Ségolène Royal decidiu voltar a testar a sua popularidade junto dos franceses ao anunciar que será candidata às primárias do Partido Socialista para as próximas eleições presidenciais, marcadas para abril de 2027. Uma espécie de déjà vu 20 anos depois, quando foi a escolhida dos socialistas para tentar chegar ao Eliseu - passou à segunda volta, mas foi derrotada pelo candidato da então UMP (agora Os Republicanos) Nicolas Sarkozy.“Decidi candidatar-me às primárias após inúmeras conversas com as pessoas que conheci - autoridades eleitas, cidadãos ativos em associações e membros da comunidade empresarial. Dou este passo com humildade e sem ego, evitando ares de superioridade que se veem com demasiada frequência”, escreveu a socialista na passada sexta-feira no X ao anunciar a candidatura às primárias do partido. “O meu objetivo é servir ouvindo e exercendo o discernimento, valendo-me da minha experiência e respeitando pontos de vista divergentes - à exceção das linhas vermelhas intransponíveis do racismo e antissemitismo, do sexismo e homofobia, e da extrema-direita às portas do poder”. “Como poderia ficar de braços cruzados perante a possibilidade de a primeira mulher na história de França a assumir a presidência vir deste campo político?”, afirmou ainda Ségolène Royal, de 72 anos, numa referência a Marine Le Pen, que três dias antes, havia confirmado que seria a candidata presidencial do Reagrupamento Nacional, apesar das suas questões judiciais. Para a socialista, a França encontra-se abalada por múltiplas crises, precisando de “um futuro tranquilizador” de forma a reencontrar um país “confiante no seu destino”. O que pretende conseguir através de cinco prioridades em que destaca a sua antiga experiência no governo, começando por uma ordem justa “para devolver poder de compra, relançar a atividade económica sem destruir as proteções sociais”, mas também “para a educação, a saúde, a segurança quotidiana”; e uma urgência climática “pela aplicação enérgica das decisões da COP21, que presidi”, a par de um combate à urgência energética das pequenas e médias empresas “que sofrem com a explosão do preço da energia”, apontando para soluções como “retomar a nossa autonomia energética e baixar os impostos, como fiz quando fui ministra da Energia”.Ségolène Royal aponta ainda para a reconstrução de um Estado forte com tolerância zero para a violência contra menores e uma “luta implacável contra as violências sexuais. Como fiz nas minhas responsabilidades ministeriais”, e para uma França que “reencontre o seu papel histórico de poder mediador, para atuar em toda parte pela paz justa e duradoura, na continuidade da visão de Charles de Gaulle, de François Mitterrand e de Jacques Chirac…”.Muitos terão ouvido falar em Ségolène Royal pela primeira vez por ser mãe dos quatro filhos mais velhos do ex-presidente francês François Hollande, com quem viveu entre finais dos anos 1970 e 2007, tendo sido tornado público meses após a separação que o então líder dos socialistas franceses tinha um caso com a jornalista Valérie Trierweiler. Mas a verdade é que em 1982, dois anos depois de se licenciar na prestigiada Escola Nacional de Administração, chamou a atenção de Jacques Attali, conselheiro especial do presidente François Mitterrand, para quem trabalhou até 1988, ano em que foi eleita para a Assembleia Nacional, tendo sido deputada consecutivamente até 2007. Pelo meio, entre 1992 e 2002, ocupou vários cargos ministeriais em pastas como Ambiente (sob a presidência de Mitterrand), Educação e Família (com Jacques Chirac). Entre 2014 e 2017, era Hollande presidente, foi ministra da Ecologia, Desenvolvimento Sustentável e Energia. Royal foi a escolhida nas primárias socialistas de 2006 tornando-se a primeira mulher em França a ser nomeada como candidata à presidência por um grande partido. Nas presidenciais do ano seguinte destacou-se ao ser a primeira mulher na segunda volta, mas acabou derrotada por Sarkozy.Os anos seguintes foram marcados por outras derrotas - em 2008, perdeu por uma margem estreita a liderança do PS para Martine Aubry, perdeu as primárias presidenciais do partido em 2011 e não conseguiu conquistar um lugar na Assembleia Nacional nas eleições parlamentares de junho de 2012. Agora quer reverter esta maré de azar nas primárias de outubro, tendo, até agora apenas um adversário, o deputado Philippe Brun..Ségolène Royal: de filha rebelde a rainha das neves