Durante os primeiros bombardeamentos de Israel aos subúrbios de Beirute, um dos alvos escolhidos — como já fora em 2024 — chama-se Al-Qard al-Hasan. Com mais de 30 filiais no Líbano, esta organização de caridade funciona na prática como um banco manobrado pelo Hezbollah, o partido e milícia xiita pró-iraniano. Este é apenas um dos alegados tentáculos do Setad, a opaca máquina financeira a cargo do guia supremo iraniano. Em 1989, no último ano de vida, o líder da revolução islâmica Ruhollah Khomeini deixou como legado do fundamentalismo religioso uma fatwa em que condenou à morte o escritor Salman Rushdie, bem como os seus editores, pela autoria de Versículos Satânicos — e 33 anos depois Rushdie perdeu a visão do olho direito depois de uma tentativa de assassínio. Nesse ano, o ayatollah também perseguiu os envolvidos num programa de rádio onde uma mulher teve a ousadia de responder com o nome da protagonista de uma série de TV japonesa (Oisho) à pergunta sobre qual era o modelo de mulher a seguir. Ameaçados de execução, foram condenados a quatro anos de prisão e 40 chicotadas. Longe do radar ficou a criação do Setâd-e Ejrâyi-ye Farmân-e Emâm (Sede Executiva das Ordens do Imã), conhecido apenas por Setad. A sua função original era recolher, gerir e redistribuir os bens confiscados após a revolução de 1979 em favor dos mais desfavorecidos. Independentemente da putativa bondade de Khomeini, a realidade é que o Setad se transformou num conglomerado empresarial e financeiro sob o controlo direto do guia supremo que se seguiu, Ali Khamenei. Sem controlo do governo ou dos deputados, o Setad é um aparelho de poder paralelo ao Estado, tal como um dos seus principais beneficiários, o Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica. Além de ser uma organização militar paralela às forças armadas, os Guardas da Revolução controlam a nível interno a milícia de rua Basij, e a nível externo são a ligação, através da Força Quds, para as diversas milícias que atuam sob procuração nos países da vizinhança.Uma extensa investigação da Reuters, em 2013, estimava em pelo menos 95 mil milhões de dólares o valor do Setad, então 40% acima do valor das exportações anuais de petróleo e também superior aos bens do xá. Foi também nesse ano que o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos passou a sancionar o Setad e algumas das suas empresas afiliadas na tentativa de infligir danos económicos à liderança da teocracia. Mas, funcionando de forma quase secreta, o Setad terá conseguido contornar as teias das sanções norte-americanas. Ao ponto de hoje se estimar que o valor das participações em dezenas de empresas e o império imobiliário ascende a 200 mil milhões de dólares. “É comparável à oligarquia russa que controla os recursos do Estado. De facto, no Irão operam dois sistemas económicos distintos: o oficial do Estado e o paraestatal ligado diretamente ao guia supremo, do qual o Setad representa o núcleo central”, explicou Meir Litvak, diretor do Centro de Estudos Iranianos da Universidade de Telavive, citado pelo canal TGcom24.As funções de caridade e de assistência social não estão totalmente esquecidas no organograma do Setad. Como Litvak aponta, “a caridade é uma ferramenta política”. Explica: “Serve para manter as pessoas próximas do regime e para criar dependência económica.” Confisco de casasA referida investigação da Reuters revelou que o Setad se tornou num instrumento todo-poderoso graças ao confisco de milhares de propriedades pertencentes a iranianos, embora com especial incidência nos membros de minorias religiosas como os Baha’i — não reconhecidos pela república islâmica —, e também nos iranianos que vivem no estrangeiro. Em nome do guia supremo, o Setad alegava em tribunal, “por vezes de forma falsa”, que os imóveis estavam ao abandono.Mojtaba Khamenei herda esta máquina de poder e de dinheiro. Numa escala menor, segundo os serviços de informações de um país ocidental citado pela Bloomberg, o novo guia supremo já está habituado a negócios pouco transparentes, tendo contas bancárias na Suíça e imóveis de luxo em Londres no valor de 115 milhões de euros — embora não estejam em seu nome..MNE iraniano garante que "não há qualquer problema" com o novo líder supremo .Khamenei está morto. Quem vai mandar agora no Irão?