos humanos na guerra de Gaza, mas também nas Cisjordânia. Segundo fontes comunitárias, a alta representante Kaja Kallas sinalizou a disponibilidade para estarem sobre a mesa “todas as ferramentas disponíveis”. Mas a suspensão do acordo, em vigor desde 2000, exige unanimidade entre os 27, e não é de esperar que países como a Alemanha ou Áustria mudem de política. A suspensão de concessões comerciais previstas no acordo, que exige maioria qualificada, ou sanções aos ministros extremistas do governo de Netanyahu são outras avenidas a explorar. Foram propostas pela presidente da Comissão Ursula von der Leyen, em setembro, mas à época acabaram por não sair de uma intenção porque entretanto os Estados Unidos haviam levado avante um plano de paz para a Faixa de Gaza. A Faixa de Gaza foi o que levou representantes de 60 países a Bruxelas para discutir com diplomatas palestinianos o futuro do território. No mesmo dia em que a ONU e a UE estimaram, com dados do Banco Mundial, que a reconstrução de Gaza custará 60,57 mil milhões de euros em dez anos, Mohamed Mustafa, primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana, disse que a Faixa de Gaza necessita de “um Estado, um governo, uma lei e um objetivo”. No final da reunião, Kallas lembrou que, com a saída de cena do húngaro Viktor Orbán, a possibilidade de alcançar consenso nalguns pontos, como por exemplo sancionar os “colonos violentos”, é maior. O futuro primeiro-ministro Péter Magyar anunciou advogar uma política baseada em “relações pragmáticas” com Israel, e que poderá deixar de vetar as decisões relacionadas com aquele país. Por outro lado, Magyar disse que o seu país vai cancelar a saída do Tribunal Penal Internacional, pelo que o convite formulado a Netanyahu para as cerimónias do 70.º aniversário da revolução de 1956 é, por assim dizer, um presente envenenado. “Se uma pessoa procurada entra no território do nosso país, ele ou ela deve ser detida… cada estado e chefe de governo estão cientes destas leis”, disse. Emirados detêm “terroristas” O Serviço de Segurança do Estado dos Emirados Árabes Unidos anunciou o desmantelamento de uma “organização terrorista” ligada ao Irão, e a respetiva detenção dos seus 27 membros. Segundo o comunicado do Ministério do Interior, os detidos são simpatizantes de “ideologias extremistas e terroristas que constituíam uma ameaça para a segurança interna”. Em Teerão, dois homens foram executados, após terem sido condenados por “guerra contra Deus” e “colaboração com grupos hostis e com o regime sionista”, em particular com a Mossad.