"Se não me levantasse, os passageiros perderiam a vida”. Piloto lembra ataque e conta que rezou nos momentos difíceis
O comandante indiano que ajudou a frustrar uma alegada tentativa de despenhar um voo da FlyDubai descreveu esta sexta-feira, 2 de outubro, como lutou pela vida após ter sido esfaqueado pelo copiloto e com o avião em descida acentuada.
O comandante Smit Machchhar, a recuperar num hospital de Abu Dhabi, contou ao primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, numa videochamada transmitida pela televisão, que sabia que tinha de se levantar para salvar os passageiros.
“Tinha tantos ferimentos. Tinha caído”, disse a partir do hospital, com a cabeça ligada e tubos no nariz, antes de se ir abaixo ao recordar o ataque. “Estava a lutar pela minha vida. A dada altura, percebi que se não me levantasse, os passageiros perderiam a vida”, disse a Modi, citado pela agência norte-americana AP.
Machchhar ficou gravemente ferido no ataque de quarta-feira, mas conseguiu abrir a porta da cabine dos pilotos, o que permitiu que os passageiros entrassem e imobilizassem o agressor. Enquanto isso, o Boeing 737 descia abruptamente, segundo testemunhas e autoridades israelitas.
Modi disse a Machchhar que a “coragem, paciência e presença de espírito” que teve salvaram muitas vidas.
Machchhar afirmou que a experiência de voo lhe permitiu sentir a descida abrupta do avião, mesmo depois de ter sido esfaqueado pelo agressor.
“Voo há 17 anos e sou comandante há 11 anos. Consigo sentir exatamente o que está a acontecer com a aeronave mesmo de olhos fechados. Quando estava no chão, conseguia sentir que o avião estava a cair em [voo] picado”, relatou.
Machchhar contou que, durante esses momentos difíceis, recitou o “Hanuman Chalisa”, um hino devocional hindu dedicado ao deus Hanuman, tradicionalmente recitado como uma oração de força e coragem.
“O deus Hanuman deu-me coragem”, disse a Modi.
O piloto natural de Mumbai, na costa ocidental da Índia, tem sido aclamado como um herói, com líderes mundiais a afirmarem que ajudou a evitar uma tragédia.
O voo, que transportava 182 pessoas do Dubai para Telavive, foi desviado para Tabuk, no noroeste da Arábia Saudita, para uma aterragem de emergência.
A FlyDubai declarou na quarta-feira que o avião foi controlado por membros da tripulação em serviço, “que desviaram e aterraram a aeronave em segurança”. Um responsável regional pela transportadora precisou que os membros da tripulação em questão eram pilotos em formação.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, disse que o agressor, um cidadão de Omã, foi detido na Arábia Saudita e estava a ser interrogado no local. O móbil do ataque não é ainda claro.
Machchhar, que é casado e tem dois filhos, trabalha para a FlyDubai há cerca de quatro anos, segundo o perfil que tem na plataforma LinkedIn.
Antes de ingressar na companhia aérea, passou 11 anos na SpiceJet, uma transportadora de baixo custo indiana, na qual serviu como comandante sénior e instrutor de voo, e somou mais de 9.750 horas de voo.
Philip Kean, presidente-executivo da Mainland Air, a escola de aviação da Nova Zelândia em que Machchhar se formou, afirmou que os pilotos são treinados para assumir o controlo se um colega de tripulação ficar incapacitado. Contudo, o treino não os prepara para um ataque à facada por parte de um colega, disse à AP.
“Não creio que haja muito nos manuais sobre ser esfaqueado", disse Kean. “Somos amigos e voamos juntos. Ninguém esperaria que uma pessoa nos atacasse dessa forma”, referiu.

