À oitava semana da guerra em suspenso com o Irão, e com um bloqueio naval a decorrer aos portos iranianos, o secretário da Guerra norte-americano Pete Hegseth forçou a demissão do secretário da Marinha John Phelan. “Em nome do secretário da Guerra e do vice-secretário da Guerra, agradecemos ao secretário Phelan pelo seu serviço ao Departamento e à Marinha dos Estados Unidos”, disse o porta-voz do Pentágono, Sean Parnell. John Phelan não tinha qualquer experiência na área da Marinha nem da Defesa. Vizinho da propriedade de Donald Trump em Palm Beach, na Florida, o gestor de 62 anos fez fortuna na banca de investimento e mais tarde com os seus próprios negócios, incluindo a coleção de obras de arte. Fazia parte do grupo de bilionários doadores da campanha de Trump e que compõem a sua administração, casos do secretário do Tesouro Scott Bessent, do secretário do Comércio Howard Lutnick, da secretária da Educação Linda McMahon ou do vice-secretário da Guerra Stephen Feinberg. Este último, de acordo com a CNN, foi um dos que entraram em conflito com Phelan, porque alegadamente queria ficar com a pasta das aquisições da Marinha e com a construção naval. .Em dezembro, Trump apresentou a Frota Dourada, com uma nova classe de navios de guerra. Na quarta-feira mostrou-se frustrado pela falta de avanços..Ao que contam os meios de comunicação norte-americanos não foi o bloqueio naval ao Irão que desencadeou o final da aventura política de Phelan, mas desentendimentos com Hegseth no que respeita à política de renovação dos equipamentos - além da falta de confiança deste em Phelan porque este, devido à sua relação pessoal com Trump, tratava diretamente com o presidente. A demissão terá apanhado o próprio Phelan de surpresa, uma vez que na véspera havia participado numa mesa redonda na exposição Sea-Air-Space em Washington. Acontece que as palavras aí proferidas terão sido fatais. O empresário admitiu dificuldades no mercado interno da indústria naval e, ao dar o exemplo de contratos em vigor de reparação e manutenção com o Japão e a Coreia do Sul, mostrou abertura para seguir a mesma via para a construção. “Tudo está em cima da mesa. Só precisamos de analisar, compreender, entender as implicações por trás disso e decidir se achamos que faz sentido ou não”, disse, citado pelo Navy Times.Estas declarações terão sido vistas como uma afronta à política protecionista de Trump (America First) e em particular à estratégia de construção naval que visa incentivar a modernização e expansão dos estaleiros dos Estados Unidos. “Grave erro estratégico e político”, comentou Hunter Stires, que foi estratega marítimo para o secretário da Marinha da administração Biden, Carlos del Toro, para o Washington Post. Segundo a CNN, Phelan foi convidado a apresentar a demissão depois de uma reunião entre Trump e Hegseth, na quarta-feira, e na qual o presidente se mostrou frustrado pela falta de avanços no desenvolvimento da indústria naval. Em dezembro, o presidente anunciou a constituição da Frota Dourada, composta por uma nova classe de navios de guerra, incluindo sem tripulação. Do orçamento proposto ao Congresso para o Departamento de Guerra em 2027, 65,8 mil milhões de dólares estarão alocados à construção naval, em concreto para 18 navios de combate e 16 navios auxiliares. A frota da Marinha dos EUA conta com quase 300 navios, número que nas próximas três décadas deverá aumentar para 381.. O secretário da Marinha também terá ficado fragilizado na sua relação com Hegseth depois de este lhe ter ordenado uma investigação para determinar se o senador Mark Kelly, capitão reformado da Marinha, deveria perder a sua graduação bem como a respetiva pensão na sequência de ter aconselhado os militares a não obedecerem a ordens ilegais. A conclusão de Phelan sobre Kelly não foi tornada pública. A demissão de Phelan é a mais recente desde o início da guerra, depois do chefe do Estado-Maior do Exército, do chefe do Comando de Transformação e Treino do Exército, e do chefe dos capelães do Exército. E junta-se a uma série de controvérsias de Hegseth, entre citações bíblicas em conferências de imprensa para sustentar a ideia de uma guerra religiosa, ou a nebulosa operação de resgate do piloto em solo iraniano.